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Nunca estamos sós

Introdução.
No dia-a-dia temos, por vezes,a impressão de estarmos completamente sos. Esquecemos que trazemos, no mais íntimo de nosso ser, uma energia incomensurável, que nos torna "imagem e semelhança" com um poder infinitamente maior; que depende  de nós, reativarmos a ligação, para acessarmos essa energia, sempre a nossa disposição; que a religação com essa energia torna a nossa vida mais suave, tranquila, pacífica e segura. Cabe a nós a escolha!



- Que excitante! O dia estava excepcionalmente produtivo. Duas visitas pela manhã, com o saldo de uma proposta de compra de imóvel. Uma opção de venda no horário do almoço. Agora, outra visita com boas perspectivas de fechamento. Dia “gordo” - pensava alegremente a corretora, enquanto se dirigia ao Edifício Stela Maris, onde havia marcado uma visita de demonstração de imóvel, logo após o almoço.
O trânsito não oferecia problemas nesse horário. Enquanto dirigia, refletia sobre a praticidade das “vias rápidas”,  projetadas para agilizar o acesso do centro ao bairros e vice-versa.  Graças a essa idéia inteligente, a movimentação era mais ágil. Até os quinze sinaleiros que precisariaa transpor eram sincronizados, permitindo um rodar contínuo e tranqüilo.
Nos vinte minutos que a separavam da visita, Letícia fez uma retrospectiva relâmpago de sua trajetória como corretora na capital de primeiro mundo, de um país de terceiro mundo. Há dois anos, quando chegara, sentia-se insegura ao dirigir pelo centro. Preferia os ônibus expressos, tão seguros, fazendo sempre o mesmo trajeto pela estreitas canaletas especiais e parando a cada estação tubo. Aprendera, em poucos meses, a utilizar as linhas principais, fazendo, à pé ou com outros ônibus chamados alimentadores, os trajetos mais comuns.
  Quando se decidira a atuar como corretora, as suas primeiras visitas foram verdadeiras epopéias -  relembrou,  esboçando um suspiro de alívio. Sorriu silenciosamente, revivendo as ocasiões em que conseguia convencer os clientes da imobiliária que era capaz de circular tranqüilamente por qualquer bairro da cidade. Para não demonstrar seu desconhecimento, enquanto atendia o telefone, perguntava ao corretor colega:      – Quanto tempo preciso para deslocar-me até o Bairro X? Quinze minutos? Voltando-se para o cliente combinava: - Então nos encontraremos em 45 minutos, no local – descontando, é claro,  o tempo para consultar várias vezes o mapa, perguntar ao jornaleiro, errar e acertar nas ruas de mão única.
   Lembrou-se como há alguns meses filiara-se a um convênio do Conselho de Corretores com uma instituição financeira famosa para vender os seus imóveis. Quantas experiências interessantes estava adquirindo.
  Imersa em seus pensamento, passou em frente ao edifício  Triton,  lembrando que hoje mesmo, colhera uma pré-proposta e reserva de compra para o  apartamento que o convênio oferecia. Um desafio!  Costumava-se dizer, entre seus colegas, que aquele que vendesse  o apartamento do  Triton  poderia ser considerado o corretor do ano.  O preço era acima do valor de mercado e a síndica não permitia o uso da chave externa pelos corretores. Exigia acompanhar cada visitante. Eliminava  qualquer proposta, oferecendo descaradamente o apartamento dela, melhor localizado e com preço aceitável. Quase ninguém no Convênio aceitava demonstrar aquele imóvel. A própria Letícia, hoje pela manhã, aceitara, num impulso, mas logo se arrependera. Fora ao local sem grande empenho, apenas para não decepcionar o cliente. Nem marcara com a síndica, como era de praxe, torcendo para que ela não estivesse e assim abortasse a visita, para se livrar de todo aquele ritual, que ela tão bem conhecia, e cujo final já era previsível. O cliente? Sem problemas. Já armara um esquema para levá-lo a outro apartamento nas proximidades, com maiores condições de  negociação. Qual não fora sua surpresa quando, ao interfonar para a síndica, sua filha permitiu a visita sem maiores delongas, pois a mãe saíra. E, surpresa maior: o cliente aprovou o imóvel!
