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Digressões numa padaria da Glória

     - O senhor sabe qual é o maior desejo do homem?
 
     Aquela criaturinha, quase que imperceptível, me fazia uma pergunta de cunho filosófico. Talvez. Tenho a mania de achar que tudo é motivo para especulações filosóficas. Mas como achar que aquela criança poderia estar tentando um diálogo filosófico. E por que não? Estava explícito na pergunta. Desejo… Homem… O que precisamos mais? Qual o maior desejo do homem? Veio à minha mente várias conjeturas gregas. Pensei em mim mesmo. Pensei em mulher. Em felicidade. Em dinheiro. Em prazer. Pude ver o próprio Clitofonte argüindo Sócrates sobre o desejo. Olhava pela padaria e não descobria sequer um Glauco, mas aquela criaturinha poderia me tirar da rotina. Poderia dar movimentos menos ociosos a uma mente cansada de tolices cotidianas. Uma chance de me transcender às mentiras dos jornais, às mentiras da mídia, às mentiras de meus contemporâneos e às mentiras das mentes pachorrentas dos habitantes desta mui amada terra. Pachorrento. Havia achado esta palavra recentemente para qualificar nossa inteligência. Nossa inteligência é lenta, vagarosa, atrasada, mui paciente. Demoramos muito a chegar no cerne de qualquer questão. E demoramos mesmo quando o cerne é algo que detestamos.
 
     Esta pergunta fora me feita cerca de dois dias. Estava numa padaria da Rua da Glória. Uma criança, que me não lembro mais a idade, mas uma criança que não havia chegado à idade de Sartre. Bom seria se todos não chegassem à idade de Sartre. Quem sabe assim poderia manter-se íntegro? Como uma criança poderia criar uma questão onde o centro da problemática está justamente no desejo? Qual o desejo de uma criança? Mesmo que o grande Dostoiévski acreditasse na capacidade ilimitada das crianças, para mim era demais. Até por que, Dostoiévski falava das crianças russas do século 19 e não das crianças tupiniquins do século 21. Nossas crianças não têm tantas experiências quanto tinham as crianças dostoievskaias, mas nossas crianças têm mais desejos que as russinhas do profeta ortodoxo. Havia ali um grande conflito existencial: desejo e experiência.
   
     Nas minhas divagações havia esquecido brevemente a criaturinha que permanecia ali fixa, esperando. Ela esperava! Impressionante, ela esperava uma resposta, pois havia feito uma pergunta. Talvez achara que eu seria professor. Ou apenas um homem de letras, pois tenho uma mania de sempre levar comigo um livrinho. Para as filas. Sim, as filas. E ela ali, perfilada, qual uma sentinela. Já me sentia um pouco incomodado. Mas não podia dar um sinal falho, de fraqueza. Devia ser forte, pois aquela criança esperava uma resposta segura, coerente, com contexto. Este último sempre foi minha dificuldade, contexto. O mesmo anjo torto me apareceu e sua voz medonha até hoje me persegue: sê gauche! Decidi iniciar minha resposta, enfim.
 
     - Meu amiguinho, o maior desejo do homem é a imortalidade. Toda a vontade humana se resume neste desejo: ser imortal. Ser para sempre. Não deixar de ser. Mas como isso é uma impossibilidade, o homem criou algo que lhe é indelével. Sabe o quê? O espírito. A mente. A alma. Nossa essência indestrutível. O corpo acabará, mas o espírito do homem permanecerá. O homem não deseja a imortalidade de fardão, não deseja ser imortal pela suas obras, ou pela sua geração, mas deseja ser realmente imortal, inacabável, sem fim, forever. O que adianta vestir fardão se jamais conseguirá impedir o seu fim? Esta imortalidade não satisfaz o ser.
 
     Agora quem olhava assustado era a criança. Podia ver naquele olhar um misto de admiração e ironia. Sentia-me de novo fora de contexto. Olhei melhor para aquela criança. Percebi que estava descalça, sem camisa. O rosto imundo, as unhas pareciam ter brincado com carvão. Os cabelos pareciam um emaranhado de palha de aço. Sentia seu fedor. Era nojento. Ele percebeu minha mudança de comportamento. Permanecia admirado com tudo aquilo. Até que enfim, ele arrisca uma nova pergunta, agora menos filosófica que a outra:
 
     - Moço, pode me pagar um lanche?
Rodiney da Silva
Enviado por Rodiney da Silva em 28/11/2006
Código do texto: T304307

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Sobre o autor
Rodiney da Silva
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 46 anos
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Rodiney da Silva

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