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O HOMEM CUJAS ORELHAS CRESCERAM

                      O HOMEM CUJAS ORELHAS CRESCERAM

Não, não eram aquelas orelhas que com o tempo e com a gravidade vão descendo (aliás, como outras partes do nosso corpo), descendo antiesteticamente. Aquelas orelhas cujos lóbulos parecem querer beijar os ombros, dar umas fungadas ali. Não! Essas eram orelhas grandes, enormes! Cresceram contra a gravidade e ficaram caricatas.
Fortunato, visto agora, parecia deveras uma caricatura. Ele até que, em sua adolescência e juventude, chegou a ser gracioso, mas agora, aos 45, a passo da chamada maturidade, estava caricatural mesmo. As orelhas crescendo, crescendo! Só Deus sabe onde iam parar!
O pobre já tinha consultado médicos e mais médicos e todos, embasbacados e boquiabertos, como se dizia, não atinavam com a causa dessa teratiaa, mas muitos medicavam o deformado e isso contribuía para lhe dar um aspecto mais caricatural. Na realidade, o rosto de Fortunato estava ganhando formatos não definidos. Pelo menos humanamente não definidos! E as orelhas crescendo e subindo mais a cada dia.
Como era um cara de razoável posse, foi aos Estados Unidos, no melhor centro ótico de lá, e a resposta à sua deformação foi a mesmíssima: causa desconhecida. Em todo caso, passariam um remedinho para, pelo menos, tentar coibir o processo de crescimento. E surtiu efeito: a orelha, por uma semana, subiu menos, mas, na sua base, formou uma espécie profunda de concha auditiva, talvez até acústica!
Desespero de Fortunato e dos familiares. O desinfeliz, à semelhança do rei Midas, começou a usar um turbante, para encobrir a orelhona pontiaguda, porém ganhou um aspecto mais ridículo ainda, porque, por algum problema sério de metamorfose, o cabelo, bem mais grosso também, saltava acima do turbante, espetado, denunciando deformidade.
Um amigo dele, perturbadíssimo também, porque começava a sentir uma estranha repuxada na orelha direita todas as noites logo após os noticiários da televisão, resolveu buscar informações sobre a estranha e indigesta anomalia. Entregou-se à internet e às enciclopédias e foi atrás. Não correu atrás do prejuízo, como se diz neste país, porque, se levado ao pé da letra, seria uma tremenda bobagem correr atrás de prejuízo, ele só aumenta com essa atitude. Correu atrás de solução, por mínima que fosse.
Aleluia, aleluia! Lá estava um vislumbre de solução!  Segundo a Enciclopédia das Deformidades das Extremidades Humanas, vulgas EDEH, havia um sujeito em Paris, talvez um médico, talvez um curandeiro, talvez um charlatão, talvez..., bem o fato é que ele era citado, Messieur Curat, como um especialista em deformidades das nossas extremidades.
Fortunato e o amigo, Eugênio (que não se perca pelo nome!), partiram para Paris em busca de alguma luz, ou de um bisturi, tesoura, raio laser, sei lá, algo que interrompesse a monstruosidade.
  As orelhas de Fortunato estavam maiores, já atingiam, em direção ao céu, a incrível marca de vinte centímetros a partir da base e agora com formato definido: eram orelhas de burro.  O turbante conseguia prendê-las, mas os cabelos insistiam em enrijecer, em engrossar, feito crina, e em subir tão pontiagudos quanto as orelhas. Mesmo o chapéu que ele tentava usar ficava bem acima da cabeça, por causa do turbante e desses cabelos espetados. A figura de Fortunato beirava ao escatológico. A de Eugênio caminhava para a mesma situação.
Chegaram a Paris e correram para o tal Curat. O homem mandou despirem-se para poder verificar se a esdrúxula metamorfose era localizada ou generalizada. Se fosse essa segunda hipótese, definitivamente não havia solução. Não, tudo parecia em ordem, no lugar, nenhum outro pelo ou extremidade ousara crescer um milímetro sequer.  Curat demonstrou tranqüilidade após esse primeiro exame, mas Fortunato e Eugênio estavam tesos e tensos.
O homem sentou-se na sua escrivaninha e se pôs a folhear um calhamaço de papéis, à procura de alguma luz, e virava página, voltava, olhava, pegava a lupa, mexia de novo, olhava, lia alguma coisa mais demoradamente, voltava pras páginas iniciais. Os dois, pelados, incomodados, olhavam apreensivos o ir e vir de Curat, que não demonstrava atinar com uma solução. Por fim, o especialista amontoou a papelada, anotou algumas coisas num bloco e trouxe, não uma receita, mas uma simples sugestão:

