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CACIMBA SECA -2


2

Domingos de Afonseca e Azevedo foi o desbravador da caatinga e fundador da propriedade em terrenos arrendados à Casa da Torre, depois comprados.
O pai de Domingos de Afonseca chamar-se-ia Antônio de Afonseca e Azevedo, essa a noticia vaga. Conhecido mesmo, pessoa em registro, foi Domingos de Afonseca e Azevedo, que se firmou como Domingos de Afonseca, nome repetido pelas gerações seguintes até a atual. Para trás, tudo se desencontra e se perde em mais de 150 anos sem anotação. Antonio de Afonseca teria pertencido à terceira geração dos vanguardeiros criadores de gado. Limitou-se, como os primeiros, às terras de beira-rio, conhecidas dos indígenas, disputadas a estes pela Casa da Torre. Fora vaqueiro de perneira e gibão.
Na aldeia dos Rodelas e no sentido do rio até muito longe, para cima e para baixo, viviam os índios pescadores e lavradores das terras de vazante. Com sede na Aldeia dos Rodela, catequizando-os à religião e à civilização, os padres capuchinhos aí montaram um Convento, construíram, a Capela e o Cemitério. Os brancos colonizadores chegaram com os capuchinhos para possuir a terra. E a luta se estabeleceu para dominar o nativo, pô-lo escravo, explorá-lo em nome da civilização.
Os padres - se queriam a alma e não concordavam com o excesso, eram concordes à ocupação da terra em nome de El-Rei. E mais que quisessem e tentassem evitar o abuso, curvavam-se à civilização, considerando que a alma devia ser livre do estado selvagem a todo custo. Andavam ao lado dos colonizadores. Se mais não foram para os indígenas, teriam sido o bálsamo de suas feridas, tanto as morais quanto as materiais.
Aí, deverá ter nascido, na aldeia ou nas proximidades, Domingos de Afonseca. A beira-rio acumulava gente demais para os seus planos. Moço, magote de gado que lhe ficara da herança paterna, porção de escravos, pensou em um mundo seu, novo, ainda inexplorado. Não tinha terra própria. Todas as léguas sabidas do São Francisco ao Itapicuru, eram legalmente da Casa da Torre, em sesmaria que lhe fora concedida pelos representantes da Coroa Portuguesa. A posse dos nativos não se respeitava. Era a lei.
Domingos de Afonseca entrou caatinga adentro, por terras jamais conhecidas dos índios pescadores e aonde somente se aventurava de raro em raro algum selvagem caçador, afoito entre os mais afoitos. Nem os índios cuidavam regularmente da caça, tendo quase só a vivência da pescaria farta e fácil e da escassa lavoura, nem careciam de ir longe nas eventuais caçadas. Por isto, as terras para o centro não eram ocupadas. Nem conhecidas, quase.
Criara-se vaqueiro, todo o tempo montado no lombo de um cavalo de campo. Não se aprofundava muito para o centro, porque o criatório primeiro, o do pai, de que ele cuidava e o seu, dos irmãos, sitiava-se pelas beira do rio.
Ainda vivo o pai, teve a idéia de penetrar as caatingas para erguer a sua propriedade. Com o plano em mente, vez por outra, depois de cuidar do gado, rumava para o centro, explorando-o vagarosamente.  Outras vezes, porque gostava de caça, afundava naquelas brenhas, a pé, rifle nas costas, machado na mão. Fizera amizade com um certo índio caçador, que o orientava nas caatingas. Também um escravo lhe fazia companhia nas caçadas. Antes de o pai falecer, já conhecia um pouco o raso arenoso para o centro. Nada de água, sinal nenhum, até umas três léguas para além do rio na direção da Aldeia. Pastagem boa, água não.
Ninguém, se aventurara ainda á caatinga. Ele foi. Machado, facões, alavancas, rifles a tiracolo. Alguns escravos e o índio-guia. Jumentos transportando água e mantimentos para meses de aventura. Conhecia de passagem aqueles campos, namorando-os de longe. Porém não os explorara em definitivo. Agora sim, ia para isso. Queria penetrar bem para dentro. Até onde pudessem as suas forças de moço aventureiro e destemido, afeito à dura vida do trabalho pesado.
Procurava água no catingão bruto, distante do rio, onde a pastagem natural era excelente. Cinco sois passados do inicio da viagem, abrindo veredas na caatinga densa, parou na baixada que lhe pareceu conforme o seu desejo de chão bom em espaço bastante. A baixada, manchona ampla e verde, árvores frondosas em confronto com as da vizinhança, uma beleza. Quixabeira bastante, muito juazeiro, caraíba, faveleira que não se acabava nunca!
