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Maria da Graça

Este era seu nome de batismo. Mas, de fato, era chamada de “gracinha” pelos familiares e os mais íntimos. Não que houvesse muitos desses “tais” íntimos, mas de fato, era considerada uma “gracinha”. Opinião esta, não compartilhada pela Maria da Graça... Mas que talvez outra hora seja melhor compreendida.

Sendo assim, como o tempo, duas dela foram sendo gestadas lentamente... A Maria da Graça e a gracinha. Maria da Graça era como se auto-intitulava, uma massa morena e disforme, com sombras de mulher e com olhos de jacaré e a gracinha... Essa sim, tinha mãos de fada! Talvez fosse a própria.

Sim amigos, creio que as mãos de fada se devam ao seu ofício primeiro: pintura. Sim, Maria era artista plástica. Daquelas que freqüentara desde o jardim, as caixas coloridas de giz de cera e potinhos de aquarela. Até que um belo dia viu-se “artista” e dessa arte que brotava de si tirava o proveito devido.

Sua decisão de tornar-se “artista” deve-se ao fato de um dia, naqueles domingos chuvosos, a entediada Maria estar olhando pela janela e num gesto repentino, pegar sua aquarela e desenhar um gigantesco jardim... Daqueles coloridos! Cheios de papoulas multicores, de samambaias caídas pelos cantos e um sol resplandecente! Bem ao estilo Monet, quando sua tia Justina entra pela porta adentro (como é costume de toda tia que se preza) e (conforme me disse Maria da Graça), dá o seguinte brado:
_ Jóia divina! Beleza das mais belas!.
E assim, nascia a artista Maria da Graça.

Maria teve uma adolescência típica dessas moças de classe média que crescem na Tijuca, oscilando entre o sagrado e o profano da sociedade carioca. Assim que terminou o segundo grau entrou para a Faculdade de Artes e lá se formou para a animação da família tradicionalíssima. Professora de Artes! Com certeza ensinaria aos alunos a desenhar belos jardins e belos cachorrinhos.

Aliás, como falávamos, cultivar a beleza era uma atividade constante e inerente à vida de Maria da Graça. Ou seria da gracinha? Ah... Depois decido! Só sei dizer que na Faculdade, ela era Graça e ponto. Só posso dizer agora que passei os longos anos de nossos estudos, tentando entender porque em sua casa os quadros pendurados nas paredes eram tão azuis, tão amarelos, tão rosas e verdejantes, enquanto que os do atelier da Faculdade eram tão pretos, tão cinzas, Quase translúcidos, por vezes...

Nunca me atrevi questiona-la, até porque, inspiração criativa não se questiona não é? Pois bem, os anos se passaram, terminamos nossa faculdade e cada uma pro seu lado, vivendo os destinos por vezes arquitetados. Ta certo que pensando melhor, eu é que arquitetava, enquanto Maria da Graça ouvia e sorria.

Os planos eram sempre os mesmos: arranjar um belo namorado, daqueles morenos de barba por fazer, ir com ele para algum país da América Latina (a grana não deixava sonhar com a Europa) e lá viver de pintar, em uma casa perto da montanha, mas quase na beira da estrada.

Meus planos quase chegaram a termo, não fosse pelo namorado, que ao contrário, apresentou-se disposto a topar meu plano, mas sendo ele de um amarelo empalidecido e um charmoso óculos quebrado. E enquanto isso Maria da Graça continuava a mandar parcas cartas ao Chile me comunicando que continuava no Rio e que trabalhava em uma escola bem gostosinha no Leblon e que também lecionava para alunos particulares.

Lembro-me de ler em uma de suas cartas uma referência a esses alunos particulares; algo como: “Filhos de burocratas medianos, daqueles que o pai bebe e a mãe tem amante, então, usam a pintura como terapia...”. Era algo assim, ao menos na essência, mas que me fez pensar se de fato, era a Maria da Graça que havia me escrito isso ou se, ela num desses dias amargos, escorregou a caneta por um lado de sua alma que eu desconhecia.

Só sei dizer, que em meio à gritaria de meus dois filhos, e um atelier cheio de empoeiradas telas, comecei a receber mais e mais cartas azuladas, com linhas pretas no meio, ali, bem escondidinhas...
Após anos no Chile, resolvi que era chegada a hora de retornar ao Brasil, porque meus filhos agora na adolescência, tinham que viver uma “nova cultura”, ou melhor, traduzindo: porque após a separação, não tinha mais como dividir um país tão pequeno com o pai deles.