Quase inconscientemente Letícia acariciou a pasta marrom, onde estava a pré-proposta. Aquela pasta guardava muitos “tesouros”. Era um presente de sua irmã e ela acreditava que trouxera consigo uma poderosa energia para bons negócios. Ali estavam documentos importantes, dela própria e de clientes, além de cartões de banco, celular, agenda  e outros objetos pessoais. Letícia referia-se a ela como: “meu escritório ambulante”.
  Nessa linha de pensamentos antevia os olhares de admiração de seus colegas quando soubessem que ela, finalmente, havia vendido aquele “elefante branco” e faria jus ao título de melhor corretora do ano. Muito  importante para quem estava no mercado há apenas oito meses...
  Bem, chegara ao local. O melhor estacionamento seria defronte à Igreja, pois nesse horário poucos carros ali estariam.  De fato, até o casal de clientes também optara por esse local. Estacionaram lado a lado.
Rapidamente Letícia repassou na memória, como costumava fazer, os  pontos fortes que destacaria naquele imóvel: preço, localização, acesso por ônibus, linda vista... Antes de sair com a pasta marrom lançou um último olhar à Igreja, onde sempre participava das missas, pedindo proteção. Saiu confiante ao encontro de casal com seus dois filhos.
  Seria difícil satisfazer os anseios dos quatro ao mesmo tempo, pensou. Era preciso estar atenta a cada detalhe.
Seguiu tranqüila e segura. Certamente Deus a iluminaria.
 - Veja, desta janela a senhora poderá acompanhar a chegada de sua filha, na volta da Faculdade. A estação tubo é ali...
 - Essa garagem é espaçosa. Você, que acaba de tirar a carteira de motorista, poderá entrar até de ré...
 - Esse quarto é o mais silencioso. O senhor, que gosta de ler as notícias esportivas, pode ficar bem sossegado...
 - Aqui  na sacada pode-se colocar um varal portátil para secar as calças jeans...
  - Não se preocupe. A sala é ampla. Pode colocar o piano com facilidade.
  - Não podem ir agora ao escritório? Sem problemas. Podemos preencher já a pré-proposta para reservar o imóvel. Tenho os formulários aqui no meu escritório ambulante. Só preciso de algumas informações. Vamos até o seu carro.
Retirou da pasta marrom os formulários . Aproveitou o capô do carro do cliente como mesa  e, cuidadosamente, foi preenchendo-os, com os dados fornecidos, interrompendo-se aqui e ali para algum esclarecimento sobre os trâmites de financiamento. Buscou na pasta, que colocara  no asfalto ao lado do carro,  o kit,  com a relação dos documentos e modelos dos formulários necessários ao financiamento, definiu as linhas básicas e marcou novo encontro no seu escritório, dentro de dois dias. Trocou telefones e endereços.
Assinada a proposta e finalizadas as  informações, Letícia despediu-se dos clientes e voltou alegremente para o carro. Estava radiante. Nem ousava acreditar no que estava acontecendo: mais uma venda.  Que dia magnífico!
Entrou no carro, deu a partida mas, teve de esperar pacientemente  a manobra dos clientes para saírem e deixar um  outro carro estacionar no local.
Finalmente manobrou e saiu apressadamente, mentalizando o impacto que causaria ao entregar duas propostas “quentes” de imóveis de bons valores. Sentiu uma pontada de remorso por não ter sequer lembrado de entrar na Igreja para fazer uma oração de agradecimento.
Deus é compreensivo, misericordioso e vai entender a minha pressa - pensou.
  Na verdade, não havia mais pressa. Apenas um sentimento aconchegante de sucesso, de trabalho realizado... Os sinais de trânsito, tão demorados, já não a perturbavam mais. Tamborilando os dedos no volante, mentalizava as quadras que a separavam do escritório. Pensou que finalmente poderia fazer um lanche. Nada mais justo, para coroar um dia de trabalho tão intenso, onde não tivera nem tempo para almoçar. Pensou em dar um telefonema para a filha, para ambas se encontrarem na lanchonete costumeira, onde comemorariam o sucesso do dia. Não a via desde manhã.As duas quase não tinham tempo de conversar. Seria uma ótima oportunidade para  colocar a conversa em dia. Decidiu que no próximo semáforo fechado, faria a chamada e pararia no acostamento para  combinarem calmamente o encontro. Com os olhos fitos no farol que abria, procurou mecanicamente, com a mão direita, a pasta marrom, sobre o banco do passageiro, onde sempre a colocava. Continuou o estender o braço, buscando no tapete – talvez tivesse escorregado numa freada. Não encontrando, arriscou uma olhada mais demorada. Nada.
