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        * A MORTE DO GALO*

         Povoado tranqüilo, vida de recato diário sem acontecimentos interessantes. Mas nesta tarde de junho de festejos juninos logo a noite, prometia animação.
O prefeito do município anunciara a chegada para assistir as comemorações. Homem baixo, forte, de bigode espesso, de pouco estudo, mas de uma popularidade a toda prova. Proseava com todos, tomava cerveja ou mesmo uma “pinga” (cachaça) nos botequins com o povaréu humilde do lugar. Era de oposição ao sogro, farmacêutico, elite do lugar, porém não se achegava ao povo e nunca ganhou uma eleição.
          Mesmo não financiando a histórica dentadura, as consultas, os tecidos, a vitória já estava assegurada. No dia das eleições, todos compareciam de roupa nova, dádiva do prefeito, transporte, almoço e um sorriso largo, para mostrar a dentadura (prótese) nova. Parecia que na boca tinha mais dentes do que os trinta e dois habituais. A boca ficava cheia demais, bem saliente e só era usada em dias festivos. Ninguém ousaria a façanha de usá-la rotineiramente devido à péssima mastigação, de sair lágrima dos olhos.
         Coitado! O protético analfabeto, sem sequer um certificado, media tudo lá na boca e a prótese saía à sua maneira. Com uma estética de fazer dó.
O prefeito olhou ao redor e comentou:
        - Onde está meu “cumpade” que não se encontra por aqui? Um gaiato para ser simpático e prestativo.
       - Deve está cuidando das penosas. Está engordando um galo e uma galinha para esperar os familiares que vêm de Fortaleza e da Bahia, nos festejos religiosos do fim de ano.
      - É?...
      Olhou para a meninada!
      - Quem se atreve a pegar as duas penadas do “cumpade”, para a tia preparar uma cabidela bem gostosa e servir de janta hoje a noite? Outras não servem, apenas estas da “engordança do cumpade”  
      Meu irmão, menino esperto, danado, atirador de elite com “baladeira”, olhou para outro pivete amiguinho e disse: - Vamos? Só podia ser uma pedrada certeira de uma “baladeira”, para não assanhar o galinheiro. Foram-se e voltaram logo com as duas penadas.
      A tia preparou a galinha a cabidela a rigor. O compadre chegara ao recinto e entre risos, piadas e gargalhadas todos se deleitaram com o belo jantar e despediram-se com tapinhas nas costa e promessas de retorno.
      - Amanhã mandem prender o prefeito.
O compadre meio cabreiro.
      - Entenderam o que meu “cumpade” prefeito disse? Todos ao mesmo tempo - Não. Não entendemos. Mas os olhares disseram que sim.
      - Mulher, o galo hoje não cantou!
      - É verdade, vamos levantar e olhar.
E o compadre abriu o vozeirão dizendo impropérios, uivando feito um leão amordaçado.
      - Eu mato quem roubou meu galo e minha galinha. Mato quem roubou e quem comeu. Berrando no meio da rua, com um cachimbo na boca, espumando e a baba caindo no canto da boca. Bando de safado, desavergonhado.
     - Seu Zé, o senhor tem que comprar primeiro seu caixão, pois quem mais saboreou as penosas foi o senhor e outro para o prefeito que ordenou a matança dos bichinhos! Coitadinhos!
      - Que?...
      E com um sorriso, mostrando os dentes amarelados pela nicotina.
      - “Ah! ‘Cumpade’ só mesmo muita confiança pru senhor afrontar um amigo assim”!


Sonia Nogueira
Enviado por Sonia Nogueira em 25/11/2006
Reeditado em 02/12/2006
Código do texto: T301243

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Sobre a autora
Sonia Nogueira
Fortaleza - Ceará - Brasil
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Sonia Nogueira

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