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FARINHA DA BOA E O MENSALÃO!



Era uma noite de sexta feira. Tudo brilhava com histeria. O treme-treme dos luminosos era convidativo. Morena e Jordana, duas amigas perdidas na noite, circulando, a procura de alguma atividade.
- Dá uma parada naquele bar – disse Morena, apontando com o dedo indicador.
-“Bar Baridade”, que nome mais original.
- O ambiente parece de primeira.
Jordana tragou fundo o cigarro e jogou a ponta fora.
- Ôrra, já percebeu que o cigarro fica melhor quando está no final?– perguntou Jordana.
- Não é que fica melhor, é o vício que clama por mais nicotina. O bar, vai passar ...passou. Disse para você encostar.
- Não esquenta a cuca, dou a volta.
O Bar Baridade era um bar com fina estampa, anos de tradição no mercado. Famoso pelo ambiente requintado. Na entrada, várias mesas perfiladas com vista para a delirante cascata, onde os peixes eram visíveis. No segundo ambiente era a vez do piano bar e no terceiro ambiente, shows com cantores de jazz.
- Vai, encosta logo !
- Não vem com comediazinha! Tá ligada que eu não sou otária. Se folgar, eu vou embora.
- Tá ,desculpa, stressadinha!
- Olha lá, que gatos !
            Quando entraram no bar, o garçom sorridente recebeu-as demonstrando intimidade.
- Olá, como vão? Fiquem a vontade. Fumantes?
- Engolimos.
- Então vou arrumar uma mesa da hora. Sigam-me.
O garçom era uma figura, calvo, baixo e gordo.
Jordana acendeu outro cigarro.
- Uísque, duplo – pediu Jordana.
- E a senhorita? Perguntou o garçom olhando pra Morena.
- Suco de laranja.
- Que é isso, ficou louca? Onde já se viu pedir suco! – gritou Jordana.
O garçom não se agüentava, queria falar alguma gracinha.
- Ela tem razão. Pede uma bebida forte, se ficar careta não vira nada com a rapaziada!!!
- Quem te chamou na conversa, careca? Manda uma Vodka, sem gelo.
- Também não precisa forçar, né ! – falou Jordana.
- Se é para beber, vamos beber.
- Beber não é morrer.
O Barbaridade era um barzinho descolado. Freqüentado por pessoas bonitas e finamente decorado. No palco do primeiro piso, um conjunto cantava Blues. As mesas invadiam a calçada. Estava totalmente apinhado.
- Aqui estão as bebidas das lindas moças! – disse o sorridente garçom.
Jordana engoliu o uísque numa só talagada e comentou com Morena, que ainda não havia provado da Vodka:
- Saidinho esse garçom, né, amiga?
- Já percebeu que todo garçom baixinho, gordo e careca, é sempre risonho e solícito?
- Olha aquele cara loiro da mesa da frente! Disse Jordana.
-Que é que ele tem?
-Nossa! – respondeu Jordana com rispidez – Apenas achei o cara interessante.
Morena ingeriu meio copo de Vodka. Sentiu a cabeça girar. Raramente bebia, e quando o fazia, necessitava alimentar-se, não era tolerante a bebida.
-Vamos pedir um tira-gosto?
- Demorou! – respondeu Jordana.
O garçom prontamente atendeu ao chamado.
- O que vão pedir, donzelas?
- Deus do Céu! –exclamou Jordana – Estou me sentindo uma santa...!
-Quais as opções de tira gosto?
- Picanha, coelho assado, faisão à Índia...
- Pode parar! – gritou Jordana – Não estamos na França, careca. Tem  algo mais brasileiro, com preço em real?
- Ah, bom! – suspirou o garçom - Que tal uma buchada temperadíssima?
- Pode ser, manda – ordenou Jordana.
- Ela não diz nada, é robô!? – perguntou o garçom, olhando para Morena e achando graça da própria piada.
- Sou muda! – respondeu Morena – Puxei para a safada de sua mãe.
- Amiga, tá tudo dominado..ah ah ah  - caçoou Jordana!
O garçom sentiu que estava em desvantagem. Franziu a testa e perguntou?
- Querem muita farinha?
- Não. Temos muita farinha. – respondeu Jordana.
- Da boa?
- Da lata.
- Muito bom, muito bom.
No palco, outro cantor interpretava Ray Charles. Jordana acendeu outro cigarro e baforou, sentindo a nicotina preencher o sofrimento amoroso.