 – Está lá atrás, é claro! – pensou sorrindo. Na próxima parada eu a  encontro e pego o celular.
 Freando suavemente ao sinal vermelho, virou-se vagarosamente, sentindo uma descarga elétrica perpassar-lhe a espinha.  Imediatamente deu-se conta da gravidade da situação. Viu, num clarão repentino em sua mente, o local exato onde estava a pasta marrom, com o celular, seus documentos pessoais, seus cartões, dinheiro e...documentos completos  de financiamento de seis clientes, além da proposta da manhã, da opção de venda e documentos do imóvel, sua agenda com todos os endereços importantes e compromissos agendados... Só se salvara a última proposta, que ela colocara no banco de trás.
Via claramente, em sua imaginação,  a pasta em pé, no asfalto, em frente ao local, onde seu carro estivera estacionado. Percebeu que estava suando frio. Sentiu-se uma criança, descoberta  em transgressão, acuada, sem ter saída para o problema. Precisava pensar depressa.
O sinal abriu. Era preciso passar para a faixa da esquerda antes do próximo cruzamento para voltar urgente. Deus! Como estava longe! Telefonar para a portaria? Para a secretaria da Igreja? Sem celular... sem saber os números...
- Deus!  Que loucura! E o dia havia começado tão bem...
Bem, o que poderia fazer? Lembrou nitidamente as palavras de sua mãe: “Manter a calma. Respirar fundo. Pedir e confiar em Deus.” A saída era mentalizar a pasta ali, onde a deixara, invisível para todos. Nem por um segundo permitir pensamentos negativos.
-Deus é pai e é misericordioso. Vai permitir o milagre – repetia para si mesma. Não podia cometer nenhuma infração de trânsito pois a carteira de motorista não estava com ela. Nenhuma blitz  policial se atravessará em meu caminho - pensou. É preciso manter a serenidade...Cantarolar, fazer uma oração fervorosa, continuar mentalizando, só pensar coisas boas...
A melhor coisa ?  Ela chegando e vendo a pasta de longe... cada vez mais perto.
  Pareceu um trajeto de duas horas, os vinte minutos que ela trafegou.  Finalmente chegou. Não conseguiu ver a pasta! E aquele carro se movimentando para sair. Ela impaciente por perder mais alguns segundos – precisou aguardar as manobras do outro carro. – Por que ele ainda está aí?    Era o carro que a retardou quando saíra e agora novamente quando voltava. Por que o motorista é tão lendo? – pensa impaciente. Ah! Finalmente posso entrar.
Novamente uma corrente elétrica percorreu-lhe todas as veias e artérias. As pernas fraquejaram diante da visão. O motor, sem controle, morreu abruptamente.  O motor do corpo – o coração de Letícia pareceu querer saltar-lhe do peito.
Cena interessante: o carro parado, mal estacionado, a motorista paralisada, olhando com olhar estatelado para uma... pasta marrom, totalmente exposta no asfalto, em pé, altaneira, esperando que alguém  fosse apanhá-la!
Sentada no banco da  igreja, esgotada pela forte emoção, Letícia juntava os fatos tentando explicar como tudo acontecera: o carro estranho encobrira a pasta. E ficara estacionado o tempo exato que ela precisou para ir e voltar.
–Deus! Exclamou. Pela frente, ninguém a viu,  por que ela era da altura do suporte do muro de palitos. E havia uma floreira por fora do muro, impedindo as pessoas de passarem rente ao muro – somente naquele local. E na vaga que ela havia estacionado, por que ninguém a ocupou quando ela saíra?
Podem não existir milagres, mas como se chamaria a série de coincidências que se juntaram para encobrir a pasta de Letícia pelo tempo exato de sua ausência?
Desta vez Letícia teve muito tempo para entrar na Igreja e agradecer – não pelos negócios realizados, mas pelo cuidado que o Divino Criador tem pelas suas humildes criaturas, fato que ela acabara de comprovar.
      Lembrou-se novamente das palavras de sua mãe: onde quer que você esteja,por pior que você se sinta, por maior que seja o seu problema, lembre-se - DEUS  estará sempre do seu lado. Basta deixá-Lo agir...
 


Serelepe
Enviado por Serelepe em 22/10/2006
Reeditado em 03/02/2007
Código do texto: T270739

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