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Ode à despedida

Um belo dia, sem muitas explicações, o mundo parou. A NASA quase endoidou, sem entender a súbita interrupção do movimento arbital da Terra e das rotações em torno de seu próprio eixo. O estado de repouso em relação ao Sol negou teorias, estudos e tudo que se sabia até então.
Intuitivamente, todos os terráqueos notaram que nossa Era chegava ao fim.
Sentei na varanda de casa, chocada pelo que acabara de ver no jornal (que foi bem breve. O satélite que transmitia as imagens pifou). Fiquei vendo aquele crepúsculo por umas duas horas.
Sim, porque as fases de um dia completo ficaram paralisadas, espalhadas em gomos pelo globo terrestre. Nós acabamos ficando com o presente do crepúsculo. Difícil definir. Ao olhar-se para leste, via-se um azul intenso que nascia eternamente. Ao olhar-se para oeste, tons de rosa, depois laranja, depois vermelho tomavam conta do céu. Havia ainda uma pontinha de Sol. Um Sol amarelo intenso.
Chorei um pouco. De medo, de insegurança. Chorei as lágrimas de uma criança que não quer viajar.
Pessoas passavam gritando, correndo.
Eu apenas olhava da varanda acompanhada por minhas lágrimas acovardadas.
Logo passou uma procissão pedindo ao "Nosso Senhor" que nos devolvesse o "presente da noite e do dia".
"Como as pessoas se unem rápido quando querem", pensei.
De repente, todos estavam arrependidos de tudo.
Irônico, no mínimo.
Achei que o desespero dessas pessoas era da vida não vivida, vida essa que agora escapava por entre os dedos como a água de um rio.
Foi então que irritei-me com a minha passividade perante os fatos, e fui pras ruas também. Não com intuito de pedir, implorar...
Levantei, peguei as chaves do carros, saí. Não havia muito mais a fazer, e decidi que o melhor era dizer que eu amo a quem eu amo.
E disse. Contei-lhes o quanto as amei.
Fiz uma lista de pessoas, e notei que eu realmente amava muita gente. Mais do que eu pensava que amava.
Notei que muita gente me amava também.
Como sorriam quando me viam! Eu nunca tinha notado antes, ou hoje elas sorriam mais?
As lágrimas que vinham aos meus olhos agora eram de felicidade.
O crepúsculo era inspirador. Como era lindo aquele momento estático! Aquele momento que ficaria para sempre. Se nos mataria ou não, não importava. Ele era lindo.
No caminho encontrei muitas pessoas. Pessoas que me confessaram o quanto eu fui importante em suas vidas (e eu mal pude acreditar!), outras que eu tanto estimava e me olhavam, sem me ver.
Quantas supresas aquele fim de dia traziam!
Os relógios pararam, todos eles. Então acabou-se o tempo. Agora que não havia tempo, finalmente todos tinham-no!
Continuei dirigindo. Dessa vez, em direção ao Sol.
O crepúsculo era bom.
Parecia a hora de sair do trabalho.

Alessandra Martins
Enviado por Alessandra Martins em 09/11/2006
Reeditado em 21/11/2006
Código do texto: T287033

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Sobre a autora
Alessandra Martins
São Paulo - São Paulo - Brasil, 28 anos
64 textos (3725 leituras)
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Alessandra Martins