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O PAI DA MIRELA COMEU A MÃE DA MANOELITA

É verdade sim! Eu também não acreditei quando fiquei sabendo.
A Manu, como nós carinhosamente a chamamos, tão pequenina, uma graça, não incomoda ninguém. No seu ritmo, ocupa os seus espaços, inventa o seu mundo, conquista o afeto de todos. Já está conosco há 3 anos, cresce a olhos vistos. Mas, invariavelmente, uma cena me vem à cabeça quando dou banho na Manoelita,  é a imagem do pai da Mirela comendo a mãe dela.
Desculpe, acho que a frase acima não ficou clara. É que, desde que comecei a contar esta história, já fui interrompido 3 vezes pelo meu filho e aí vem ele novamente.
- Pai.
- Hum?
- O trabalho da escola, pai.
- Espera um pouquinho, já vamos ver...
E lá se vai a concentração. Paro, releio. Está confusa ou não? Quando já estava engrenando de novo.
- Pai.
- O quê?
- O trabalho, pai.
- Mas eu já pedi. Espera um pouco...
- Mas eu já esperei!
- Só mais uns minutinhos, filho.
Onde é que eu estava mesmo? Na mãe da Manu, não! Era o pai da Mirela que, não. Era no banho da Manoelita, não, não. Era a lembrança da cena do pai da Mi comendo...
- Pai.
O QUÊ? MEU FILHO!
- O trabalho sobre os parasitas... Você falou que ia me ajudar. Eu já terminei!
- Mas, se você já o terminou, o que quer que eu faça?
- A conclusão, pai, você prometeu que me ajudava...
Eu não ia ter sossego mesmo.
- Dá aqui. Deixa-me ver: A capa, o índice, a introdução... Um parasita é um ser vivo que vive sobre ou no corpo de outro ser vivo, o chamado hospedeiro, e dele se alimenta para poder dar continuidade a sua espécie... Hã, hãmmm. Tipos de parasitas... Tererê, tarará...
-  Nossa! Bactérias. Fungos. Vírus. Rickéttsias? – Não é bactéria, nem é vírus, é um parasita intracelular, tarará, tarará, causa a Febre Maculosa, o mal de Lyme... Prions? – Partícula Proteinácea Infecciosa, agente infeccioso sem material genético!? Cacilda!... Causa o mal da Vaca-Louca, o mal de Creutzfeldt-Jakob – cruzes! Tererê, tererê, tatatá, tatatá... Doenças como dengue, tuberculose, sífilis, micoses... Mal de Chagas, leischmaniose, toxoplasmose, amebíases... Criptosporídeos, balantídeos, botriocéfalos, diplogonoporus... O Bicho-do-Pé!
- Você foi fundo, meu filho! Há gente que nem lembra mais disso.
- Do Bicho-do-Pé?
- Do Bicho-do-Pé e do “bicho de pé”.
Piadinha ruim. Tive que explicar.
- Está muito bom o teu trabalho. Pensei que você fosse falar apenas das lobrigas. Eu não sabia nem da metade desse “povo”, talvez menos da metade ou bem menos da metade! Estou me sentindo um bolo-formigueiro cheio desses bichos, um pudim de...
- Pai. O problema é a conclusão.
- É mesmo. Mas, eu não vejo maiores dificuldades. Está na introdução, você não percebeu? Vou escrever uma idéia, depois acertamos o texto.
Se o ser vivo que necessita de outro para sobreviver, se abrigar e se reproduzir é considerado um parasita, nós, o homem, dependemos completamente do planeta para nos abrigarmos, sobrevivermos e nos multiplicarmos. Somos, por tanto, parasitos do planeta, estamos devorando o nosso hospedeiro, causando-lhe muitas doenças e correndo o risco de morrermos com ele se não compreendermos esse fato e mudarmos a nossa atitude a tempo de descobrirmos um modo harmonioso de convivermos com ele sem o destruir.
- O que você acha?
- Nossa, pai. Radical.
- E veja bem que nem entramos em detalhes. Eu estava me lembrando das Rickéttsias e dos Príons. Assim como eles, nós estamos agredindo o planeta de forma profunda. Estamos alterando estruturas tão complexas que não podemos nem avaliar ainda as conseqüências que trarão. Estamos liberando na atmosfera uma quantidade brutal de gases derivados da queima do petróleo industrializado, metais pesados, radiações e um bombardeio de ondas eletromagnéticas, ondas curtas, microondas. Estamos aquecendo a atmosfera, propiciando que vidas de outros ambientes passem a ocupar espaços noutros ecossistemas. É possível até que libertemos antigas bactérias, vírus e fungos que estejam sepultados em geleiras, resultando em sabe-se lá  que de novas doenças. O que é uma grande cidade sobre a Terra se não um câncer sobre um órgão qualquer, drenando energia, produzindo toxinas na forma de lixo de toda a natureza, além de deformar os próprios humanos por causa da desarmonia, propiciando a organização da violência, as manifestações da demência, do desespero; da crença em sistemas de fuga que nada mais fazem que aprofundarem o desequilíbrio mental da própria espécie, permitindo a opressão intraespecífica por grupos de interesse.