“Voltem para o seu país e fiquem sem ler jornal, revista, sem ver televisão, nem ouvir rádio, nada, nada que possa trazer notícias, nada, nada, fiquem de férias em casa, ouçam músicas por trinta dias, nada de conversar sobre política, sobre nada. Voltem exatamente daqui a trinta dias! Se for o que estou pensando, já estarão curados. Se não for, não tenho a menor idéia do que causa isso em vocês.”

Desesperançados, os dois voltaram, mas, como era a única corda para se apegar,  resolveram acatar e viajaram juntos para os cafundós de um povoado sem qualquer recurso tecnológico e conseguiram ficar trinta dias do jeito que Curat recomendou.
Surpresos e curados, mas já com algumas pontadas das orelhas tentando crescer de novo, depois que leram manchetes de jornais numa banca do aeroporto, desligaram-se do mundo novamente e correram para Paris em busca da cura definitiva.
Curat recebeu-os estranhamente mais preocupado que da vez anterior. Eles não entenderam o motivo da preocupação e questionaram o porquê dela, se eles voltaram curados?!
– É que confirmei a minha suspeita e sei qual é a causa. E não nego que conhecer a causa já é um grande avanço, mas não vejo muita possibilidade de cura. E o pior: tudo é uma questão de tempo todos terem orelhas de burro, por motivo óbvio. O processo começou com vocês dois, mas... a burrice já deve estar se generalizando.
– Como assim? O que você está dizendo?
    – É simples: no seu país, os políticos e demais autoridades, incluindo os donos do dinheiro, os traficantes, o crime organizado, todos fazem o que querem e vocês todos dizem amém. Você vai fazer compras num shopping e os administradores resolvem cobrar estacionamento e vocês aceitam passivamente; vão ao banco, eles resolvem cobrar estacionamento, e vocês aceitam passivamente; vocês trabalham cinco meses do ano só para pagar impostos e não recebem nenhum serviço decente pelos serviços públicos que esses impostos deveriam devolver e continuam aceitando passivamente; seus representantes no Congresso passam anos discutindo causas próprias, como passagens de avião para familiares, amantes, etc., décimo quinto salário, aposentadoria após quatro ou oito anos de trabalho, bônus, regalias, o próprio aumento salarial, etc., e vocês, passivamente, reelegem os mesmos representantes; país em que a polícia prende bandidos perigosíssimos e a Justiça manda soltá-los imediatamente; vocês são de um país em que a corrupção grassa em todos os setores e vocês aceitam, passivamente, que tudo acabe em pizza; num país onde o presidente do Senado recebe auxílio-moradia irregularmente por dez meses e depois, descoberto, diz que não sabia, e vocês dizem amém passivamente; num país onde há um descarado nepotismo branco, isto é, um político, deputado ou senador, emprega com gordos salários parentes de colegas, e os colegas empregam seus parentes e, quando descobertos, dizem “eu não sabia” e tudo continua como antes; num país onde um representante do povo quer dar um terceiro mandato a seu presidente e falsifica assinaturas de outros representantes e não acontece nada, mas nada mesmo com ele, ora, ora... um povo assim só pode ser burro mesmo. Por isso, é sim uma questão de tempo todas as orelhas humanas dos seus patrícios mudarem de formato: pontiagudas de burro. E olha que não estou mesmo me referindo a um povo do lado de cá do Atlântico não! Preciso dizer mais alguma coisa?
– Hãããã!!!!!???

Leo Ricino
Maio de 2009.
Revisto em 17/01/11
Leo Ricino
Enviado por Leo Ricino em 17/01/2011
Código do texto: T2734443
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Sobre o autor
Leo Ricino
São Paulo - São Paulo - Brasil, 68 anos
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