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Boa noite Cinderela

Muitos são os atos que uma pessoa pratica para ganhar dinheiro. Na terra da garoa não é diferente.
Paulo é empresário, dono de duas grandes lanchonetes. Uma fica no centro de São Paulo e a outra no metrô Itaquera. Ambas com boa movimentação de clientes, fato que o deixa muito satisfeito e às vezes com dor de cabeça.
Ele é solteiro. Atualmente anda alterado demais, pois trabalhar com o público exige muita paciência, além do que, havia três meses que duas funcionárias entraram na justiça contra ele, pois Paulo, ao perceber a gravidez das meninas, despediu-as.
O processo está caminhando, lento, mas está.
Hoje é sexta-feira, e ele tinha acabado de sair da primeira audiência. Na porta do Fórum Paulo ainda ouviu uma das jovens dizer:
- Espero que você comece a perder todo o seu dinheiro, bicho ganancioso de uma figa.
Fez o sinal da cruz afastando aquele rogo de praga e seguiu caminho.
Passou na lanchonete central, recolheu o faturamento do dia e partiu com destino ao bairro da Patriarca, onde mora.
Na avenida Radial Leste, o trânsito está no rastro da tartaruga. O rádio do carro de Paulo anuncia 54 quilômetros de congestionamento em todo o centro de São Paulo. O som que predomina é o das buzinas que ecoam dos carros e se confundem no ar, dando o tom da cidade grande.
O ar poluído e o cheiro de carniça que circula por ali contribuem para que o ambiente se torne insuportável.
É início de noite, e a temperatura atinge vinte e nove graus.
Paulo participa do barulho apertando insistentemente a mão no volante. O ar condicionado não dá conta e o suor escorre em seu corpo. Xingos e murmúrios são colocados para fora.  É o nervosismo e a impaciência que toma conta de Paulo. Ele precisa de um calmante. Calmante que no mínimo três vezes por mês o empresário vai atrás.
Aproveitou a brecha, movimentou o volante e entrou á direita pisando fundo, passando da primeira para a segunda marcha e aí por diante, fugindo do trânsito, adiando sua chegada em casa e indo rumo ao paraíso que há, entre as pernas de uma mulher.
Vinte minutos depois, nas redondezas do Parque do Carmo, ele escolhe o seu calmante entre as mulheres da calçada.
Estacionou no acostamento e sem desligar o carro negociou um programa.
No quarto do motel, ele respira ofegante com o sexo oral que a prostituta pratica nele. Ela que tem cabelos cor de fogo, corpo cheio de curvas e uma tatuagem na barriga. Justo ela que é conhecida no meio das suas amigas de trabalho por deixar o seu cliente nu, literariamente falando. Justo ela que depois de fazer o programa com um cliente abonado, desaparecia por meses, aplicando em cima de outros clientes noutros lugares.
Justo ela Seu Paulo?
A danada já havia estudado a nova vítima. Na hora em que negociavam, ela prestou atenção no carro, no celular e na roupa do empresário. Percebeu também o pacote de dinheiro na hora em que ele pagou a entrada do motel.
“Hora de sumir desse ponto” – Pensou rindo.
Ela é a isca que o peixe fisgou, e como sempre o peixe acaba levando a pior.
Depois de uns dez minutos de sobe-e-desce, Paulo obteve o seu orgasmo e deu um suspiro longo.
A puta tratou logo de agilizar o seu negócio. Na verdade iria começar a trabalhar:
- Nossa, que gostoso! Adorei. Quer casar comigo?
Paulo sorriu. Ela continuou:
- Essa merece um drinque.
Após pedir a bebida, virou Paulo de costas com o pretexto de fazer uma massagem:
- Você está tão tenso.
- Minha vida é que me deixa assim. – Disse ele.
- Relaxa, hoje é sexta-feira.
A bebida foi recebida por ela que, aproveitando o relaxamento de Paulo, depositou no copo dele algumas gotas de um líquido transparente como água.
Brindaram.
Ele bebeu num só gole e deitou novamente pedindo as mãos dela em suas costas.
Paulo relaxa sentindo a massagem. Parece estar nas nuvens... flutuando, flutuando.
Esqueceu de tudo; o caso que caminha na justiça, a praga de sua ex-funcionária, o trânsito, as contas a pagar, os contratos futuros, os clientes, os fornecedores e tudo mais que o preocupava. Agora está curtindo a sensação que corre pelo seu corpo, sente um prazer estranho, um formigamento gostoso nos seus pés que vai subindo devagarzinho, bem devagarzinho até chegar à cabeça.
O empresário nunca sentira isso antes, mas deixou-se dominar.
“Provavelmente é o efeito do sexo” – Pensou ele em grande satisfação.
Aos poucos suas pálpebras foram ficando pesadas, sem resistência... fechando, fechando... dormiu.
A puta se apossou da carteira, do relógio, do celular e da chave do carro. E antes de sair do quarto, beijou a boca de Paulo como forma de agradecimento, e ainda disse:
- Boa noite otário.
E ele dormia, indiferente a tudo. Não dormia um sono de pedra, apenas um sono de cinderela.
Sacolinha
Enviado por Sacolinha em 10/12/2006
Código do texto: T314701
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Sobre o autor
Sacolinha
Suzano - São Paulo - Brasil, 33 anos
20 textos (2991 leituras)
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