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Reveillon.

Fazia um certo calor dentro do elevador, mas ele descia feliz, todos os vinte quatro andares. O elevador parecia dotado de uma paciência titânica e ia tranqüilamente fazendo seu caminho para baixo. Ele com a cabeça a mil, pensando em como tinha sido boa a festa. Era o primeiro dia do ano e nunca tinha se sentido assim tão bem.
A festa tinha sido maravilhosa. Apenas tinha ouvido músicas de quais ele gostava, tinha passado a virada do ano com os amigos de quem gostava bastante e com o irmão que para ele era um dos melhores amigos que tinha.
Calmamente viu que a porta se abrira e saiu do elevador pegando o caminho para fora do prédio. Pensava demais na festa e realmente estava feliz, como ninguém mais estava, pensava ele. Saiu do prédio e ia caminhando para casa. Viu três dos amigos que estavam na festa, ali sentados no meio fio conversando e resolveu parar. Conversaram e ficara mais feliz ainda pois conseguira uma carona para casa, mas pensava que mesmo se fosse andando estaria tão feliz quanto naquele momento.
Ao chegar em casa, se ajeitou, tirou a roupa e tomou um banho relaxante. Antes de dormir comeu umas frutas que vira na geladeira. Caiu na cama e em alguns segundos já  estava dormindo.
Dormira tão bem que nada sonhou, nem pensava em nada, vivia apenas a felicidade de começar um ano novo de forma tão agradável. Lembrara-se de alguns dos reveillons que passara até então. Dois deles se foram longe da família, trabalhando. Ele tocava em festas, e nessas ocasiões passara tocando em uma festa. Passou a virada do ano com as pessoas da festa e com o tio, que era seu parceiro no som. Sentira-se um pouco distante e solitário mas ao ver da felicidade de todos na festa logo se esquecera e ficara feliz.
Lembrava-se também de outros e chegou a conclusão que esse realmente foi o melhor reveillon que tivera. Mas não sabia do futuro.
Acordou depois de um sono rápido, pois não dormira tudo que desejava. Levantou-se e saudou os pais com todas aquelas palavras que falamos a todos no ano novo. E foi comer alguma coisa. Resolveu-se pelo copo de leite com Nescau clássico de todos os dias. Foi direto para seu computador, no qual passava muito tempo em frente. Falou com algumas pessoas conhecidas pela internet e já teria que sair pois o almoço de todos os dias primeiro era na casa da avó.
Foi tomar um banho, outro em muito pouco tempo, mas era de costume tomar banho para sair de casa. Antes de sair ainda gravou o cd novo do Craig David, cantor que gostava muito. E foi para a casa da avó ouvindo as músicas que soavam perfeitas em seu ouvido, estava realmente feliz.
No caminho para o almoço ia quase deitado no banco de trás do carro pensando na festa. Especificamente em uma coisa da festa, exatamente os últimos trinta minutos da festa. Pensava na garota com quem ficara. Nos últimos momentos da festa, antes dela sair correndo da festa. Sua amiga impregnara-a para ir embora, embora ela não quisesse, assim achava ele. Ficara com gosto de quero mais e nada podia fazer. Pelo menos tinha anotado o seu telefone. Erradamente não sabia ele.
Sempre a achara interessante, sempre acreditara que ela era uma garota que valia a pena conhecer melhor. Quando soubera que ela ia à festa no fundo ficou com alguma esperança. Mas não sabia o que ia dar. E como a festa passasse e ela não chegava ficava um pouco triste, mas nada que pudesse comprometer a felicidade geral.
Mas quando a viu algo lhe contou que nessa noite algo ia rolar. Ficara um pouco mais contente e foi até lá falar com ela. Mas nada deu a perceber alguma alteração de comportamento.
