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As paixões de nossa era

Ela não esperava mais vê-lo. Mas ele reapareceu. Nada mudara fisicamente, mas esperava que tivesse mudado no comportamento. Quanto ao físico, permanecia alto e gordo. Talvez aquelas dezenas de anos sem contato dera-lhe mais gordura, conforme os anos foram se passando. Ela sorria. Pensava baixinho, de si para si. “O tempo no homem é alimento”. Engraçado pensar dessa forma, o tempo é gordura para os homens. Alex havia engordado, no mínimo uns dez quilos. Ela não o via há dez anos e esta separação deu-lhe dez quilos a mais. Mas no coraçãozinho dela sua presença não provocava mais peso, ao contrário, provocava uma alegria pueril, nostálgica.

O desejo de que Alex havia mudado no comportamento era devido sua fama de garanhão. Alex tinha o dom de atrair todas as meninas da escola. E com ela não seria diferente. Uma vez minha amiga me dissera: “As mulheres me entendem. Você não conseguiria, você é homem. Mas Alex tem um ímã no peito e consegue atrair as mulheres”. Um ímã no peito. Esta frase ressoava em minha mente. Quantos homens não dariam por este ímã? A humanidade sempre desejou poder. Este ímã era um poder muito cobiçado pelos homens. Mulheres. Mas segundo esta minha amiga, muitos outros homens possuíam este ímã. Suspirei com alívio, pois o poder não estava na mão apenas de um, mas era algo democrático. Caro leitor, vou-lhe ser sincero, este poder em mim é bem fraco, quando se trata de quantidade, mas quando se trata de qualidade, ele é bastante eficaz. Pois o ímã que carrego em meu peito apenas atraiu uma mulher, mas, em compensação, ela se entranhou em mim de tal forma que somos um único ser. Eu dependo dela e ela depende de mim.

Aquela dúvida persistia no coração feminino de Dinha. Dinha é o apelido de minha amiga. Ela não gosta de ser chamada pelo seu nome, acha-o forte, sério, sei lá, alguma coisa assim. Então a chamo Dinha. O que realmente importava naquele momento para ela, era que havia encontrado seu primeiro amor. O amor de infância. Amor que depois de tanto tempo, de tantas experiências, ainda persistia ali dentro, adormecido, mas não liquidado. O amor sempre perseguiu os corações, quando menos se espera lá está ele para nos colocar numa situação constrangedora. Quantas vezes minha amiga pensou em sua infância de maneira divertida e gostosa, mas nada além disso? E de repente, quando alguém importante de sua infância reaparece, ela percebe que tudo aquilo não jaz no passado, mas permanece vivo com toda a sua intensidade. Posso ver seus olhinhos brilhando, contemplando Alex ao longe, no pensamento. Quantas lembranças gostosas! E ela pensa que poderá viver tudo de novo. Mesmo que seja por um momento, mas ela deseja viver tudo de novo. Seu corpo está vivo de novo. Suas esperanças se renovam. A vida fica mais bela. As coisas que costumam incomodá-la, não incomodam mais. Tudo está resolvido, Alex está aqui.

Permitam-me abrir aqui um parêntese, prometo-lhes fecha-lo o mais rápido possível. (O amor no século 21 é eletrônico. Um amigo diria que eu estou sendo radical. Bem, mas ele teria que concordar, que pelo menos a relação é muito mais virtual que presencial. Não que eu considere esta relação virtual um erro, pelo contrário, acho-a bastante eficiente. Podemos ver isso na própria vida dos “escrevinhadores”.  Quem poderia prever que várias pessoas teriam acesso às letras deste pobre escritor desconhecido? Acho que nem ‘Sir’ Bacon conseguiria voar tão longe). Falei que seria breve?

