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Sábado de Sampa

É sábado. Dia comumente usado para caminhar e fazer compras na maior cidade do Brasil. Inúmeros esteriótipos urbanos caminham e exibem seus gostos através de gestos e idumentárias.
 
Em grupos, quando desse modo são encontrados se assemelham com seitas, torcidas de futebol ou soldados fardados, de tão parecidos chegam a perder sua identidade, para dar forma ao grupo ou movimento no qual acreditam ou possuem afinidade artística-ideológica..

Continuo minha caminhada como estrangeiro urbano da grande São Paulo, os contrastes são aterrorizantes. Quase sou atropelado por um carro importado da Alemanha (BMW), atravesso ouvindo o esporro de uma senhora que tinha na cabeça mais oxigênio do que necessariamente cabelo. Quando tranqüilamente volto a caminhar sobre o calçadão central do Anhangabaú, uma bonita prostituta morena de sotaque nordestino me aborda e segura meu braço direito. Não a vi quando chegou e me enlaçou, por um ou dois segundos quase revidei acreditando se tratar de um assaltante.

Contemplo sua face e ouço aquela voz sensual perguntar:
- Vamos fazer gluglu?
Segurei o riso e lembrei instantaneamente do Serginho Malandro, porém não disse nada. Ela insistiu:
- Pra você que tem os olhos “verdis” eu faço um desconto especial
Não contive minha curiosidade nata de repórter e quis saber o valor que aquela rameira de olhar cativante desejava para oferecer-me alguns minutos de voluptuosidade.
- Cobro geralmente 50 “reaus” como você é mais bonito e estou precisando porque o cafetão quer me demitir do “apê” faço pela metade.

Quase parei. Fiquei até assustado. Ela percebeu e prosseguiu:
- Preciso muito, gostei de você meu galegão.
Pensei comigo. Gluglu, galegão. Isso não vai dar certo Zé. Menti e falei pra ela que era casado e amava minha mulher. Ela novamente me surpreende:
- Duvido que seja casado, eu sim posso falar isso sem vergonha. Estou nisso para ajudar nas contas de casa. Talvez não seja a profissão mais digna e adequada para uma mulher casada, mas é preciso ajudar lá em casa. Tenho uma filha pra criar.
“Sem dúvida moça. Preciso ir agora”

A morena insiste me dá um cartão e tenta pela última vez me lambendo o pescoço:
- Meu nome é Lili, estou aqui até às 22h, se mudar de idéia eu faço por R$ 20 e se não gostar devolvo-lhe seu dinheiro.
Retruquei na hora:
- Parece ser um bom negócio. Mas você não se parece com um produto. Você é humana. Uma mulher Lili.
Deixei uma nota de dez com ela e me despedi sem maiores cordialidades.
Ela ainda gritou:
- Quando precisar estou aqui galegão! Eu te amo.

Era só o que me faltava, consegui cativar uma puta! Os bebuns que acompanharam apenas as cenas finais do diálogo e se encontravam num buteco próximo imitavam os gritos finais de Lili, fiquei corado como um pimentão e sai apressado do calçadão até a praça da Sé.
No caminho ainda escutei vários “psiuuuus” vindos de outras amigas do ramo de Lili, estavam nas casas e janelas de antigos cortiços do Vale. Dá até pra pensar numa releitura de “Memória de minhas putas tristes”, do grande Garcia Marquez. O estado da maioria delas é depreciativo e debilmente melancólico.

No caminho observo inúmeros prédios de bancos, cada um mais luxuoso e imponente do que o outro. O da Bovespa é quase um castelo medieval moderno de tão protegido e bem cuidado.
Ambulantes móveis completam a paisagem tipicamente cosmopolita. E o mais interessante desses vendedores informais é a agilidade somada ao bom disfarce que usam para despistar os fiscais e os policiais. Ao notar a indesejável presença deles, rapidamente cobrem as mercadorias que ofertam aos passantes com sacos ou caixas de papelão sobre carrinhos de mão e fingem ser transeuntes.
Até abraçam-se uns aos outros e puxam papo com você como se fossem velhos amigos. E pior. Funciona!

Na praça avisto diversos pastores aos berros evangelizando e convertendo apenas os amistosos mendigos próximos e pombos que se alimentam de sobras de lixo e restos de comida pelo chão. Noto a escadaria principal cheia de turistas ingleses e outros mendigos sentados tristemente cabisbaixos.

Pela primeira vez adentro a famosa Catedral da Sé.
Lá fico inseguro de permanecer com minha boina costumeira, penso que poderia desagradar algum  clérigo conservador, porém percebo que existem outros visitantes de chapéus. Isso faz manter meu aquecedor de piolhos sobre minha cabeça e atento-me as  belíssimas obras de arte sacra do lugar.
Fico alguns instantes olhando para a abóbada central e girando tento captar todos os detalhes das paredes e colunas, no centro da catedral. Vou até o altar e depois até a capelinha interna, localizada a direita do púlpito.

Do lado de fora vejo fiéis que oram ajoelhados, com olhos centrados na imagem de uma cruz. Demonstram uma necessidade que só a fé cristã poderia explicar com exatidão. Aparece uma senhora simpática e corpulenta perguntando se iria participar do terço hoje. Antes de responder ela faz outra pergunta:
- O senhor viu, vão fechar a catedral?
"É mesmo, deve ser por causa da reforma", ponderei.
- Mas eu nunca vi a Catedral fechada. Há quanto tempo o Sr. Mora em SP?
"Bem... faz 22 anos"
- Nossa estou aqui já fazem 30 anos e nunca vi essa Catedral fechar.
Saiu sem saber se iria participar do terço.
 
Busco a saída lateral da igreja, chegam mais turistas. Dessa vez japoneses, alguns até com camisetas da seleção brasileira. Rumo para a estação de metrô. Fico pensando em outras histórias, até retornar para minha morada na modesta e densa Diadema.
José Luís de Freitas
Enviado por José Luís de Freitas em 16/11/2006
Reeditado em 17/11/2006
Código do texto: T292552

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Sobre o autor
José Luís de Freitas
Diadema - São Paulo - Brasil, 32 anos
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José Luís de Freitas