Continuou a festa toda como estivera desde o inicio mas percebeu que era sua hora e sentou-se ao lado dela, que estava quase deitada apoiada em uma cadeira e no braço do sofá. Estava com o cabelo solto com sua bolsa e uma calça branca e uma camisa de alças. Pelo menos era assim que ele lembrava no dia seguinte, teve que admitir que bebera bastante. Sabia no entanto que a conversa que tivera e tudo o mais foi muito bom até a hora que ela se foi.
E agora ia deitado do carro ouvindo sua musica se lembrando aos poucos de tudo e achando tudo muito bom.
Chegara até a casa do almoço, e conversara com os familiares, comera e vira pela televisão a posse do novo presidente da república. Sentira-se emocionado durante toda a festa da posse. Pela primeira vez o povo se manifestava com uma esperança nova de que o país agora ia se tornar o que há tantos anos se falavam. Um país do futuro. O futuro estava chegando, ele achava.
Logo depois do almoço foi se deitar na cama que era da avó e ficou por lá pensando na vida e ouvindo seu novo cd. Depois de ir embora passaram na casa da outra avó que tinha, ficaram por lá por um tempo e depois foram para casa.
Decidira-se que não ficaria em casa e resolveu fazer algo que gostava muito no primeiro dia do ano. Achou um filme bom passando perto de casa. E estava decidido iria para lá. Amava o cinema, via muitos filmes.
Enquanto fazia hora pensava em todas às vezes as quais ia ao cinema sozinho. Sempre invejava os casais que sempre apareciam juntinhos como se fosse uma pessoa só.
Invejava e desejava isso para sua vida.
Tinha o telefone dela. Sabia que tinha, mas não sabia se ligava ou não. Não sabia o que ela falaria, e não sabia o que dizer muito bem. Quer dizer, sabia muito bem o que dizer mas não sabia como. Nunca conseguia dizer tudo que pensava antes de começar a falar. Sempre pensava muito no que podia falar, no que queria falar, mas nunca conseguia falar tudo que pensara.
Bem finalmente ligou, estava apreensivo, odiava quando não tinha controle total sobre a situação. Odiava quando algo ia ser inesperado, e odiava improvisar. Esperou chamar e veio uma mensagem da operadora dizendo que não era possível completar a ligação. Ficou gelado.
Pensara que ela o tinha dado o telefone errado. Ficara furioso, uma vontade de quebrar tudo lhe invadira de uma forma incrivelmente selvagem. Mas pensou rapidamente que não era possível, era mais fácil que tivesse errado ao anotar. Fizera algumas outras ligações e descobrira que realmente errara no número. Ficara mais tranqüilo.
Ligou então de novo, agora para o número certo. Ficou ainda mais calmo quando chamou de primeira. Odiava o sinal de ocupado. Em pouco tempo estava falando com ela. Sentira-se como em êxtase e a conversa ia fluindo, pensava que ela era perfeita. Sabia que isso não passava de sonho dele, mas gostava de sonhar. Ela gostava tanto de cinema quando ele. Ela tinha opiniões, argumentos, isso era ótimo também.
O sentimento de desanimo lhe invadiu de novo quando ela disse que não iria com ele ao cinema. Teve uma vontade de chorar, nada mais importava naquele momento. Queria vê-la novamente, mas ela se recusava a ir. Falara que não queria mesmo ir, que estava cansada. Ele gostou muito de sua sinceridade e ao mesmo tempo em que ficara desanimado gostou um pouco mais dela. Era de extremos e conseguia amar e odiar uma pessoa em questão de instantes.
A conversa ia prazerosa mas tivera que desligar, na verdade ela queria desligar, por ele ficariam algumas eternidades falando-se. Mas quando percebeu já estava com o telefone desligado. Resolveu que isso não o desanimaria e o filme iria ser bom.
Mudou a roupa e foi caminhando para o cinema. Durante o caminho todo não pensara em nada mais do que a conversa que tivera, guardara as coisas boas, formulava perguntas que queria fazer da próxima vez. Ia pensando e imaginando coisas. Imaginava muitas coisas sempre. Quase nenhuma se concretizava.
