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A mesmice secular

     - Eutanásio? Você de novo por aqui? Você não disse que iria morar na roça e não queria mais saber de cidade grande?
     - Cândido, é você? Como você está mudado, meu amigo! E esta barba... por que esta radicalidade?
     - É, dei uma mudada no visual, gostou? Estou mais atual, não?
     - Atual? Você, atual? Quando começou a se preocupar com a aparência? Você não dizia que se orgulhava de não ter ícones, de não seguir moda nenhuma, de não ter ideologia, nem filosofia, de ser indiferente à estas questões que costumam incomodar as "pessoazinhas" idiotas e de espírito medieval? Cara, você está me surpreendendo!
     - É, as coisas mudam, meu amigo. Até aqueles, que aparentemente são pedras, podem mudar. Mas não desconversa não. O que você está fazendo aqui? Você disse que nunca mais voltaria a morar em cidade grande, lembra? Bem, pelo menos, desde aquela tragédia com a Judite, né? Você sabe o que aconteceu com a Judite? Sabe, aquele cara...
     - Não Cândido, não sei e nem quero saber, ok?
     - Tudo bem, amigo. Estas coisas do coração são muito incômodas, não? Mas, enfim, diga-me, o que você faz de volta ao Rio? Saudade? Tédio caipira? Hehehe...
     - Bem, voltei a morar no Rio. Não me olhe com esta cara irônica, Cândido! Eu não disse que não moraria mais em cidade grande. Eu disse que estava difícil de achar mulher para casar em cidade grande. Você sabe que sou meio medieval quando se trata de relacionamentos, não é? As mulheres da cidade são muito independentes e não gosto nada disso. Mulher tem que ser dependente do marido. Mulher que trabalha fora e ganha mais do que eu, isto é loucura!
     - Cara, realmente você é arcaico! Hahahaha... Só você mesmo, Eutanásio!
     - Sem essa, Cândido! Todo mundo tem suas esquisitices! Respeite a minha em particular. E outra coisa, quais de nossos amigos que casaram com mulheres da cidade ainda estão casados? Nem o Juca que era o mais pacato, que casou com a Norminha, a filha do pastor, lembra o que aconteceu? Aquilo sim foi uma tragédia! Encontrar a Norminha de caso com um diácono da igreja de seu pai. E isto tudo em menos de dois meses de casados. Alguns diziam que aquele namoro santo já existia bem antes dela começar a namorar o Juca. Pobre Juca, terminou sua história preso por ter enfiado uma bala na Norminha e no santo diácono. Você tem visitado o Juca?
     - Nunca, não suporto cadeias! Dá azar, entende?
     - Sei...
     - Mas, me diga, por que voltou para a Maravilhosa? Onde você tá morando?
     - A verdade é que não aguentava mais aquela vidinha interiorana, sabe? Senti falta dessa confusão urbana. Senti saudade das sirenes, dos batuques, dos bêbados, do mar, dos amigos, do bate papo no fim de tarde em Copa, da vida cultural; ou seja, descobri que sou um cara urbano em essência. Tô morando no Catete, ali perto do Largo do machado.
     - Mas o que te levou ir para aquelas bandas de Valença?
     - Quer saber a verdade? Fui atrás de casamento. As moças de Valença são muito bonitas. E fiquei sabendo que elas gostam muito dos universitários. E lá fui eu, atrás de uma valenciana. Quem sabe teria sorte e me casaria com uma filha de fazendeiro. Como te falei, depois da Judite, não quis mais saber de mulher emancipada. Mulher moderna, livre, atual. Você sabia que a Judite me disse que eu fôra muito radical com ela? Que eu era um cara atrasado e coisa e tal? Estas mulheres filhas de Simone são loucas, muito depravadas. Então parti para Valença, atrás de mulher decente e boa para casar. Você está rindo?
     - Desculpe, cara. Mas é muito engraçado... Ok, eu paro, continue...
     - Aí, encontrei uma raridade! Linda moça. Morena, cabelos longos, olhos negros como seus cabelos. As curvas de seu corpo eram tão belas como as curvas das montanhas da velha região do café. Inteligente. Amante de literatura. Leitora de romances e muito prendada. Era tão bem educada que jamais lêra um livro de filosofia. Não comece, Cândido! Eu encontrei um tesouro! Uma verdadeira pérola! Priscilla não é como estas mulherizinhas que gostam de ter opinião, que gostam de citar filósofos, que gostam de liderar marchas. Priscilla é prendada e sabe muito bem seu lugar na sociedade. Eu fui seu segundo namorado. Sim, é sério. Pensei que isso não existisse mais, mas encontrei uma pedra rara. Me sinto um felizardo. Um privilegiado.
     - Bem, meu caro Eutanásio, basta ser feliz. Vejo que está muito feliz e isso me agrada. Se sua Priscilla te faz isso, seja feliz. Mas cuidado para que um vírus urbano não atinja sua preciosidade, ok? Por que, você sabe, né? O espírito feminino é facilmente atraído por romances e aventuras, e...
     - Bem se vê que você não conhece minha Priscilla. Ela jamais será seduzida pelas sutilezas torpes da modernidade idiota de nosso século!
     - Falou muito bem. Nosso século. Não se esqueça que Priscilla também é deste século! E que século, não?
     Nem me fale!
 
     Os dois amigos se despediram. Cândido ainda sorrindo, sozinho, lembrava da ingenuidade de Eutanásio. E pensar que há poucos anos Eutanásio queria morrer por causa das dores do coração. Agora estava revigorado, novamente apaixonado. Bom para ele, não?
     Eutanásio pegara um ônibus para voltar para casa, e, assim, poder envolver sua pedra preciosa em seus braços. No caminho agradecia a Deus pela sua benção. No caminho olhava as pessoas e percebia que ninguém seria tão feliz quanto ele.
     No Centro da cidade, uma bela moça fazia uma visita à Biblioteca Nacional. Um pequeno artigo que lêra num jornal sobre uma escritora chamou sua atenção. Chegara até o balcão e pediu a bibliotecária, sem hesitar:
     - Por favor, queria o livro de Simone...
Rodiney da Silva
Enviado por Rodiney da Silva em 18/11/2006
Código do texto: T294922

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Sobre o autor
Rodiney da Silva
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 46 anos
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Rodiney da Silva

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