- Pai. Será que a turma vai entender isso?
- Não é para escrever isso, é somente para ti entender a idéia principal da conclusão, quem quiser que reflita. As pessoas não gostam de se confrontar com a crueza dos fatos. Preferem continuar sonhando, dói menos que dar um passo a mais em direção à evolução da espécie, seja no campo físico, seja no campo mental, espiritual ou cósmico.
Dei uma olhada para ele e fiquei pensando se eu falaria sobre um tipo de  parasitose intraespecífica que ainda é tão presente no ser humano e que me faz pensar que, se os mais de 900 milhões de espécies de parasita que habitam o sistema planetário não conseguirem extinguir a espécie humana, ela será a responsável pela sua destruição ou aniquilação.
Os exemplos da personificação dessa parasitose pipocavam na minha mente: os Estados Unidos, com seus governantes, Israel, com os seus, a Coréia do Norte e o seu regime, as tribos da África, os regimes religiosos, o Sistema Financeiro Mundial, o Sistema Político Partidário Brasileiro, os Três Poderes, tão bem caracterizados que identificamos ações nesses nichos com o nome sugestivo de Sanguessugas, Vampiros – Máfia do Sangue, Compra de Sentenças, Apadrinhamento, Enriquecimento Ilícito, Desvio de Verbas, Peculato, muito peculato...
- Pai. Acho que assim está bom. Vamos escrever o texto?
- Sim. Mas, primeiro eu gostaria de terminar o que estava escrevendo, pode ser? Vai dar uma volta lá fora, fazer um lanchinho...
- Posso dar uma volta de bike na praça?
- Pode. Agora vai!
Onde eu estava mesmo? Deixa-me ver... Tarará, tarará, a Manoelita, o banho... Ah, o pai da Mi comendo a mãe da Manu!
Pois é. Seria o mesmo que eu comer a Loura da vizinha.
Espera aí. É Loura que se diz? Se for Louro, é Loura. Papagaia? Detesto estas dúvidas quando estou escrevendo. Periquita? Seria o mesmo que eu comer a Periquita da vizinha... Piorou. Assim dá margem a uma interpretação errônea e grosseira: Periquita é a fêmea do Periquito e a vizinha tem uma fêmea de Papagaio. Bem, você entendeu, não entendeu?
Que cena bizarra: eu fazendo um assado com a Periquita da vizinha, ou melhor, com a Papagaia dela. Para mim, tão absurda quanto a cena do pai da Mirela fazendo um ensopado com a mãe da Manoelita.
Foi a minha esposa quem me contou do acontecimento quando ganhamos a Manu. Tão pequenina e já era órfã. Os ovos haviam eclodido sozinhos, com o calor do sol, no pátio da casa. Ela tinha um pequeno defeito no casco, agora já desapareceu. Ela está com uns 15 cm de comprimento de comprimento. A mãe dela era enorme. Um animal excepcional. Sabe-se lá com que idade ela estaria para chegar naquele porte. Virou ensopado de tartaruga, digo, de jaboti, ou melhor, de jabota. Até comentei com ela que se eu soubesse, ofereceria algumas galinhas em troca pela mãe da Manu. Salvaria a sua vida. Mas, o problema ali não era comida. Eles são bem de vida. A questão é cultural. Assim como outros humanos criam galinhas, ovelhas, patos, perus, porcos, escargos, ostras, peixes, coelhos, avestruzes, bodes e até jegues para comer, eles apreciam jabotis e tartarugas. Um hábito que trouxeram do Pará. Regionalismo alimentar. Fosse na China, não escaparia nem maribondo. Lá eles traçam de gafanhotos até escorpiões, passando por larvas e vermes. É proteína: pau!
Pensando bem, o que é para mim tão insólito, nada mais é que uma simples constatação da diversidade de espécies que a nossa submete a sua voracidade.
- Pai.
- Já, filho?
- Começou a chover...
- Hã?
- Pai.
- O quê?
- Você está se sentindo bem?
- Sim. Por quê?
- Estou te achando estranho...
- Estranho? É nada não. Acho que estou com fome.
Chico Steffanello
Enviado por Chico Steffanello em 11/11/2006
Código do texto: T288467

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Sobre o autor
Chico Steffanello
Sinop - Mato Grosso - Brasil, 58 anos
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