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Esses botões!


Apertou o primeiro canal. Um idiota vestido de esporte chic garante que o Brasil é um País desenvolvido. O partido do qual era o representante maior é o único partido que se preocupa de verdade com o povo. O energúmeno parecia ator de novela mexicana. Além de mentiroso, não sabia falar, de quando em quando fazia uma longa pausa e, quando retornava, parecia um disco de vinil arranhado.
Cospe na tela e aperta o canal dois, o canal mais famoso da televisão nacional. A mocinha está se derretendo em lagrimas e, nesta dramalheira, conferiu o tempo, chorou quatro minutos seguidos, se perguntou onde ela arrumou tantas lágrimas, uma verdadeira torrente.
Apertou o canal três, uma emissora nova, um abobado falando de uma doença inacreditável que a artista Rita Cadillac estava sofrendo.
Ficou até o fim do programa para saber qual a doença da artista. O abobalhado do apresentador disse no final do programa que não tinha mais tempo e que os espectopalhaços sintonizassem no dia seguinte, que revelaria qual a doença. Espectopalhaço, mistura de palhaço com telespectador.
Foram cinqüenta minutos de enrolação. O telespectador curioso mudou para o canal quatro. Nesse canal uma moça linda chamou sua atenção. Puro engano, foram mais trinta minutos em que ela prometia mostrar um sapo que cantava. Com a cara mais lavada acabou o programa, prometendo mostrar no outro dia. Ele começou a desconfiar que foi ele que engoliu um baita sapo. Ainda tinha mais dois canais. Na seqüência foi o cinco. Levou um susto e correu para abaixar o volume. Um endeusado, fazendo macaquice em volta de uma moça que parecia estar tonta, gritava:
-Saia deste corpo! Este corpo não é teu! Volta para onde saíste!
Trocou ligeiro o canal, sintonizou o seis.
-Sai Satanás, volta pros quintos dos infernos, gritava roucamente um engravatado.Outros com camisa branca de manga comprida e calças pretas gritavam em coro, só que um atrasado do outro.
-Vai! Vai! Vai! O último da roda segurava a cabeça, dava um assoprão e um grito na orelha do vivente, que ele saia aos pulos.
-Maria, corre, vem ver uma coisa, disse ele morrendo de rir.
Agora o engravatado oferecia um produto.
-“Meus irmãos, este  é o óleo das Oliveiras do monte onde Jesus orou”, dizia mostrando um pequeno frasco de cor marrom.
Depois da chamada de um programa que outro engravatado faz de conta que está escutando, um outro babaca fica falando sozinho, volta o dito cujo chamando os infiéis para que estejam no templo situado na rua tal, numero tal, que ele estaria aguardando para jogar sal grosso. Mas não era somente isto, garantia ele, o sal veio diretamente do mar morto.
-O único vivo aqui é ele!
E antes que o leitor pense que o telespectador de nossa estória seja um anônimo, declino não apenas o nome. Chama-se Constancio Pinto, casado com Dona Maria. Ambos são beatos de pai e mãe; porém, na verdade, Dona Maria é quem acredita pelos dois.
-Tudo é uma questão de fé: Uns, fé de mais; outros, fé de menos, dizia ele quando a conversa abrangia religião. Gostava mesmo é de assistir televisão e a programação atual o deixava fulo da vida.
Voltemos ao programa. No momento, o engravatado manda colocar um copo com água em cima do aparelho para benzer, dizendo que quem tomasse aquela água, depois que fosse benzida, estava curado.
-Maria, traz um copo d’água, quem sabe eu não melhoro das minhas hemorróidas!
Enquanto Maria vai para a cozinha, uma nova chamada. Para os fiéis participarem da fogueira santa, os camaradas iriam tocar fogo não sei aonde e expulsar todos os diabinhos que estivessem por perto.
Aguarda a reza começar, e nada.
-Vai ver que esqueceu, comentou com Maria.
-Meu amigo, minha amiga, meus irmãos, quero falar agora com os empresários. Se você é presidente, diretor ou proprietário de alguma empresa, amanhã vocês não podem perder a reunião dos presidentes, para serem abençoados. Vice não entra. Além destes que eu citei, somente chefe de departamento financeiro. Vocês verão a prosperidade bater na portas de suas firmas.
Em seguida, um grande comercial graficamente trabalhado, com música de suspense e efeitos visuais, uma maravilha.
-Olha aí Maria, por que você não vai?
-E por acaso eu sou dona de empresa?
-Ora, você não costura pra fora? Você é uma empresária do ramo de confecções!
-Hein?
-Agora cala a boca, que vai começar a reza!
Que nada, entrou um bloco comercial.
-Me dá este copo d’água que eu tô com sede.
Tomou a água em dois goles e limpou a boca com a manga da camisa.
Muda de canal e um locutor esbaforido grita:
Compre já! Se você comprar agora, não receberá apenas um frasco do famoso produto, mas sim dois, e uma linda sacola. E tem mais! Os cem primeiros que ligarem pagarão apenas quarenta por cento do valor.
Apertou a última tecla, o canal estava fora do ar.
Maria viu quando Constâncio se levantou, subiu as calças e foi para a rua.
Maria não viu quando ele pegou uma marreta e destruiu a antena parabólica que estava fixada no jardim. Só escutava o barulho.
                         









                                             
Kia
Enviado por Kia em 22/11/2006
Código do texto: T297777

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Sobre o autor
Kia
Itapema - Santa Catarina - Brasil, 65 anos
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