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"SACO VAZIO...NÃO PARA EM PÉ."

Aparentava estar na sétima década de vida, embora  a face de sofrimento costume denotar o que o tempo sozinho ainda não o faria.
Como eu, andava pelos corredores do supermercado, tocando os produtos,investigando os preços, mas rapidamente os devolvendo às prateleiras.
Percebi que ficara desajeitado com minha percepção sobre a sua pessoa.
Não tive a intenção.
Somente um cego não perceberia  tamanha fragilidade social  e conseqüente dificuldade para consumir  a dignidade.
Por um instante perdemo-nos de vista, posto que ele enveredou por outro corredor, talvez na necessidade de se esconder.
Logo adiante, na farta secção das carnes, pegou um pacotinho na mão, mas após aquele quase mesmo movimento de devolução do produto, desta vez resolveu tentar.
Tirou do bolso umas amassadas notas de dinheiro curto e algumas moedinhas e percebi que lia por simbologia e não conhecia números.
Deduzindo a quantia, dirigiu-se a mim e perguntou:
-Por favor, poderia me ler o preço?
Tratava-se de um pacotinho de toucinho, que a vida já me ensinou, que mais serve para sustentar o corpo  do que propriamente  para nutri-lo, e geralmente  é a carne que as pessoas naquela condição conseguem consumir.
Estava politicamente correto.
Lembrei-me do ditado da minha avó- “saco vazio... não para em pé”.
Informei-lhe a quantia e tristemente constatamos que seu dinheiro não era suficiente para a aquisição, embora faltasse pouco.
Entreolhamo-nos.
Não sabia o que eu faria.
Tive vontade de lhe oferecer a diferença restante, ou a compra total, mas... e se me levasse a mal.? Não se sentiria humilhado?
Adivinhou meus pensamentos pela metade deles.
"Você...teria o que falta?"
Fiz as contas... dei-lhe bem mais.
"O senhor pode ficar com o troco, ou leve dois pacotinhos" lhe sugeri.
Agradeceu e nos perdemos novamente.
Assim que cheguei ao caixa eu o avistei na lanchonete do supermercado; já havia pagado sua compra, e mastigava com avidez um sanduíche de mortadela, acompanhado de café com leite.
Sinceramente, não me lembro de ter visto na vida, alguém saborear com tanto desespero aquela combinação.
Saí dali impressionada, principalmente depois de notar que o pobre homem vestia uma camiseta muito velha ,de um branco encardido, onde mal se lia...
"Fome zero"...dignidade garantida, cidadania conquistada.
Pensei... “tem hora, que além de não se saber ler,melhor mesmo, é não saber pensar...nem sentir”.



SP, 16/01/2006
MAVI
Enviado por MAVI em 24/11/2006
Reeditado em 09/03/2016
Código do texto: T299809
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
MAVI
São Paulo - São Paulo - Brasil, 56 anos
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