De volta ao Brasil, era chegada a hora de reencontrar meu caminho, voltar a pintar, encontrando talvez nos primeiros fios brancos de cabelo, a inspiração para prosseguir. Quando se acha que chegou ao fim da estrada, temos geralmente, a curiosa atitude de voltar ao início, e foi exatamente o que fiz, busquei o que ficou no passado e incluída aí estava Maria da Graça, minha eterna amiga. O começo era ela.

Devidamente instalada na casa da minha mãe, agora viúva, arranjei trabalho num curso-escola no Riachuelo e lá fui eu, afiar a garganta e os pincéis. Mas... E Maria da Graça? Já haviam se passado oito meses de meu retorno e eu ainda não lhe fizera uma visita, apenas um telefonema.

Liguei para ela e para minha surpresa, sua mãe atendeu o telefone, anotou o recado e gentilmente me garantiu que “gracinha” o receberia. Sim, amigos, Maria da Graça para minha surpresa, não se encontrava casada. O que é de espantar, lembrando daquela bela figura que eu guardava em minhas lembranças.

Chegado o dia de nosso encontro, sexta, num barzinho pouco movimentado para batermos um papo, encontro sentada ao fundo do balcão, uma figura morena e de olhos verdejantes. Ainda bela... Mesmo que com sutis retoques na pintura original.

O abraço foi profundo como deveria ser dos bons amigos e passado o momento das caudas que se abanam e do reconhecimento do território, nem parecia que estávamos tantos anos separadas...
Conversamos sobre tudo que se sucedeu no lapso de tempo de nossa separação e só depois percebi, já em casa, que Maria pouco falara de sua vida. Já desconfio que falo demais!

Em nosso segundo encontro, semanas mais tarde, ela se apresentava mais tensa, mais desconfortável, mais ácida e penso comigo: “Deve ser aquela crise típica da idade do arrependimento”. Também poderia ser uma reação ao questionamento que finalmente, tive coragem de lhe fazer: Porque as tais telas tinham cores tão diferentes...?
Dessa pergunta vi um rosto diferente ser pintado na minha frente, convulso, indignado, atônito! Decididamente, em nada combinava com o tom suave de sua voz. E eis que a resposta surge leve e simples como as borboletas:
_ È porque as telas lá de casa, quem pintava era a gracinha...

Agora era eu que nada entendia e na minha confusão, me lembro de perguntar qual era a diferença... Já irritada ela se deteve a me dizer que a gracinha era realmente uma bela moça, bela pintora, bela produtora de belezas... (?) Foi esse o ponto de interrogação que ficou na minha cara.

Refeita desta surpresa, passei a me questionar quem de fato era a minha amiga, achando que ela deveria estar passando por dificuldades, sei lá, essas coisas que pensamos quando vemos um amigo mudar tanto!

Mais algumas semanas depois, andando pelas Laranjeiras, vejo uma morena com ares de Maria da Graça, entrar em um táxi. Ok, tudo bem, não fosse pela bota de camurça preta que pude ver ao entrar no carro... Não me lembro de ver este tipo de indumentária em Maria da Graça! Tive um impulso de segui-la, mas logo percebi que era apenas um desejo cruel de saciar minha fome mortal de bisbilhotar.

Hoje confesso que minha amiga acabou tornando-se o alvo de meus escrutínios pela vida monótona, morna que eu recém separada e com dois filhos estava levando... Quando ganhar dinheiro é a prioridade necessária, tudo mais se esvai.

Meus filhos. Rapazes belos... João já com 22 e Thiago com 18. João era uma figura intrigante, maduro demais para a idade, e eu devendo isso à separação. Desde nossa vinda para o Brasil cada dia falava menos, até que no fim de dois anos, o alerta de mãe começou a soar em minha cabeça. Havia algo errado? Chamei-o para um chopp e conversa vai, conversa vem, consegui apenas dele um: _Ta tudo bem! Estou em boas mãos... Não se preocupe! Nessa altura já comecei a achar que ele era gay como toda boa mãe que se presa. Após esta conversa, fui fazer o que toda mãe faz: bater um papo com o guarda-roupa (ou guarda-segredos) dele.

