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         *A BOTIJA

               - Vou à casa do tio. O pai disse que eu fosse buscar pimenta para fazer o molho.
               - A essa hora, menina, já está próximo das cinco horas da tarde. Daqui a pouco escurece, é perigoso.
               - Perigoso por quê? Não tenho medo dessas asneiras que contam: Lobisomem, que aparece na lua cheia? Saci, de uma perna só, fumando um cachimbo, no mato? A burrinha do padre? – É isso mesmo. Dizia a avó. Mulher que namora padre vira "burrinha de padre". Ou o homem gigante? O homem é enorme, tem um olho só, na testa. Pega as criancinhas desacompanhadas, põe debaixo do braço e a cada mordida, dá um grito, para que ninguém possa ver o choro da criança. - Isso tudo é invenção para amedrontar as crianças, nem me impressiona.
               - Não acredito nem em avião, que trás os bebês! Minha irmãzinha nasceu e não vi este avião! ( No lugar a história da cegonha era desconhecida.)
               - E de alma penada? Arrastando uma mala de ladeira abaixo? Ah! Essa sim, me deixava arruinada, olhos arregalados, coração em frangalhos. Certa noite, já estava na “cidade grande” quando abri os olhos, vi uma alma na minha frente, olhando bem pra mim! Abri o berreiro, gritei feito uma desesperada. Acudiram todos. – O que foi?
onde está o ladrão? - Ali, pendurado no armador, uma alma.
               - É seu vestido, minha moça, Fique calma. Ele. Só ele, meu pai. O restante deu uma surra de palavras.
               - A alma penada, era o bisavô. Dono de todas das terras do povado. Depois foram vendidas, doadas, divididas com herdeiros e assim surgiu o povoado. Dizem que até a louça era de prata vinda da França e os talheres de ouro. Mas quando surgiu por aquelas bandas assaltantes, ele enterrou tudo numa mala, na barreira do rio e nunca mais encontrou. E a alma penada arrastava a mala barreira abaixo, fazendo um enorme barulho.. Essa história deixava todos com as ”barbas de molho”. É história de trancoso, isto é, historia de assombração, de mentira! Só sei que arrepiava os cabelos
                - E a “França”? É aquela dona França que faz panela de barro?
               - Não menina! É lugar bem longe. Não se pode ir nem a cavalo, nem de navio, só de avião.
               - Assim mesmo coloquei umas palhas debaixo do braço, um rabo de burro no cabelo e fui caminhar para o sítio do tio. Tinha que passar por um córrego e na base da barreira assombrada.
               Ouvi um gemido estranho. Pensei na alma penada. Comecei a correr, chorando, gritando. "Alma...Alma"... Os cabelos se soltaram, caindo sobre os olhos, as sandálias, saíram dos pés entrando de mato adentro, nunca mais as encontrei. As palhas voaram pelo ar, feito borboletas adoidadas. Foi um esforço sobre-humano para resistir a tanto medo.
               - Uma senhora que morava ali perto, a dona Carmelita, veio ao meu auxílio, me abraçando, me acalmando.
Sai do mato uma criança despida, correndo.
               - Menino safado! Você anda provocando medo às meninazinhas que passam por aqui, mando seu pai lhe surrar.
               “Eu senhora? Tava fazendo medo não”. Fui ali ao mato e meu cachorrinho saiu correndo com minhas calças.


Obs.- As almas penadas foram substituídas pelos lobisomens, que atacam crianças; pelo homem de muitos olhos, sugando nosso patrimônio e o erário público; a burrinha sabe Deus lá o que anda fazendo na calada da noite.

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Sonia Nogueira
Enviado por Sonia Nogueira em 05/11/2006
Reeditado em 01/07/2014
Código do texto: T283016
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Sonia Nogueira
Fortaleza - Ceará - Brasil
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Sonia Nogueira

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