Buscou, baixa adentro e afora, acima e abaixo, o ponto de minação. Na superfície, não havia água. Devia estar debaixo do chão. Em algum lugar, devia aflorar. De onde viria a umidade para aquele arvoredo? Da chuva só, não, porque na baixa a arborização era muito mais verde do que para os lados, no areião circundante. Ainda que a baixa fosse o desaguadouro da vastidão toda, água de chuva é passageira e não sustenta umidade que possa estabelecer uma diferença tão grande no verdor da vegetação. Verdade, que na baixa era o terreno de massapê, humoso e fértil, enquanto para os lados, só o areião branco de muitas léguas.
Era tempo de seca, sol inclemente, o arvoredo para um lado e para outro, verdolengo. Os arbustos, amarelos. Na baixa, não! Tudo verde. Devia aflorar água em algum lugar. Se não, onde beberiam os bichos, caça de toda diversidade?
Domingos de Afonseca deu alto à caravana e acampou. Andou, observou, pesquisou. Veado pulando para todo canto toda hora. Gato do miúdo, um castigo. Porco do mato. E onça também. Magotes de emas, transando de cá para lá, indo e vindo, pareciam em desfile para exibir a beleza. Seriemas, o cantorio do dia inteiro. E pomba verdadeira em diluvio. Um encanto!
De fato, encantou-se o espirito aventureiro de Domingos de Afonseca com aquela beleza sem conta, maravilha sertaneja para a contemplação rústica. E ele ia contando mentalmente os milhares de reses que poderia sitiar no campo amplo e deserto, sozinho, ali, sem índios que o hostilizassem, porque estes ficavam à beira do rio, onde a terra era sua de ocupação milenar; sem malfeitores que o importunassem, porque ninguém viria tão longe sem razão especial.
Aqui, a terra era sem dono na ocupação. Dono legal, Garcia D'Ávila, que não viria ocupá-la, dispondo-se a colonizar pelo arrendamento com a promessa de venda no futuro. Estava escolhido o seu mundo. Bastava aquele. A questão consistia em descobrir água. Encontrando esta, era constituir família e habitar a terra. Muitos filhos para ajudar no seu desbravamento e tomarem-na como sua no futuro.
Possuía uns poucos escravos, suficientes para representar o braço trabalhador. Mais de cinqüenta novilhotas nos pastos da beira-rio, que bastariam para em pouco povoar de gado os novos campos. No fim do ano, seriam 50 bezerros, mais 50 no ano seguinte, outros 50... Depois, as crias criando e as crias das crias. Era bastante!
Dentro de dez anos teria gado para encher os descampados e não acabar mais nunca. Encontrava-se na idade dos 20. Ao atingir os 70... Poderia alcançar os 80, poderia sim. Aos 70, a família estaria grande e aclimatada, a terra dominada, a propriedade construída para a posteridade.
Domingos de Afonseca sonhava  o sonho de grandeza de todo homem dinâmico na sua idade, de toda criatura ambiciosa aos 20 anos. Muito para longe, certamente, quem descendesse de seu sangue, pelo progresso dos tempos deveria ser a família nobre da qual sairiam os reis e generais, os mezinheiros e os sacerdotes, os donos daquelas paragens — muito escravo, gado sem conta e bode para fazer festa à panela do cativo trabalhador. Muitas moedas de ouro e prata corresponderiam à venda da produção. A fartura para os que viessem de seu sangue pioneiro.
Nessas meditações, andava de um lado para outro, buscando descobrir onde estaria a água confirmadora do oásis. Tardinha um bando de emas seguia preguiçosamente por uma pisada aberta entre as árvores - curva aqui, curva ali... E teve a idéia:
Vou acompanhar esse magote de emas. Nessa hora da tarde devem ir para a fonte.
As emas iam para a fonte. Faziam paradas repentinas, esticavam o pescoço, sacudiam a cabeça, baixavam-na e pareciam ciscar alguma coisa no chão. Abriam as asas, fechavam-nas, punham-se a correr o bando todo, paravam logo ali. Continuavam na caminhada. Hora de seguir para a fonte, papo cheio, as emas se divertiam na caminhada. Os animais trabalham para viver, como o homem; têm problemas, como este; divertem-se também. E são felizes sempre, porque trabalham brincando e a importância da vida está no agora. Era o agora das emas. Seguiam para a fonte, onde cumpririam a última obrigação do dia. Ou da vida, elas não alcançavam nada. Esse, o pensamento do pioneiro.