Confesso que por não ter o hábito, eu tremia ao revirar aqueles pacotes, roupas e CDs, para enfim conhecer ou tentar, conhecer um pouco dele, um pouco daquilo que os filhos têm por obrigação esconder dos pais. CDs, lá estava o início das informações que eu precisava. Músicas, textos da faculdade de odontologia, mais músicas, mulheres peladas... Agora posso respirar? Continuo navegando por aquele mundo, até iniciar uma sessão de fotos, digamos, estranhas.

Eram fotos, uma centena talvez, de braços, nádegas, costas, boca, e pernas femininos com marcas dolorosamente roxas. Tudo cuidadosamente sem identificação das ou “da” dona. Mesmo tremendo, tudo foi cuidadosamente devolvido ao seu canto e confesso que precisei de alguns dias para tentar digerir estas informações. Quem era o João? Esta era a pergunta que me fiz dias a fio.

Como tudo na vida que não se sabe bem o porquê, acabamos achando uma explicação maior, chamando de vários nomes... Chame do que quiser! Só sei que na tentativa de saber quem era o João, descobri quem era a Maria da Graça.

Indecorosamente, fui atrás dele, eram 5 da tarde, uma chuva fina caía, atrapalhando, mas não me impedindo de prosseguir. Ele entrou em um prédio que prefiro não identificar. Passadas 2 horas, de pura angústia minha, sai ele e logo atrás, Maria da Graça.

Não é possível! Pensei comigo, esbravejando com o espelho enquanto um senhor taxista me olhava achando que eu estava surtando e, de fato, acho que estava sim. Como uma esposa traída, não sabia com qual dos dois tomar minhas satisfações, então, achei por bem ir direto a Maria da Graça.

Conversa dura, duríssima. Quando ela abriu a porta de sua casa, surpresa pela visita, não pude deixar de notar algumas marcas em seu braço. Já sentada, ela se esforça para esconder as tais marcas, mas, incisivamente, pergunto o que são. Ela atônita, tenta disfarçar dizendo que se machucou mudando móveis do lugar... Então, para explodir o barril de vez, afirmo que eu achava que era o João que tinha feito aquilo nela. Realmente, não foi barril não, foi um trovão que se abateu naquela sala empoeirada e escura.

Eu assisti minha amiga de anos, esbofeteando o próprio rosto sem falar uma palavra, até que ela deu um grito... Talvez o mais profundo que já ouvi na vida. Doloroso, como uma facada a seco, raivoso, destemido.
_Eu não sabia.
_Mas hoje sim! Que ta havendo?

Após respirar longamente, Maria da Graça calou-se. E de tão desorientada, agarrei-lhe os braços, sacudi, gritei, mas parecia que meus gritos emudeciam mais aquela mulher.Só me restava agora João.

Após 3 horas de encurralá-lo no banheiro, saí com a resposta: Maria da Graça havia conhecido João através de indicação de amigos. Ela era sadomasoquista. Não amigos! Não destas que de fato sentem prazer na prática, a que domina e encanta-se, mas aquela que serve, se subjuga, se humilha, se coisifica! Era ela nas fotos. Roxa, ferida. Naquela noite chorei por todos.

Passada a confusão, segredos revelados, cartas na mesa, descobri que minha amiga, a doce Maria da Graça, era uma mulher que toda a vida conviveu com uma auto-imagem deturpada, odiando a si mesma, mais que ao mundo.

Sadomasoquismo ou o que quer que fosse, era uma maneira de matar a Maria da Graça que ela tanto odiava. Todos esses anos ela só deixou a “gracinha” viver, pintando seus verdejantes quadros para o mundo, pois a Maria da Graça havia se transformado em um bicho das sombras, alimentando-se da podridão humana, transformando em realidade, seus mais obscuros e sujos desejos.

Uma tarde em uma pracinha, ela me revelou tantos outros detalhes dessa sua condição e que, meu filho, fazia parte. Só sei dizer que depois desta tarde, inexplicavelmente, meus quadros assumiram tantos tons de vermelho quanto podem existir no mundo...

               
Leniza de Astério
Enviado por Leniza de Astério em 15/11/2006
Reeditado em 27/04/2007
Código do texto: T291831

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Leniza de Astério
São Gonçalo - Rio de Janeiro - Brasil
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