- Jordana, reparou que está tudo mundo olhando pra gente?
- A beleza também é sinônimo de status, minha querida.
- To ficando meio acanhada. Muito assédio, dá pra desconfiar.
Meia hora depois o garçom cochichou no ouvido de Jordana:
- O negócio ta indo bem.
- Que negócio é esse, Careca?
- Gosto desse seu jeito, discreta e inteligente. Segura ai, que depois tem mais. – disse o garçom entregando um tufo de notas para Jordana, em seguida saiu.
Morena estava de boca aberta e perguntou:
- Estamos fazendo tanto sucesso assim?
- Acho que nos confundiram com garotas de programa, estão pagando até adiantado.
- Hum...Não to gostando nada disso.
Jordana e Morena estavam conversando, agora com fundo musical de Billie Holiday, quando o garçom cochichou mais uma vez:
- Cadê o barato?
- Ta louco, baixote, que barato é este?
Neste momento a polícia invadiu o recinto e foi diretamente até a mesa onde Jordana e Morena discutiam com o garçom.
- Estão presas, vocês duas!!!
- Meus Deus - gritou Morena – acho que estou sonhando!!! Seu policial, estamos presas porque?
- Tráfico de entorpecentes?
- Tráfico? – perguntou Jordana.
- É, senhorita. E não se faça de boba. Vocês mandaram o garçom vender farinha da lata. Em outras palavras: Cocaína. E para azar da sua quadrilha, ele ofereceu a um policial que estava a paisana.
Jordana e Morena, agora entendiam tudo. Disseram ao garçom que tinham farinha e não precisavam usar na buchada!
As moças foram revistadas por uma policial feminina, mas nada foi encontrado. Jordana explicou ao Delegado que tinha farinha sim, mas era de mandioca. As desculpas foram aceitas e o garçom preso por excitação ao tráfico.
Quando já estavam no carro, Morena caiu no riso e comentou com Jordana:
- Menina, que história mais engraçada! Saímos para dar uma voltinha e quase fomos presas por tráfico. Ninguém merece!!!
- Ainda bem que o policial é lerdo. Olha aqui – disse Jordana tirando a peruca e mostrando várias trouxinhas de cocaína.
- Você é louca, menina!!!
- Consegui fazer a entrega e ainda fiquei com um bagulhinho para distrair.
A noite era agradável. Uma brisa confortante vinha amenizar. Morena assentiu para a idéia e nos dias seguintes foram a vários barzinhos, com a mesma missão. Um mês depois a telhado ruiu, a casa caiu e cana chegou, o barato ficou louco.
Foram presas em flagrante, algemadas e conduzidas ao distrito policial. Jordana chamou o delegado para uma conversa particular, em seguida voltou sem as algemas.
- Vamos, amiga?
Morena não entendera nada. Num minuto, presa, segundos depois, libertada. Quando estavam trafegando, Morena perguntou:
- Jordana, o que disse para convencer o delegado a nos soltar.
- Bobagem! – respondeu Jordana abanando a mão.
- Como bobagem, então eu sou alguma louca?
- Nada demais. Apenas mencionei para o delegado que eu sabia de umas coisinhas do “mensalão” do governo, do escândalo dos correios e também ouvira falar na corrupção dentro da polícia e que meu tio era deputado federal, um tal de Roberto. E não é que o cara me deu até um beijinho no rosto e mudou de opinião!? Como entender as autoridades!!!
- Melhor assim, amiga. Vamos tomar um chopinho?
- Só se for agora!
          - Que tal uma chegadinha naquele barzinho onde o careca trabalha.
- Ele não está preso?
- Comentei sobre ele com o delegado, já deve estar solto. Entendeu?
- Entendi.
- Vamos dar uma chegada no barzinho?
- Só pra beber e comer buchada?
- Se rolar... Até algo mais!!!
- E o crime compensa?
- Digamos que é trabalhoso...ah ah ah!
- Bar Baridade, aqui vamos nós...
Era um dia encardido, as nuvens negras cobriam o céu. Um pardal solitário sobrevoava em busca de comida. Fazia frio em todo o Brasil, apenas Brasília estava em erupção.
Paulo Izael
Enviado por Paulo Izael em 06/07/2005
Código do texto: T31750
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Sobre o autor
Paulo Izael
São Paulo - São Paulo - Brasil
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