Chegou no cinema, comprou seu ingresso e tinha que fazer um tempinho pois chegara um pouco cedo. Logicamente viu alguns casais juntos, felizes, conversando, se beijando. Pensou que sua hora ia chegar algum dia, desejara que fosse o mais rápido possível. Lembrava-se do momento mágico em que pela primeira vez seus lábios se tocaram, e como o cabelo dela era bom, a textura de sua pele, o aroma dela. Tudo lhe invadiu fortemente a lembrança. Desejou voltar no tempo e parar naquele momento.
Recebeu uma ligação logo antes de entrar na sala do cinema, estava comprando pipoca. Era o aniversario de um amigo seu e estava o convidando para ir até um bar depois do cinema. Não se perdoou por ter esquecido esse fato. Era um grande amigo seu e havia um tempo que não se viam.
Viu o filme, que gostou bastante e foi para o encontro com seu amigo. Tinha que pegar uma condução para chegar até lá. Enquanto esperava no ponto da praia contemplava o céu estrelado e o mar que refletia a luz que vinha de todos os prédios que o rodeavam. Nisso encontrou um amigo sentado na beira da areia, foi até ele e desejou-lhe as boas entradas e logo depois pegou a van. Foi contemplativo o caminho inteiro, pensando na vida.
Depois e uns minutos estava sentado à mesa com seu irmão e o seu amigo, que era o aniversariante, tomando um chope e conversando. Conversaram sobre tudo e foi bastante agradável aquele fim de noite, por um momento pudera esquece-la. Voltara para casa e gravara um cd para seu amigo, enquanto preparava algo para comer. A fome lhe invadia avassaladoramente. Fizera uma macarronada. Comera e fora dormir.
Acordou e viu que o sol já ia alto no céu e percebeu pelo relógio que já era tarde. Quase horário de almoço. Tomou um Nescau e foi para o seu computador, pois tinha algumas coisas a resolver. Escreveu mais um pouco de seu mais novo conto. Estava pretendendo escrever uma estória. A inspiração vinha aos poucos e aos poucos ia completando-a. Foi almoçar na casa de sua avó pois sempre almoçava por lá quando não tinha nada em casa para se comer. Voltou e ficou desenhando um pouco até a hora de seu programa de tv favorito.
Parou as atividades para vê-lo e depois ficou se decidindo se ligava ou não novamente para ela. Tinha medos, apreensões e desejos. Ficou um bom tempo para se decidir se ligava ou não. E quando finalmente decidiu o raio do telefone somente dava o sinal de ocupado. Ficava frustrado com o sinal de ocupado. Pensava que ela estava falando com outro e não mais queria saber dele. Coisas de adolescentes apaixonados. Falou para si mesmo que isso era ridículo e infantil.
Quando finalmente conseguiu falar com ela a paz lhe retornou e durante algumas horas sabia o que era a felicidade de novo. Toda a ansiedade e preocupação que tinha sumira e por momentos breves sabia o que era aquela voz doce de novo.
Depois de desligar o telefone sabia de novo o que era a apreensão, e novamente sabia que teria que esperar para te-la em seus braços. Sabia que teria que ser paciente.
Sabia que apesar de tudo que imaginava, sempre era tudo igual. Sempre imaginava muitas coisas e elas nunca vinham a se tornar realidade, mas tinha esperanças. Sempre tivera. E continuaria a ter pelo resto de sua vida.
Mal sabia ele que não tinha como determinar o que seria dali para frente. Sabia que tanto ele quanto ela estavam mutuamente afim um do outro. Sabia que podia ser diferente essa vez. Desejou isso fortemente e deixou o tempo dizer o que quer que fosse acontecer.
leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 02/07/2005
Código do texto: T30346
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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leandroDiniz