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Nicanor

Nicanor



O bebê nasceu saudável, peso e medidas normais. Gildinha, pequena, franzina, mimada e esnobe, fez de tudo para ter um parto normal. Chegou a viajar para o alto Xingu quando soube que as índias tinham os seus bebês com parto normal e de cócoras. Atentou tanto o marido que ele antecipou suas férias para acompanha-la. Foram trinta dias com a tribo.
Aprendeu todas as técnicas naturais de dar a luz, a que mais gostou foi a do parto na água. Quando voltaram, Gildinha se sentia confiante. Caprichou no enxoval, comprou berço e carrinho de marca e chegou a consultar um técnico para colocar ar condicionado nos dois. Dizia que quando chegasse o verão o bebê estaria mais a vontade.
Bibi, a cachorrinha companheira de cinco anos, passou antecipadamente para a área de serviço, trocando o sofá por uma caixa de papelão forrada com paninhos floreados e fluflu. Comprou para o marido, a mãe e a empregada, telefones celulares com instruções de serem usados somente para o assunto parto.
Dinheiro nunca foi problema para Gildinha. Mandou fazer uma banheira especial para o parto. Treinou com pedaços de borracha o corte do cordão umbilical com os dentes que aprendera com uma índia chamada Pipi, que havia dado a luz a nove indiozinhos sozinha.
Estava ela numa boutique comprando algumas coisinhas para relaxar. Sentiu que chegou a hora. Imediatamente os telefones são acionados. Primeiro da empregada, para que enchesse a banheira com água filtrada e morna. O segundo, para a mãe, para lhe fazer companhia e o terceiro para o marido que chamasse um médico. Tudo pronto e todos a postos. As contrações começaram aumentar. Gildinha, dentro da banheira, fazia força. Depois de várias tentativas e número igual de desistências, o médico constatou que Gildinha teria que ir para um hospital fazer uma cesariana.
A rotina da casa se modificou. Além das tradicionais mamadas de hora em hora, inclusive de madrugada, troca de fraldas e banhos após dados pela vovó coruja que era assistida, obviamente, por uma empregada que lhe dava tudo nas mãos.
Junior se desenvolvia com saúde e graça. Sua rotina de dormir, comer, dormir, comer e ser lambido nos intervalos que estava acordado não se modificava.
Gildinha, mãe de primeira viajem, dos seus 48 quilos, passou para 32. O médico diagnosticou Stress pós-parto. Ela deixava todos loucos.
-Não falem alto, Juninho está dormindo!
-Não tussa dentro de casa!
Chegou a colocar chinelos de borracha na porta da casa e máscaras. As pessoas quando chegavam tinham que tirar seus sapatos e colocar as máscaras.
-É por causa das bactérias e vírus, dizia ela se justificando.
Visitas com crianças foram proibidas definitivamente. O marido teve que mudar de quarto, Gildinha disse que seu ronco poderia perturbar Juninho.
O garoto nunca chorou completo, era só abrir a boca que Gildinha estava com ele no colo, a empregada pronta para trocar as fraldas e a avó para dar assistência e isto todo o tempo, inclusive de noite.
A empregada ficou trabalhando um mês e pediu as contas, a mãe se esgotou por tantas noites sem dormir e foi parar numa clínica de repouso. Sobrou para o marido.
Uma noite, a situação piorou. Não adiantou trocar as fraldas, dar comida ou embalar. Junior abriu um berreiro e não parou mais. O marido acionou de imediato o pediatra de plantão.
Após alguns exames, o pediatra não justificou seus altos preços da consulta a domicílio e mandou que levassem Junior para o hospital. Gildinha ficou apavorada e Juninho gritava que nem uma ovelhinha desmamada.
Foi solicitada uma junta de médicos especialistas para examinar o herdeiro. Nada foi encontrado.
Após medicação, Junior volta para casa dormindo. Gildinha, ainda preocupada, fica acordada ao seu lado, no quarto próximo do marido que ronca.
O dia começa a nascer e junto com os primeiros raios de sol o berreiro de Juninho. Gildinha acorda o marido, que acorda o Pediatra, que chama a junta de médicos especialistas e novamente todos se dirigem ao hospital. Novas baterias de exames. Junior não foi examinado, foi praticamente mapeado da cabeça aos pés. Das suas unhas que foram examinadas cuidadosamente, até os fios de cabelo. Novamente nada foi encontrado. Cansado, o seu choro se transformou em gemido, deixou de se alimentar e não dormia mais. Definhava a cada dia.
A rotina se modificou, passou para casa, hospital, soro, remédios, casa, hospital, soro, remédios e nos intervalos, o desespero de Gildinha.
Resolveram então leva-lo para os Estados Unidos. Contrataram um intérprete e o pediatra de Juninho para irem juntos. Novas baterias de exames foram feitas e nenhum médico gringo soube dizer o mal que Junior sofria. A viajem ao exterior só trouxe mais desanimo e desespero. Os amigos da família ligavam para apoiar Gildinha. Uma delas, mais chegada, a que lhe falou sobre o parto de cócoras conversava com ela ao telefone:
-Minha querida, não desanime, a Berenice também passou por este problema com a Abigail.
-Aquela que mora com o pai? Pergunta Gildinha.
-Sim, e veja a moça linda que é!
-Ela chorava o tempo todo como o Junior?
-Se você chamar choro de gritos, sim.
-O que ela tinha?
-Não descobriram, o que a Berenice me falou foi que levou a menina pra benzer!
-Aonde?
-No mercado. Ela me disse que lá tem um homem que benze.
-Obrigada! Disse Gildinha pegando a agenda e procurando o número da Berenice.
A limusine pérola estaciona na banca do Nicanor dos Passarinhos, no mercado público. As pessoas em volta olham curiosas para aquele carrão.
Seu Nicanor está limpando as gaiolas dos periquitos e quando vê, todos já estão dentro de sua pequena loja. Gldinha com o bebê no colo, o marido, o pediatra e o motorista. Seu Nicanor limpa as mãos num pano encardido que estava encima do balcão. Todos ficam olhando para ele sem dizer uma palavra. O Silêncio foi quebrado por seu Nicanor que diz olhando para o Junior no colo de Gildinha:
-E aí minha gente, trouxeram o pimpolho para benzer.
O pediatra, o pai e o motorista olharam para Gildinha que olhou para o Junior.
Seu Antenor pega o bebê no colo, vira-o de bruços e faz uma oração. Em seguida, entrega para a mãe.
No trajeto para casa, no colo, Junior suga avidamente o leite materno. Mamou e dormiu. Nunca mais teve qualquer problema. Aquela Limusine também nunca mais parou na banca do Senhor Nicanor.
Algum tempo depois, seu Antenor a viu passar e um garotinho no banco de trás lhe acenou. Ele também acenou e voltou a limpar a gaiola do coleirinha dizendo para o passarinho de estimação:
-É Tico, arca caída se não cuida mata!
O coleirinha, como entendendo o seu dono, dá um pulo no poleiro e dobra continuamente.
Kia
Enviado por Kia em 17/11/2006
Código do texto: T293534

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Sobre o autor
Kia
Itapema - Santa Catarina - Brasil, 65 anos
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