Abri este parêntese acima para dizer que Dinha havia reencontrado Alex numa dessas comunidades globais. Ela jamais imaginou reencontra-lo, teria que ser algo providencial para isso acontecer. Mas ela subestimou a capacidade da rede mundial. Para ser sincero, talvez ela nem mais lembrasse de Alex com freqüência, mas quando se deparou com uma comunidade de sua primeira escola, contemplou a possibilidade de encontrar pessoas de sua infância. Ai, sim, foi quando ela pensou em Alex. E ao pensar no primeiro amor, acordou todo o sentimento que apenas dormia folgadamente em seu coraçãozinho. Várias interrogações surgiram de imediato. Como será que ele está? Será rico ou pobre? Estará bonito ou feio? Casado ou solteiro? Nessa interrogação ela pensou: “Tomara que esteja casado ou separado, pois se ainda estiver solteiro, ele pertencerá ao grupo de risco”. E depois dava gargalhadas de seus próprios pensamentos. Lembrava do primeiro beijo. Quando o coração quase rasgou seu peito de tanto êxtase juvenil. O primeiro encontro. Via seu rosto, seu sorriso, suas mãos, sentia-o a abraçando tão forte que ela soltava um suspiro com pretensões de grito. Mas não era grito não, era puro gozo. Ela ficava excitada só de imaginar a possibilidade de vê-lo. Esta é a parte mais difícil na era eletrônica, ou seja, sair do virtual para o presencial. A era eletrônica substitui a fase contempladora. Não, não, não abrirei um novo parêntese, não quero ser tão enfadonho.

Da mesma forma reencontrei Dinha, na comunidade global. Ela mora numa pequena cidade histórica do estado do Rio de Janeiro. Alex está morando na capital e se tornou um grande empresário, assim parece. Uma das limitações da era eletrônica é sabermos se realmente a pessoa esta sendo sincera. O século 21 tem pouco “olhos nos olhos”. A rede mundial deu a oportunidade desse amor pueril se reencontrar. Deu a oportunidade de Dinha viver de novo aquele amor, amor infantil e sincero. Viver todas aquelas sensações que apenas eram lembranças distantes. O toque de novo. As mãos dadas de novo. Os corpos poderem matar a saudade. Aproximações. A possibilidade. O ser possível de novo, um novo começo, mexia com a cabecinha dela. Deixava-a alucinada. Não dormia, mas sonhava de olhos abertos. O coração explodia quando conversava com ele. Sorria que nem boba. Perdia-se em pensamentos vãos. Tudo lhe desviava a atenção. O feijão queimou. A água da pia transbordava em todo banheiro. Esqueceu de tirar as roupas do varal. Perdeu a hora de pegar o filhote na escola. Mas tudo era válido, hoje Alex viria até sua cidade para rever sua primeira namorada. Seria um dia inesquecível. Ela voltou a ter dez anos, doze anos, quinze anos, toda a sua vida lhe passava na mente como uma grande enxurrada de imagens aleatórias. Nos falamos alguns momentos da chegada marcada de Alex e nos despedimos. Desejei-lhe um ótimo fim de semana e eu sabia que seria.

Caro leitor, minha amiga havia se preparado para receber Alex. Colocara sua melhor roupa e o coração pulsava como um louco. Cada pessoa que se aproximava de sua casa, o coração batia acelerado. Suas mãos suavam. Seus cabelos estavam soltos por um momento, mas depois ela os prendia de novo. E ela ia até a frente da casa e depois voltava até a sala. O pequeno Zucky a olhava incomodado. Tentava acalma-la. Ele também estava ansioso para conhecer Alex. E ficaram ali, abraçados a noite toda, mãe e filho. Passaram juntos uma das noites mais longas de suas vidas. A pequena mão de Zucky enxugava uma lágrima infantil da face de sua mãe. Ele acariciava seus longos cabelos, cabelos que minha amiga sempre conservara grande. Enfim a manhã indesejada chegou. Uma manhã como outra qualquer para qualquer um, mas para ela uma manhã austera e didática. Não superestime esperanças eletrônicas. Cuidado com o século 21, ele sente saudades do passado, mas jamais deseja manter relações medievais. Mas a manhã didática ensinou-lhe que a mão que limpa a lágrima real de sua face é a única coisa que importa. O resto são vaidades de nossa era.

     
Rodiney da Silva
Enviado por Rodiney da Silva em 11/11/2006
Código do texto: T288747

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Sobre o autor
Rodiney da Silva
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 46 anos
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Rodiney da Silva

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