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O suicida

- Dr. Inácio, por favor.
- Um momento…
- Inácio?
- Sim, quem deseja?
- É Getúlio, lembra de mim?
- Gegê?
- Sim, o Gegê, tudo bem?
- Tudo bem, e aí rapaz, como você vai?
- Tudo bem. Preciso falar-lhe algo muito importante.
- Pois não.
- Vou suicidar-me.

- Alô, Inácio?
- Sempre com brincadeiras, né?
- Não, é sério, vou suicidar-me amanhã, ás 14 horas. Esgotei-me da vida.
- Ficou maluco? Nada, nenhuma mazela merece nossa autoaniquilação.
- Não, está tudo bem. E é justamente por isso que desejo o fim. Nada de novo acontece para a minha existência. Queria que você soubesse disso, para que pudesse ajudar minha família, que, certamente, não entenderá minha decisão.
- Getúlio, você fala sério?
- Seríssimo!
- Não pode ser. Você é um sujeito que tem tudo. Dinheiro, uma bela e fiel esposa, bons filhos, amigos, uma doce amante… Getúlio, você tem um iate!
- Mas eu perdi a vida…
- Vida? Que vida você perdeu?
- O sentido…
- Sentido? Trabalhamos para isso, para termos conforto e…
- Sim, e depois vem a morte do mesmo jeito. Na verdade o que buscamos é algo que nos torne eternos. Vemos todos os dias pessoas conhecidas e desconhecidas morrendo. Elas deixam tudo aquilo que conquistaram para pessoas que são indiferentes às suas conquistas. E estas pessoas também deixarão coisas para outras pessoas indiferentes quando morrerem. Para que tudo isso? Por que esse cuidado com uma vida que se autoaniquila?
- Mas, você não pode pensar assim…
- Por quê? Fica sem sentido a existência? É, meu amigo, a verdade tira o sentido da vida, não é?
- Não, ainda tenho a vida como o grande evento da criação e…
- Sim, e a morte seu grande encerramento trágico!
- Não!
- Sim! Procuramos a eternidade em nossas ações, mas a morte zombeteira ironiza o nosso proceder.
- Não acredito que você pensa assim…
- E como você pensa? A verdade é simples, mas nos distanciamos dela por medo, por tentarmos sempre dar sentido ao que não tem sentido. Somos covardes para admitirmos que a nossa aniquilação é certa. O paradoxo é que sabemos disso, mas vivemos como se não soubéssemos. Sim, o sentido da vida é mentira. A verdade tem que ser abolida em benefício da mentira do sentido de viver. Não é, Inácio? Inácio?
- Pois não, senhor?
- Inácio?
- Não, sou a secretária do dr. Inácio. Ele teve que dar uma saída emergencial, o senhor quer deixar recado?
- Não, já lhe dei o recado e acho que ele não volta mais.
- Ok, senhor, tenha um bom dia.
Rodiney da Silva
Enviado por Rodiney da Silva em 19/11/2006
Código do texto: T295217

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Sobre o autor
Rodiney da Silva
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 46 anos
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Rodiney da Silva

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