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O Circo

      - Respeitável público.

      Rouco e com convicção duvidosa, nem mesmo a saudação do obeso apresentador soa real. Cartola desfigurada. Manchas de aguarrás no paletó. Calça com corte improvisado. Figurino reciclável. A idéia de levar o filho, que mantém os fones do ipod enterrados nas orelhas, ao circo, serviria para resgatar os valores infantis sepultados na era moderna. Sentados nos longos bancos de compensado, escolhidos de longe pelo pai, suam o calor vulcânico da tenda.

      - Quer pipoca, Dudu?
      - “Não olhe para mim, fingindo não saber...”
      - DUDU!!!
      - Quê?
      - Vai ficar surdo com essa música nesse volume! Quer pipoca?
      - Não.

      A ânsia em acomodarem-se na arquibancada mais alta mostrava-se injustificável. Poucas pessoas compõem o “respeitável público”. Um grupo de alunos de excursão risca, com canetas bic, desabafos pré-adolescentes. Zé esteve aqui. Foda-se a matemática. Clarinha é gostosa. Odeio palhaços. No outro banco, desértico, um senhor luta contra o balanço da cabeça no auge do sono. Turistas japoneses, agarrados às câmeras profissionais, fotografavam eufóricos o coito dos leões. Gargalhando trechos intraduzíveis, comemoram a nitidez das fotos. Na outra ponta, um homem barbudo ameaça estapear sua mulher, enquanto mastiga, nojento, uma espelhada maçã do amor.

      - Está vazio. Acho que foi a chuva!
      - “Se nada está tão bem, só estou perdendo tempo...”
      - Tira esse negócio da orelha pra assistir o espetáculo!
      - “Só me responda agora...”
      - Hunf.

      O elefante, menos gordurento do que o apresentador, inicia o espetáculo. Equilibrando-se sobre duas patas, hesita caminhar sobre a plataforma de aço. O bambu, estalado na carne cinza, acaba por convencê-lo. Após dois passos desiste, aceitando cansado a tortura carnal do domador. Pai mudo. Filho quieto. Grupo de japoneses acotovela-se para  fotografar, em intervalos míseros, a declaração de impotência do animal.

      Dois leões raquíticos, protagonistas do sensual ensaio fotográfico momentos antes, caminham tortos para suas posições. Arcos de fogo, que aumentam a intensidade da sauna, distorcem a imagem. Chicoteados por fios de couro, os animais mostram a dentição falha. O barbudo esmurra o ombro da mulher apontando a banguela do felino, enquanto lambe o que sobrou do palito açucarado. O grupo oriental responsabiliza-se por registrar o rugido aposentado da fera.

      - Acho que os animais estão cansados, filho.
      - “Só me responda agora...”
      - Ainda faltam os palhaços.
      - “Eu te fiz feliz? Eu te fiz feliz...”

      Ainda tentando entender a apatia do filho, o pai percebe o barulho das cornetas. Na verdade, da corneta. Volta os olhos para o centro iluminado. Lento, cores encardidas em preto e branco pálido, abandonado no palco, tímido. O palhaço. Brincadeiras clássicas, gargalhadas rasgadas, piruetas cômicas, vozes desafinadas, vontade de abraçar, platéia hipnotizada, cheiro de talco. Nada disso fazia parte daquele pacote circense.

      As pichações nos bancos continuam, o velho oscilante deita-se, perdendo a luta para o sono bambo. O barbudo verifica se as moedas compram uma lata de cerveja. Conferindo o saldo fotográfico escatológico estão os japoneses. Sentado em um banco de madeira, de farpas salientes, o ícone artístico do circo põe-se a lacrimejar. O branco da gota,  misturado à maquiagem, contrasta com a pintura vermelha da boca. O palhaço chora sem graça o fim do espetáculo.

      Antes que as cortinas fechem e ensaie o levante, o pai recebe em seu ouvido um dos fones, ajeitado pelo filho. Sente o braço adolescente sobre seu ombro e esconde-se do tempo, ouvindo-o pela primeira vez.

      - “Tantas vezes você precisou e eu não pude ver...nada além de mim.”
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 08/11/2006
Reeditado em 08/11/2006
Código do texto: T285206

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
232 textos (20872 leituras)
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Felipe Valério