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MARIA DA PENHA

Falar dela é fácil, uma bela morena sulista, daquela que os interioranos chamam de “bem apanhada”, nascida na fazenda, criada com todos os mimos típicos de filha única, nascida de pais já com idade avançada.

Na semana que ganhou o concurso de miss em sua cidade, recebeu propostas de casamento que já estavam sendo devidamente analisadas pelo preocupado pai, mas apesar disso, ela queria era ser veterinária.

Só lhe restara então, a opção de permanecer  casar com o filho do vizinho (um peão rude) ou, então, criar seu exílio em alguma cidade e realizar seu sonho.Vencendo todos os seus medos, partiu no dia seguinte que foi apresentada ao pretendente.

Chegou àquela cidade do interior do Rio de Janeiro com a cabeça fervilhando de medos e sonhos, como não podia deixar de ser. Aos 27 anos ainda conhecia pouco da vida, o que já lhe rendeu muitos comentários e gargalhadas das amigas que conheceu no pensionato onde foi morar.

Penha logo fora batizada por Selma, sua amiga, como a "moça da blusa branca". Roupa esta que a faculdade lhe impunha e que ela fazia questão que fosse de "laise". Mal sabia Penha que, aqueles graciosos furinhos lhe renderiam tantos admiradores...Nunca vi uma blusa, uma simples blusa, causar tanto furor!

A vida nova na cidade se apresentava como um presente, cheio de novos sons, novas cores, novos formatos e cheiros. Os rapazes da faculdade, os "bons partidos" como dizia Selma, brotavam no pensionato e, de fato, Maria da Penha relacionou-se com diversos deles, em uma monotonia de tardes de cinema e sorvete e, passados os anos, pareciam todos os mesmos, educadamente, os mesmos.

Penha tornara-se então, uma espécie de "especialista" em fugir de compromissos. Assim que alguem acenava maior interesse, já era vetado...Docemente vetado.As amigas nada entendiam, brigavam, por ver Maria da Penha lançar ao vento tantos bons homens...Mas ela apenas dizia que ainda não era a hora, que pensava nos estudos.

Assim, foram crescendi palpites numerosos para tal atitude de Maria: desgostosa, fresca, apaixonada em segredo, exigente, sonhadora,etc, etc...A cada pedido de reatamento negado, mais controvérsia era gerada. No fundo, Maria esperava pelo inesperado.Eu acho.

Foram-se os anos de faculdade nestes encontros e desencontros, até que, formada e clínica montada,era chegada  hora de abandonar as amigas e o pensionato e viver sua vida, longe dos palpites alheios.Assim feito.

Feliz, ela se sentia realizada. Logo ganhou reconhecimento pelo trabalho sempre extreamente humano que realizava em sua clínica veterinária. Havia até dias em que fazia plantão extra, para atender aos carentes do bairro que não podiam pagar pelo tratamento de seus animais...Não sei precisar a data, mas, um dia,em um atendimento de emergência, a vida de Maria da Penha ganhou um rumo inesperado. Um cãozinho vira-lata que havia engolido uma meia e sufocado, à beira da morte, foi salvo por Penha.

O dono emocionado ao receber a notícia do salvamento abraçou-a e, daquele dia em diante, muitos outros abraços e gentilezas vieram...Todos devidamente retribuídos.Sujeito simples, mas, fascinante aos olhos de Maria da Penha.Apesar de simples, havia nele um sabor um "quê" de vida nova, de conhecimento do mundo, que simplesmente arrendou Maria.

Assim, foram meses de novas descobertas, novas visões de vida e de mundo, novos lugares, lugares comuns, mas que aos olhos de Maria da Penha se faziam mágicos...Meses se sucederam nesta sincronia. Apaixonados! Era a opinião unânime de todos.

LÁ NA SUA CLÍNICA, PENHA ERA CONSIDERADA MAIS QUE CHEFE, ERA AMIGA, HUMANA, INCENTIVADORA, APOIADORA. ELA ACREDITAVA QUE HAVIA LUGAR PARA OS SONHOS DE TODOS NO MUNDO. PORTANTO, ACOMPANHAR SUA VIDA AMOROSA DESABROCHAR ERA UM PRAZER PARA TODOS. DESEJAVAM MESMO, QUE A “MOÇA DA ETERNA BLUSA BRANCA CHEIA DE FURINHOS GRACIOSOS” FOSSE FELIZ, TÃO FELIZ QUANTO FAZIA AOS DEMAIS QUE A ELA RECORRIAM EM NECESSIDADES VARIADAS. ALIÁS, ELA ATÉ EMPREGARA VÁRIAS AMIGAS DE FACULDADE (INCLUSIVE SELMA) QUE NÃO TIVERAM A MESMA SORTE...