Seguindo o bando de longe, cuidadosamente, para não ser pressentido, em pouco descobriu a fonte. Estava ali, uma fontezinha, quase nada.
A rocha de arenito à flor da terra, um pequeno caldeirão na pedra, a água lá no fundo. E a descida suave para o caldeirão, rampa trabalhada pelas pisadas contínuas dos bichos todos da redondeza, onças e emas, sagui pequenino e porco do mato. Pronto. Estava descoberta a água. Agora, era cuidar em aproveitar a fonte, melhorar, ampliar, verificar a sua capacidade. E sitiar, se a água fosse suficiente aos seus planos de criação extensiva.
Olhando o caldeirão, aquela "aguinha" de nada no deserto, Domingos de Afonseca matutava nos mistérios insondáveis, no poder da natureza - a bondade e a grandeza de Deus, Seu cuidado para criar a vida.
Sem água, nada é possível, nada pode existir. Sem essa fontezinha, não haveria aqui o bicho do mato e esse mundão seria caatinga somente, sem vida nenhuma. Deus grande, criando os seus animais, pôs a água neste recanto, para que eles viessem de longe, de toda a parte e se saciassem. E a fonte, como parece trabalhada de propósito para facilitar a descida e a subida dos bichinhos! Se a gente não soubesse que nunca viera ninguém neste descampado, poderia pensar que um homem carinhoso abriu a fonte dos animais. Foi Deus que a fez assim, melhor do que faria o homem.
Lembrou-lhe indagar seguramente a distância em que se encontrava da aldeia. Recontou os dias de viagem, fez cálculos reduzindo o tempo perdido nas curvas, idas e vindas no mato sem caminho, cortando ramos a facão para abrir a vereda. Consultou o índio-guia e o escravo, companheiros de andanças anteriores e deduziu que estaria a uma 3 a 4 léguas do São Francisco em linha reta para a Aldeia dos Rodelas.
Dia seguinte, botou os escravos de cavadores e alavancas talhando os barrancos do caldeirão, afundando-o, alargando, sondando para descobrir minação mais farta. Mandou cortar caroá e armou bangüês para a remoção da terra cavada.
Porção de dias naquele trabalho. O acampamento se fez duradouro. Enquanto os cativos cavavam o chão, afundando a cacimba e levantando a parede do tanque ao lado, ele andava com o índio e o seu preto amigo auscultado as caatingas. Perto, meio longe, mais distante.
Tudo era grandeza e importância. Tudo era bom. Para os fundos, no planalto raso constituído de areião branco, a vegetação baixa representava boa rama para o gado. As árvores frondosas eram o umbuzeiro e a umburana, ramagem da melhor para o boi e o bode, em quantidade bastante a muitos séculos de consumo. E as árvores menores, entrelaçadas, muitas vezes só dando passagem a poder do facão, catingueira rasteira, catinga de porco, mororó e camaratu, marmeleiro bravo e dezenas de outras que nem conhecia. Mandacaru, facheiro, xiquexique, macambira e caroá para não se acabarem no correr de milênios, por mais gastos que fossem. Sinal de água, nenhum, afora a fonte descoberta na baixada.
Na amplitude da baixa, andou subindo e descendo, observando, descobrindo coisas, vendo as suas possibilidades.
No primeiro dia, subiu. A baixa não era larga, era comprida. Vinha de longe, do alto areião onde alcançava o planalto e confundindo-se com este desaparecia. Aí, o chão se inclinava em dois sentidos, distribuindo as águas. Para cá, os seus campos; para lá, os de quem viesse depois dele.
Retornou da cabeceira indo e vindo em ziguezague para conhecer a baixa no largo. Aqui, estreitava-se; ampliava-se, adiante. Água aflorando, não encontrou outra. De volta ao acampamento, reolhou a fonte e mediu o trabalho que ia adiantado, os escravos suando no bangüê.
Dia seguinte, foi na direção oposta. Para este lado desciam as águas. A baixa, às vezes mais larga, às vezes estreitando-se do mesmo que para a cabeceira. No centro, desaguadouro das chuvas periódicas, o leito esgotado de um pequeno riacho temporário, que se alargava à proporção que descia.
 Foi muito longe, até onde a baixada curvando-se toma o sentindo do rio. Calculou que o riacho-seco desembocaria muito acima da Aldeia. Léguas de extensão e todas de bom massapê. Sempre a mesma vegetação, aqui frondosa e verde, nos laterais rasteira e verdolenga, embora densa. O areião cingente era o mesmo, sem diferença até certos meios. Ia diminuindo aos poucos, para transformar-se, adiante, em solo pedregoso no qual sobressaia a argila vermelha, aparentemente salina. Convenceu-se de que água, só no lugar conhecido.
