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Seqüestro

     - Alô.
     - Alô, Gertrudes?
 
     Ela sabia que quando ele a chamava de Gertrudes era coisa séria. Da última vez o Xavier tinha sido alvo de um seqüestro relâmpago. Até que o Xavier se comportou bravamente. Sangue frio. Muita calma. Calma mesmo, pois Xavier tinha facilidade em perder o controle em situações corriqueiras. Jamais poderia prever que teria um comportamento daquele que teve quando fora refém de seqüestradores relâmpagos. Mas quem pode prever alguma coisa, com certeza, quando se trata do comportamento humano? Todo homem é imprevisível. Xavier é homem. Xavier é imprevisível. Gertrudes adorava afirmar seus pensamentos utilizando silogismos, mas ela não sabia que se tratava de silogismos; pois aprendera de maneira divertida numa revista de palavras cruzadas.
     - Xavier? Não me diga que...
     - Gertrudes, me escute. Muita atenção... Temos que manter a calma, ok? Muita calma, meu amor... Calma, ok?
     - Que isso, homem? Pare com isso! Fale logo o que está acontecendo! Estou ficando nervosa, as crianças estão...
     - As crianças... Ah, as crianças! Que saudade delas!
     - Saudades? Que isso Xavier? Parece que você não vê elas um tempão! O que está acontecendo?
     - Gertrudes, tô sendo de novo seqüestrado... Não posso demorar mais... Os caras já estão perdendo a paciência comigo e... você sabe... como são estas coisas, né?
     - Eu não acredito, Xavier! Como pode…? Duas vezes no mesmo mês?
     - E você acha que eles fazem estatística com estas coisas, mulher? Eu devo parecer uma presa fácil para eles, só pode ser… Acho que nasci para ser uma vítima eterna deste jogo…
     - Você tem coragem de falar assim? Jogo? Tudo isto é um jogo? Isto é demais para mim, Xavier!
     - Calma, meu amor. Nestas horas temos que ter calma. Presta atenção mulher. Não ligue para a polícia, não fale com os parentes; apenas fique em casa quietinha e me espera, tá?
     - Simples assim? Ficar quieta e esperar? E se você… não gosto nem de falar…
 
     Nesta hora, Gertrudes dá início a uma seqüência de choro e começa a ter a verdadeira noção da situação. Não gostava nem de falar, mas não podia impedir os maus pensamentos. O pessimismo sempre foi um sentimento vivo em seu espírito. Gertrudes é pessimista. O pessimismo é um sentimento humano. Gertrudes é humana. Enigmas e silogismos visitavam sua mente. Possibilidades catastróficas faziam morada em seu coração e consumia toda a tua alma. Pensava nas crianças sem pai. Nela viúva. Mais uma viúva na família. E ela que tinha passado há pouco a idade de Balzac. Via-se fazendo companhia a sua mãe e freqüentando os diversos bingos espalhados pela Cidade Maravilhosa. Como podia ter estes pensamentos? Novamente o comportamento humano, que não segue regras, mostra como é fugidio da rotina.
     - Gertrudes, vou ter que desligar... agora... É necessário, estamos…
     - Xavier, o que está acontecendo? Eles te bateram?
     - Não… é que… o sinal está ficando fraco... o celul…trudes?
     - Xavier, não desligue, fique comigo!
     - Ger…s, fi…e ca…ma. Te… é, eu voltar…
     - O que? Eu tô te perdendo, não desligue! Não me deixe! Cadê você? Xavier! Xavier!
     - Este celular se encontra desligado ou fora de cobertura da…
 
     Agora ela sabia que deveria esperar. Esta espera era assustadora. Ele volta desta vez? Será que nunca mais verei Xavier? Todos os pensamentos possíveis que pudessem suscitar em um coração feminino, Gertrudes tinha todos. Pensamentos absurdos. Pensamentos racionais. Dos absurdos sentia vergonha de tê-los pensado e ficava remoendo os racionais. Sabia que os absurdos eram possíveis, mas pensá-los era vergonhoso. Como pensar que Xavier inventava estes seqüestros para se envolver em romances, em aventuras? Não, isto jamais! Até por que, se isto fosse verdade este romance já teria até uma certa duração considerável. Reconhecia que o romance entre os dois estava meio morno, mas isto não seria motivo para Xavier procurar aventuras na rua. Não, jamais. Não o seu Xavier, mas os outros maridos até que podiam. Dessa forma fortalecia aquilo que nela era mais frágil, ou seja, a confiança na fidelidade de seu marido. Mas afastava estes pensamentos e tentava se concentrar no problema. Rezava, esperava, chorava, rezava de novo. De tanto esperar adormecera ali mesmo, sobre a poltrona. Tivera sonhos e pesadelos. De madrugada chegara Xavier.
     - Gertrudes? Você ficou aí? Meu amor, vamos para a cama… está tudo bem agora. Os apetites mais insanos foram saciados. Este mundo! Esta gente não tem jeito! Está tudo perdido, mas…
     - Xavier, graças a Deus que você está bem… sim, vamos para a cama…
 
     E entre pensamentos absurdos e pensamentos racionais, Gertrudes escolhera os racionais, os lógicos, os silogismos que aprendera em revistas de palavras cruzadas. Optara pelo melhor. Dane-se a possibilidade do absurdo, precisamos é do sentido! O sentido é a fidelidade. Xavier é o sentido. Xavier é fiel. Poderia até estar errado este silogismo, mas fazia Gertrudes mais confiante e alegre.
Rodiney da Silva
Enviado por Rodiney da Silva em 28/11/2006
Código do texto: T304305

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Sobre o autor
Rodiney da Silva
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 46 anos
250 textos (11106 leituras)
2 e-livros (67 leituras)
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Rodiney da Silva

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