UM ANO HAVIA SE PASSADO DESDE QUE TOBI, O VIRA-LATAS FORA SALVO. SENTADA EM SUA MESA TOMANDO CAFÉ, OUVINDO AS NOTÍCIAS DO RÁDIO, AMENIDADES RECHEADAS DA VIOLÊNCIA LOCAL, TAL COMO PÃO DOCE, PERFEITO PARA O CAFÉ DA MANHÃ!
SELMA SE PREPARAVA PARA FAZER FAXINA NA CASA NAQUELE FERIADO, A CLÍNICA LHE CONSUMIA, POIS MARIA DA PENHA HAVIA VIAJADO PARA COMEMORAR SEU UM ANO DE NAMORO. VIAGEM PARA CIDADE VIZINHA, PARA NÃO PASSAR EM BRANCO MESMO, COMO ELA DISSE. NESTE FERIADO JÁ BATIAM OS DOIS DIAS DOS TRÊS COMBINADOS PARA A AUSÊNCIA DE PENHA.

NA MADRUGADA DESTE DIA, SELMA RECEBE UM TELEFONEMA. SÓ TIVERA O CUIDADO DE PERGUNTAR ONDE FICAVA MESMO A PONTE DA LUZ(LOCAL RURAL DA CIDADE QUE ELA NÃO CONHECIA)INFORMADA, PEGA A BOLSA E SAI.

DIRIGE POR UMA HORA E MEIA APROXIMADAMENTE. ÀQUELA HORA, O ALVORECER JÁ SE APROXIMAVA E COM ELE, AQUELA TÍPICA NEBLINA DE INVERNO. FAZIA FRIO. MUITO FRIO NAQUELA MANHÃ. SOMENTE NA ESTRADA SE DERA CONTA DE QUE DIRIGIA TAL COMO LEVANTOU: PIJAMA CHEIO DE LARGAS FLORES E CABELOS DESPENTEADOS...

CHEGANDO AO LOCAL INDICADO, AINDA SEM VER O SOL, NÃO PÔDE CHEGAR ATÉ  À PONTE DE CARRO, POIS O ACESSO ESTAVA COMPROMETIDO PELAS SUCESSIVAS CHUVAS DOS ÚLTIMOS DIAS. QUASE NÃO SE PODIA VER NADA POR ENTRE AQUELA NEBLINA, A NÃO SER VOZES E MAIS VOZES E UMA LUZ NO FUNDO.

ESCORREGANDO POR ENTRE O BARRO E ARBUSTOS, SENTIU UM HOMEM APARAR-LHE O BRAÇO. SUA MÃO ESTAVA GÉLIDA.
_SELMA? VENHA COMIGO.

AQUELA CAMINHADA PARECIA NÃO ACABAR; APESAR DE SEREM POUCOS METROS, ELA SENTIA O CORPO DORMENTE. ACHA ATÉ QUE PAROU DE OUVIR AS TAIS VOZES... SÓ DESPERTOU QUANDO SEGURADA AINDA PELO BRAÇO SENTIU A LUZ DO SOL ACENDER EM SEUS PRIMEIROS SEGUNDOS. EM SEGUIDA, OUVIU ALGUÉM LHE DIZER:
_ CONHECE?
_SIM. CONHEÇO.

SIM, DE FATO, ERA MARIA DA PENHA. ALGUNS SEGUNDOS RESPIRANDO E COM A LUZ DO DIA ABRINDO, SELMA VÊ UMA PONTE MAL ACABADA, RODEADA POR GRAMA E ARBUSTOS FROUXOS À SUA VOLTA. EMBAIXO DELA, A ALVURA DA CAMISA BRANCA (CHEIA DE FURINHOS) DE MARIA DA PENHA. SEU CABELO INTACTO, LÁBIOS ROXOS, MAIS PARECIA UMA BONECA ABANDONADA NO FUNDO DO QUINTAL POR MENINA DESCUIDADA. NÃO FOSSEM AS GOTAS DE SANGUE QUE PINGAVAM DA ALTURA DE SUAS COSTELAS, ANUNCIANDO O FIM. SELMA SENTA-SE AO SEU LADO E CUIDADOSAMENTE, AJEITA SUA BONECA.
 
UMA SEMANA DEPOIS, PROVIDENCIADO TUDO, SELMA RECEBE O TELEFONEMA DO DELEGADO DANDO CONTA DE QUE O NAMORADO DE MARIA DA PENHA JÁ HAVIA CONFESSADO A AUTORIA. E PASMEM: ELE ALEGOU QUE MARIA DA PENHA ESTAVA TENDO UM CASO COM TOBI. PRISÃO ESPECIAL...

                       ___X___

                                     
Leniza de Astério
Enviado por Leniza de Astério em 15/11/2006
Reeditado em 23/04/2008
Código do texto: T291960

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Sobre a autora
Leniza de Astério
São Gonçalo - Rio de Janeiro - Brasil
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