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SÓ DEUS SABE, SE MEREÇO! - Capítulo I

AMIGOS, ESTOU INICIANDO MAIS UM CONTO EM CAPÍTULOS. ESPERO QUE GOSTEM. UM ABRAÇO. MARIA LÚCIA.


     Quer saber quem sou? Sou Helen, aliás, meu nome mesmo é Helena, mas minha mãe começou a chamar-me de Helen e assim todo mundo copiou, se perguntar por Helena ninguém conhece. Tenho trinta e seis anos e sou uma pessoa com o astral lá no céu, nunca fico triste, a não ser em ocasiões de morte, também se não ficasse, seria insensível. Uma das coisas que não acostumo e não admito que aconteça com alguém próximo a mim por laço familiar ou de amizade. Mas eu não posso mudar.

     E sou bem situada na vida e passaram muitas coisas que eu gostaria de te contar. Chega mais perto, assim: agora veja como foi a minha vida desde o início e como toda vida se inicia com o nascimento, em uma tarde muito quente, na cidade do Rio de Janeiro, mas precisamente no dia 2 de setembro no ano de 1952, nascia uma menina raquítica, feia, magra e chorona. Era assim que mamãe me descrevia. Dizia ela que nunca vira uma criança tão feia, pesava menos de dois quilos, mas era compridinha, careca e com os olhos bem grandes e espertos, bem azuis. Agora você imagina: meu pai é um mulatão bem alto e forte, agora não, elejá está ficando velho, mas eu o acho um gatão. Mamãe era baixinha, loira, dos olhos azuis, descendente de alemão.

     Hoje eu sou morena, bem morena, mais para o lado de preta, ah! por que não falar preta, não é? É sim, sou preta dos cabelos cacheados e olhos azuis. As pessoas falam que eu não regulo muito bem, dizem que sou louca, mas louca é quem me chama. Eles falam isso só porque eu já fui interna numa clínica de repouso, mas eu acho que não tenho nada de louca, sabe por quê? É porque as pessoas querem ser muito direitinhas, querem fazer tudo nos conformes e eu não, eu faço o que eu tenho vontade de fazer, se tenho vontade de rir eu começo a sorrir me qualquer lugar que estiver, se tenho vontade de gastar dinheiro e não tem na pra comprar eu vou ao banco e pego uma certa quantia de dinheiro e saio pela rua dando dinheiro pra todo pobre que vejo, deve ser por isso que minha casa fica cercada de pobres e crianças carentes e isso é o meu prazer, poder servir a essa gente que não tem com que comprar um quilo de carne para comer. Amo crianças e velhos, principalmente os mais pobres.

     Se eu fosse doida como as pessoas da minha cidade falam eu não me lembrava de nada que me tinha acontecido e me lembro de tudo como se fosse hoje e estou aqui a escrever para que você possa saber da minha vida, porque se eu não contasse, como você iria saber, não é?

     Bom, eu nasci no Rio de Janeiro, mas não estou mais no Rio, apesar de achar minha cidade o máximo, adoro minha cidade natal, mas só para passeio, para morar não, lá é muito agitado, eu gosto mais é de sossego, como dizem: "sombra e água fresca." Moro numa cidade, que não é muito interior, mas ainda guarda alguma tradição, no Estado de Goiás, fica bem perto da capital e não me falta nada, graças a Deus. Como eu disse, minha mãe era descendente de alemão, vovô era um alemão bem chegado numa cerveja e vovó bem brasileira, mas branca. Naquele tempo tinha o racismo. Era muito evidente e mamãe se apaixonou por aquele mulatão dos lábios grossos e se casou sem a permissão de vovô, esse por sua vez se desgostou e se mandou para Alemanha levando vovó e nunca mais mandaram notícias. Mamãe, coitada, morreu falando deles, querendo vê-los, mas como? Bem que nós tentamos através da embaixada do Brasil, mas nada foi descoberto, supomos que morreram também, ou se instalaram bem longe da capital para nunca mais serem encontrados.
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Enviado por Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles em 13/11/2006
Código do texto: T289948
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Sobre a autora
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 58 anos
152 textos (4027 leituras)
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