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passado

Diana caminhava de um lado para o outro em seu quarto, remoendo antigos  erro, lamentando o futuro sombrio que parecia espera-la na próxima curva do caminho sinuoso que começara em companhia de Iran, mas que teria de terminar sozinha.

Como pudera ter cometido o erro de se expor? Nunca deixara que seu passado viesse á tona, nunca imaginara que um dia deixaria. Velhos medos, velhos pesadelos, velhos sentimentos. Conseguira esconder o desejo de vingança e o ódio atrás de uma mascara de falsa felicidade, uma mascara a muito afixada sobre sua verdadeira vida.

Por momentos imaginava que havia se tornado a personagem, que seu passado sumira e que ela se tornara realmente a pessoa que fingia ser a tanto tempo, mas então os sonhos voltavam, e ela se via novamente deitada na antiga cama, coberta com o sangue do marido, cercada por aqueles que um dia julgara seus amigos e que na verdade revelaram-se os carrascos de sua desgraça.

Iran não demorou a perceber que havia algo errado, a namorada sempre tivera o sono perturbado, mas nas ultimas semanas acordava gritando, suada e com o olhar estranhamente apavorado, como se tivesse visto algo que tirara toda sua vontade de respirar.

Não adiantava perguntar, conhecia Diana bem o suficiente para saber que ela não lhe contaria nada, e não tinha a quem recorrer, nada sabia do passado da namorada. A muito desistira de tentar entender os motivos que levaram Diana a abandonar a família e seguir sozinha, ela se recusava a falar no assunto, dizendo apenas: bobagens, desentendimentos bobos que agora já não importam. E calava-lhe a boca com um beijo, encerrando a discussão.

Diana nunca contara ao namorado, a nenhum dos que tivera, que na manhã da sua noite de núpcias acordara banhada no sangue do marido, que jazia a seu lado com a garganta cortada. Ainda podia sentir a textura do sangue quente sobre seu corpo, a sua volta, o cheiro do sangue nos lençóis a acompanhava todas as noites.

Não amava realmente Iran, sabia que não amaria outro homem a não ser o marido morto, na verdade preferia assim, era mais fácil deixa-los quando começavam a perguntar do seu passado, ou quando os sonhos recomeçavam. Porque eles sempre recomeçavam. Todos os ex-namorados de Diana haviam acordado um dia e ela não estava mais ali, como se nunca tivesse existido ou cruzado seus caminhos.

Iran dormia tranqüilamente. Diana colocou as roupas na mochila, vestiu o jeans e a blusa, calçou as botas e saiu pela porta do quarto, apagando a cada passo os últimos quatro meses.
Patricia
Enviado por Patricia em 10/11/2006
Reeditado em 10/11/2006
Código do texto: T287617
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Sobre a autora
Patricia
Panambi - Rio Grande do Sul - Brasil, 28 anos
30 textos (1179 leituras)
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Patricia