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Não haverá amanhã

 Não haverá amanhã

O chão praticamente se abriu sobre meus pés. A queda era inevitável e irresistível. Não queria mais suportar o tormento que me vinha corroendo há semanas. Sou um simples humano e não tenho mais forças para suportar. Fui caindo e sentindo cada músculo, cada ligamento cada energia do meu corpo se extinguindo, era um sentimento de angústia e prazer. Desistir de tudo por alguns minutos, estar livre das pressões do mundo e saber que ali naquele estado é só você.
As janelas cuspiam uma luz amarelada que roubava o encanto das cortinas e depositava toda a sua clareza infernal no aposento. Eu via os livros na estante gigante que ia do chão ao teto, via todos aqueles exemplares enfileirados e empoeirados. Nada mais para observar. Caído e sem forças minha visão só me dava a esse luxo. Olhar a estante. Bati meu olhar em uma edição com capa de couro de Fausto. Lembrei-me que ele vendera a alma. Eu queria sentir a minha.
Estava exaurido no chão de tal forma que um simples ato de pensar parecia uma trajetória além de todas as capacidades. Um esforço homérico era necessário para tentar me mover, mas mesmo assim não o conseguia. Nada que fizesse iria mudar meu estado.
Ao fundo eu continuava ouvindo a voz dela. Uma voz macia e delicada. Em certas horas eu odiava como ela ria ironicamente de algumas idéias minhas e isso era realmente odioso. Ela é o tipo de pessoa que sabe colocar bem o que pensa e por isso me acha patético. Tenho que me expor para falar sobre algo e isso me torna vulnerável. Meu tio sempre falou que eu era um menino sensível e ele não gostava disso. Mas eu era daquele jeito e não tinha como não ser. Eu gostava de amar.
Queria saber quando o nosso amor se transformou em comodidade. Todo o amor está fadado à comodidade e à rotina. Amor é algo utópico, alcançável apenas na teoria. Sei disso na prática e agora olhe para mim, aqui estirado no chão do escritório. Sem forças, sem vontade. Ouvindo a voz dela suave como uma canção mas cruel e ferrenha.
Fragmentos que eu consigo captar me fazem cada vez menos forte. “...você sempre foi egoísta.”, “eu sempre soube que você era patético mas agora não dá mais”, “te odeio e passo a odiar a cada dia...”
As frases iam rolando pelo ar até esbarrarem em mim. Era estranho ouvir isso da única mulher que amei. Recordo-me como era bom sentir meus dedos por entre os seus cabelos, cada fio daquela delicia acariciava as minhas mãos e me fazia sentir vivo. Como posso esquecer a textura do rosto dela em contato com o meu? Sei que para sempre ao sentir o perfume que ela usa vou estar fadado a lembrar do amor que perdi, seria isso uma maldição? Maldição por uma tentação.
Por que meu Deus as tentações? A carne é fraca eu sei. Não queria ter feito aquilo, mas na hora era inevitável. Tudo seguia para a conclusão da ordem que não foi minha mas do destino. Tampouco sei o que ocorreu, estava muito bêbado para conseguir lembrar. Odeio o álcool. Odeio a tudo que me fez fazer isso. Queria saber quem era a outra. Quisera eu saber quem fez do meu amor uma lembrança triste e além do alcance.
Agora eu tenho que continuar sofrendo pelo resto da minha vida. Como viver uma vida sem propósito? Sei que estou muito cheio de questionamentos, mas à isso que se reduz o ser humano, a se questionar nas hora de fraqueza.
Parte das minhas forças começaram a voltar. Sentia o tapete embaixo de mim, uma sensação de conforto e ao mesmo tempo dura. Poderia ficar ali durante horas, mas de que serviria? É tão deprimente ver um homem quando alcança o fundo do poço. Tudo que tinha de mais belo e brilhante em minha vida acabou de ir embora. Tento encontrar as forças de que preciso para continuar, sair desse estado de torpor. Ir embora com dignidade.
Lembro-me de certa vez em que estava andando em um parque, não me lembro qual, e a vi caminhando. Ela se mexia suavemente, quase igual aos outros que por ali passavam também. É impressionante como o amor pode mudar tudo. Uma simples caminhada vira um espetáculo de graciosidade. Um sorriso parece mais um quadro pintado em realidade pura e sensível. Um beijo é o transbordar dos sentimentos e é aquele momento em que tudo não importa mais. O primeiro beijo à quem se quer? Aqueles segundos de apreensão, para saber como é aquele beijo que tanto desejaste, mas no fundo de alguma forma você sabe como vai ser. Já tem uma ligação com o que vai acontecer. É fantástico sentir a felicidade passando pelo seu corpo confortando-lhe durante um abraço à pessoa que se gosta. Nada é mais significativo do que um abraço em silêncio.
Todo esse conjunto de pequenas coisinhas faz da relação inesquecível. É muito mais difícil conseguir esquecer os pequenos momentos do que as grandes aventuras. Já estou eu aqui lamentando pelo que acabou. Pensei que seria mais forte nessa hora. Ninguém pensa na hora em que tudo acaba. É demais para ser cogitado. Tudo o que sentimos vêm ao inverso. Como se um bolo de sentimentos nada confortáveis fosse jogado em cima de você de repente.

                                                       **

Caminhava pelas ruas cinzentas, cheias de suas cores marcantes e pessoas cheias de vida. Quantas pessoas passam andando, apressadas ou correndo por você a cada dia? Cada uma com um mundo de preocupações e felicidades que nunca serão sabidas. Cada cabeça pensante tem seu próprio mundo, sua própria estrutura. Passam por mim pessoas tão variadas que seria impossível conhecê-las todas.

Pense em cada pequena felicidade que cada um tem. Seria totalmente confortante saber que tudo junto poria fim às tristezas do mundo. Mas são todas individuais e internas.
Caminho sem parar e sem destino. As pessoas sempre caminham com algum propósito, sempre tem um objetivo. E eu estou a caminhar aqui sem o mínimo propósito, caminhar só por caminhar, talvez seja esse o propósito.
Ouço ao longe, buzinas, conversas, motores, máquinas funcionando, o vento eu ouço também. Tudo que queria era paz. Paz de espírito para pensar. Pensar em como retomá-la. Conquista-la de novo. Tudo o que penso gira em torno dela.
Sei que pareço chato com isso mas como entender uma vida sem a pessoa que se mais gosta? É deveras apertado no peito. Mas vou ser forte e vou continuar.
Só não sei até quando. Espero que agüente até lá. A vida sem amor não tem graça.
leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 02/07/2005
Reeditado em 27/09/2006
Código do texto: T30351
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
260 textos (273062 leituras)
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leandroDiniz