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"PORRITE"

 Cissa de Oliveira


    Às vezes eu tenho vontade de voltar a ser aquela moleca das canelas arranhadas e joelhos desenhados de tanta travessura. Pelo menos teria uma aceitável desculpa para me grudar nuns e noutros cabelos por aí. Talvez o primeiro caso não ocorresse muito distante já que provavelmente seria no elevador do prédio onde eu moro, a qualquer hora entre as dezenove e às vinte. Nada me irrita mais do que “aquelas” caras de elevador. Aliás, só existem duas coisas capazes de me fazerem explodir ao voltar pra casa. Uma é a alegria de chegar. A outra é ver algumas “daquelas” caras. Isso dispara algum mecanismo que me deixa acesa e em polvorosa. Ainda mais quando chego de viagem.

    Mas voltemos ao começo: Sampa. Quem já pegou a Marginal do Tietê e a de Pinheiros a qualquer momento do dia mas principalmente depois das dezessete, sabe disso: nem com todas as precauções, e olhe que da minha parte normalmente não são poucas, se consigue passar ileso por aquele trânsito similar a tortura chinesa. Querem ver? Água: uma garrafa gelada. Biscoito salgado: dois. Sabor queijo, e sabor queijo de novo, meu predileto, please! Chocolates: 3 barras, Ah! E bem suaves, que depois das dezessete até os dentes merecem uma relax. Escolho um recheado de coco desfiado, um no estilo “suflair” e outro ao leite. Musiquinha alegre pra despistar os últimos dias, caso eles tenham a infeliz idéia de seguirem meu rastro. Aqui pra eles! Que fiquem lá, entre as oito “de la matina” e as dezessete, o que já está de bom tamanho.

     Até aí são os ossos do ofício, coisa que uma moleca não daria conta, mas depois... depois é chegar e enfrentar a “característica” (sou daquele “rol” que não fala em problemas) de entre o subsolo e o 11º andar.  Até o elevador eu vou mesmo devagar. Posso? Ou acham que é fácil arrastar duzentos e vinte e cinco pacientes dentro da minha bolsa de estudante pós-graduanda retardatária? Acham? Eu não, então retardatária por retardatária, se eu quiser vou me arrastando pelas escadas. Foi-se mesmo o tempo da Cinderela obrigada a chegar antes das doze badaladas.

     Mas não: um entre os quatro vizinhos já no elevador deve ter reparado em mim e resolveu esperar. Faço aquela cara de “não precisava”, e não precisava mesmo, mas digo: - Oh! Muito obrigada! Lá pelos quintos, desceram pai e filho. Ficaram duas mulheres. Meus olhinhos que enxergariam por entre as pálpebras mesmo que fechadas, e o meu instinto de quem se empanturrou de chocolate sentem quatro olhos a devorarem. Pior é que o prato sou eu.  Mais “pensa” para o lado direito, onde está a bolsa com os duzentos e vinte e cinco pacientes do estudo, do que para o outro lado onde está a minha bolsa de mulher prevenida para antes, durante e depois da guerra, seguro entre as mãos o paletó azul claro manchado de chocolate.  Os “zóios” das canibais me esquentam e tenho logo vontade de falar uma besteira bem grande.

     Esfrego uma parte do paletó como se a iluminação indireta do teto do elevador fosse uma bica cristalina. Com sorriso descomunal e olhar em soslaio digo sem qualquer motivo aparente:  - Chocolate!!!  Uma sorriu e a outra parecia querer me comer como quem come as sobras, só para me matar. Aí foi pior, porque eu disse alto “-Acabei de comer três, e sem culpa nenhuma, pode?” Nisso, a porta do elevador se abriu. Era a minha vez de sair mas eu ainda emendei:  - Uái (e nem sou de Minas Gerais), pois se não tem gente que “acende um no outro” e ainda respira até a morte? Ahahahahahah boa noite!”

    O boa noite delas foi sonoro. Das duas uma: ou foi porque eu havia acabado de fazer duas conquistas ou foi porque eu saí. Ah! Que cuidem das suas vidas e dos seus cabelos. Entre tantas “porrites” da vida, esse negócio de elevador é apenas mais uma daquelas que infectam até a alma... é o que vou pensando enquanto giro a chave.

   Giro pra lá e entro. Giro pra cá e meu marido vai logo perguntando se eu quero comer pizza. Meia atum e meia quatro queijos, minhas prediletas.  - De sobremesa uma de chocolate, o que acha?

   - Bom, acho que eu estou de regime... mas sabe que eu topo!

Cissa de Oliveira
Enviado por Cissa de Oliveira em 06/11/2006
Reeditado em 11/11/2006
Código do texto: T283429
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Sobre a autora
Cissa de Oliveira
Campinas - São Paulo - Brasil
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