Voltou. Tardinha. Caminhava vagarosamente, seguido do índio e o negro. Cabeça baixa, andando e pensando na grandeza dos campos descobertos.
Súbito, o índio saltou na sua frente, calado, tacape na mão direita, fixando um ponto adiante, e deslizou para um lado.
Domingos de Afonseca levou um susto e ergueu a cabeça. Bem aí, pertinho, uma onça com as patas fincadas sobre a presa recente, olhos em cima dele. Teve tempo, mal, de negacear o corpo e mudar de posição. A onça pulou bem no lugar onde estivera. O índio, encostado, mediu-a com decisão e fez um grunhido de porco do mato atraindo-lhe a atenção para si. Fração de segundo. Tempo de bote armado o tacape em punho, confronto de audácia, ataque e defesa. Duas feras mediam-se.
Afastando-se rápido Domingos de Afonseca apontou o rifle. O índio fez sinal que não. Ele ficou, rifle estendido, na expectativa. O nativo desviou-se e a onça deu o pulo errado.  O índio desceu o tacape, ligeiro mais que a onça. Pancada firme, em cima do cachaço. Uma pancada só e a onça estava morta. Mais uma para confirmar. O negro puxou a faca afiada, sangrou e tirou o couro. Cortou um pedaço de carne escolhida. Pô-los nas costas e continuaram a jornada.
De noite no acampamento, fogo aceso, montão de lenha e a labareda subindo alto. Rede armada nos galhos da árvore, lá em riba, Domingos de Afonseca repousa. O índio e os negros, estirados no chão embaixo e do lado da rede, guardiões do repouso do senhor seu dono. À distância, o urro da onça, o ronco do porco, o miado do gato. E um sopro de brisa na pele dos homens, espertando-lhes o sono. De vez em quando um escravo chega lenha ao fogo e volta a deitar-se. Tarde conseguem dormir. Acordam de madrugadinha e os escravos vão para o bangüê.
Cedo, Domingos De Afonseca chamou o índio e o negro seus companheiros e seguiu com estes no sentido da aldeia, deixando recomendadas aos escravos as tarefas dos dias de ausência. Ia buscar provisões e levar notícias do achado e do trabalho. Voltaria em cima do rastro.
De volta, constatou que a minação aumentava. As tarefas foram bem executadas. A cacimba ia funda e a parede do tanque bastante alta. Instigou os escravos, apressou o serviço.
Prontos a cacimba e o tanque, cercou um bom pedaço de terra, construiu um curral de emergência e desmatou o chão para a morada. Fez cortar madeira e levantar uma casa de taipa, grande bastante para um começo. Ordenou onde se faria a senzala. Tudo em condições de obra pioneira, para melhorar mais tarde.
Antes de queimar as telhas, o céu abriu-se em chuva. Domingos de Afonseca vendo a chuva cair, metido debaixo das árvores, a roupa ensopada, sorria satisfeito. Ia ser um prejuizão em tempo, pensou — quase todo o serviço da casa perdido. Mas o tanque ia encher.
Era saber se a parede nova agüentaria o aguaceiro pesado. Agüentou. Depois da chuva foi ver; uma beleza, a água represada. Represona que tomava a baixa a bem meio quilômetro. Colosso, aquilo, para quem começava!
E o sapo chiando, coaxando, cantando alto, milagre de Deus, que ninguém sabe de onde vem tanto sapo naquele mundão, nem bem cai a chuva!...
Não esperou que se reerguesse a casa quase caída com a chuva. Pegou o pessoal quase todo e rumou para a Aldeia dos Rodelas. Foi o tempo de juntar o gado — boi, bode, tudo, e tangê-lo no caminho mal aberto. Trouxe toda a bagagem que pôde. A mudança era definitiva. No entretempo, uns poucos escravos que ficaram, iam recuperando a casa que foi encontrada pronta.
Aí, a fazenda Rapador, como foi descoberto o chão e erguida a propriedade. Depois a fazenda cresceu. Domingos de Afonseca casou-se, uma, duas, três vezes. Teve muitos filhos que o ajudaram a consolidar a propriedade, para serem, na distância do tempo os donos de tudo, por si, pelos filhos e os filhos dos filhos.
João Justiniano
Enviado por João Justiniano em 30/11/2006
Código do texto: T306056

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Sobre o autor
João Justiniano
Salvador - Bahia - Brasil, 96 anos
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João Justiniano