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Uma tragédia em Santa Tereza

     Esta hisória foi contada por um amigo meu. Mas como nosso povo, desde os tempos que o Cara de Cão era a sede da cidade de São Sebastião, costuma aumentar uma certa quantidade de comédia e erotismo nas histórias, façamos as devidas diminuições nos exageros cariocas.
     O caso se passa num restaurante da bela Santa Tereza. Bairro antigo da cidade maravilhosa. Estava ocorrendo um evento de arte no bairro da carioca Laurinda Santos Lobo. Arte e Santa Tereza são sinônimos. Em se tratando de arte, Santa Tereza só perde para o Centro da cidade. Porque a arte de Santa Tereza não só se encontra nos diversos ateliês, mas em sua arquitetura colonial e modernista. E além de arte, em Santa Tereza temos umas das mais lindas vistas da cidade de Tom.
     Bem, deixemos de digressões bairristas e seguimos com a história. Como dizia no parágrafo digressivo anterior, isto se passou num restaurante de Santa Tereza. Olavo, meu amigo que contou a história, estava com a namorada e um casal de amigos. Este casal fazia uma visita ao Olavo. Amigos de longa data. Conheceram-se nos anos 80 na bela Curitiba. E agora visitavam Olavo e conheciam a charmosa cidade de São Sebastião. Coincidentemente, acontecia o tal evento de arte em Santa Tereza. E depois de muito caminhar, subidas e descidas, veio alarmar o grupo aquela velha moléstia que acompanha o homem desde o seu surgimento neste planeta: a fome. Decidiram almoçar num restaurante de comida paraense. Olavo já conhecia o restaurante e sabia que a carne era de ótima qualidade. Edgar logo aceitou como um bom curitibano. E dirigiram-se para o tal templo nortista das carnes. Ficava ali bem próximo ao Largo do Guimarães.
     - Garçom, mande-nos o de sempre! Gostava disso Olavo, pois confirmava que frequentava os melhores lugares do Rio. E também aproveitava para impressionar sua nova namorada, Ângela. Ângela era uma daquelas belas mulatas desta cidade. "Alta e apetitosa", era assim que Olavo me falava de sua nova musa.
     - Seu Olavo! Nosso mais ilustre cliente! Parentes?
     - Mais do que isso, meu amigo, são meus amigos. Amigos são melhores que parentes! Olavo adorava se gabar de seu ciclo de amizades e sempre terminava com uma gargalhada estrondorosa.
     - Prazer, fiquem a vontade! Amigos de Olavo são meus amigos e sempre bem vindos!
     - Obrigado. Disse Edgar, com polidez e assustado com a espontaneidade carioca.
     Enquanto o pedido não era servido, Olavo e Edgar conversavam sobre velhos temas que sempre costumavam discutir na juventude. Mas agora discutiam de forma indiferente, pois alguns temas só incomodam os espíritos pueris da primeira juventude. As utopias, as ideologias, as revoluções. Estes temas ainda existem em seus espíritos, mas não mais como incômodo, agora tudo é rotina, enfado, destino. Olavo gostava muito deste termo: fadiga espiritual. Dizia que "o espírito se cansava da rotina de ser humano e alcançava uma fadiga exacerbada que corteja a morte". E sempre concluía assim: "a morte é a fadiga espiritual". Já ia me esquecendo, Olavo é professor de Filosofia.
     Edgar e Olavo eram amigos mesmo tendo pensamentos contrários. Como diz um velho ditado: brigam as idéias, não os homens. Edgar e Olavo seguiam ao pé da letra este ditado. Um era socialista o outro liberal. Um era católico o outro protestante. Um preferia as mulatas o outro as louras. E assim ia as suas diferenças, em nada se alinhando. Mas eram amigos. Loucura, não? Talvez a concordância dos dois se dava no que era mais nobre, o amor fraternal.
     Olavo me contou esta história com muito tristeza, pois aquele tinha sido a última vez que vira seu grande amigo. Se ele soubesse que aquele almoço geraria uma tragédia, jamais teria levado Edgar para almoçar fora. Melhor seria ter ficado em casa. Na época, Olavo morava na bela Machado de Assis. Mas queria impressionar o amigo e deu no que deu.
     Diz o Olavo, que depois de muito bate papo e de muito comer, pediram a conta. Edgar tivera uma idéia infeliz. Quis fazer uma brincadeira com o garçom, para testar a simpatia do bom carioca. Só que Edgar não sabia que a maioria dos garçons da cidade maravilhosa não é carioca. A maioria vem do Norte e Nordeste. Pessoas de "pavio curto". E, para piorar, o velho Heitor, dono do restaurante, era do Pará. Bem, quando chegou a conta, Edgar colocou em prática seu plano.
     - Não Olavo, deixa que essa eu pago. Edgar quando viu o valor da conta ensaiara um susto medonho.
     - Isto é um assalto! Um roubo! Roubo digno de Marcos Valério! Você não tem vergonha de me cobrar tudo isso por alguns petiscos e alguns refrigerantes?
     - Calma, Edgar. Deixa que eu pago. Disse surpreso Olavo.
     - Não, Olavo! Não aceito, exijo uma explicação agora! Quem é o dono desta espelunca?
     - Calma, senhor! O senhor está perdendo a razão!
     - Calma, o caramba! Isto é um insulto! Quero falar com o dono desta possilga!
     - Calma, Edgar! Fique calmo, cara! Não é preciso disso!
     O velho Heitor ouvindo aquele escândalo e vendo que o garçom não conseguia acalmar o curitibano em fúria, resolveu intervir na situação. Mas Heitor já chegava um pouco irritado, pois havia escutado várias ofensas ao seu estabelecimento. E como um bom paraense, resolveu levar seu velho "penitente". "Penitente" era como chamava Heitor um velho 38. 38 dado pelo seu pai, fundador daquela tão nobre casa. Tão bem frequentada por famílias distintas. Dizia que fora frequentada pelo próprio Anatole e Laurinda. E enquanto ia de encontro ao barulhento e alterado cliente da mesa 17, passava em sua mente as belas histórias que vivera naquele lugar. Lugar levantado por seu pai. Seu pai havia chegado do Pará e com muito trabalho construiu aquela casa. Casa que os alimentara. Casa que fizera bacharel seu filho e professora sua filha. Casa que certamente passaria para um neto, um bisneto. E assim seguiria com sua missão. E agora aquele sujeitinho tentava difamar tão sagrado lugar. Construído com o suor de gente trabalhadora e honesta. Aquele sujeitinho soberbo tentava derrubar com palavras torpes o trabalho de um homem.
     - Seu Olavo, acalme seu amigo. Disse ainda com voz mansa o velho Heitor.
     - Meu amigo, acredito que tudo isso seja um mal-entendido.
     - Mal-entendido, Olavo? Como você pode ficar do lado destes? Acontecia agora com Edgar o que sempre acontece com aqueles que perdem o domínio de si mesmos quando ingressam por uma via tortuosa de pensamento. Não tinha mais como Edgar voltar atrás. Voltar seria vergonhoso. Teria que agora sustentar aquela história. Apontava alucinadamente para a mesa e mostrava que ali apenas havia alguns petiscos e bebidas e nada de carne. Continuava alarmando sobre o valor da conta. Gesticulava insanamente.
     - Como podem cobrar este valor por alguns bolinhos de bacalhau e alguns refrigerantes!
     - E a picanha, meu caro! Finalmente se manifestou o garçom, agora ganhando força com a presença do patrão e seu "penitente".
     - Picanha? Você está louco? Que picanha?
     - Que picanha? Eu mesmo te servi!
     - Mentira! Seu mentiroso de merda! Quando as pessoas perdem o domínio próprio ou lhes faltam argumentos elas costumam partir para a agressão. Mas neste caso, a valentia de Edgar se apoiava na situação que ele se encontrava, ou seja, ele era o cliente e aquele nordestino era o funcionário. Qualquer atitude de violência por parte dele poderia custar-lhe o emprego. "Os falsos valentes sempre se apóiam em grades". Este é um velho ditado filosófico, nunca o entendi muito bem. Mas agora, nesta história, ele faz sentido.
     - Meu caro, você tem que pagar a conta. Meu funcionário jamais inventaria uma história dessa. Esta casa é um lugar de respeito e de memória de pessoas ilustres. O próprio Anatole e dona Laurinda costumavam almoçar aos sábados aqui. Agora não pense que você vai apagar toda esta história por causa de uns míseros trocados, entendeu?
     - Como ousa? Naquele momento, quem chegasse ali julgaria que o velho Heitor fora bastante radical. Mas aquele "- Como ousa?", foi o limite do velho filho de nortista. Heitor sacou o "penitente" e mandou dois tiros nos peitos do sujeito. Olavo desesperado segurava o amigo. A bela mulata ficara paralisada num canto do restaurante sendo consolada por um outro cliente aproveitador. A mulher do Edgar chorava desesperadamente. Heitor ficara ali imóvel, vendo jorrar o sangue que limparia a honra de sua família. Chegou a polícia. Heitor fora preso debaixo de uma calorosa salva de palmas. Muitos julgaram que Heitor era homem de honra. Outros colocaram a culpa no capitalismo. Outros na midia. Olavo me disse que hoje o restaurante é tocado pelo neto mais velho de Heitor, que herdara com justiça o "penitente".
     Depois de tudo, Olavo ainda acompanhara o defunto até o IML. Acompanhou o trabalho dos profissionais da rua dos Inválidos. Bem, acompanhou enquanto pode. Depois foi para uma pequena sala ao lado, onde conseguia ouvir os dois homens que dissecavam seu amigo conversarem sobre o infeliz.
     - Este pelo menos morreu de barriga cheia, né?
     - É verdade, nunca vi tanta carne.
Rodiney da Silva
Enviado por Rodiney da Silva em 18/11/2006
Código do texto: T294914

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Sobre o autor
Rodiney da Silva
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 46 anos
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Rodiney da Silva

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