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_Chico_

Chico!!!
 
Chico era considerado a pessoa mais burra que existia na face da terra.Tudo pra ele era complicado e difícil de entender.Tudo tinha que ser repetido milhões de vezes pra ele,. num rasgo de mínima inteligência, acenar vislumbres de compreensão. Chico era meu primo. Cruzes!!! Nem posso empurar isso pra debaixo do tapete, porque pega mal. muito mal. Era só uma exceção à  regra, felizmente. Não que com isso eu me desmerecesse ou me machucasse, aceitando, apenas me intrigava. Como é que há pessoas, que sem serem  retardadas, conseguem ser tão tapadas. Impossível crer.Mas o Chico era assim. Mas, com a bondade no seu coração, a vontade de melhorar que crescia nele,  me fazia ter pena, muita pena
Chico veio do interior do Ceará para o Rio de Janeiro e se estabeleceu na minha casa. Meu pai, irmão da mãe dele, um homem recheado de cultura, poliglota, escritor, jornalista, artista , poeta  ficava, horas a fio, só observando tanto a burrice do Chico que se alarmava e era motivo para ele dar seus conselhos: "Meus filhos, jamais sejam feito o Chico, ele é uma aberração da natureza". Estudem muito, se arrebentem de tanto estudar para não parecerem assim, com ele. Era a lenga-lenga diária lá de casa. Quantas vezes meu pai matriculava o Chico no colégio, mais o Chico fugia e ficava batendo pernas na rua . Tantas fez que não se aguentou mais e se deixou pra lá. Isso ele já era quase um rapaz, mas irresponsável até a medula.  Meu pai, então arranjou um emprego para ele que consistia em não precisar do cérerebro para poder trabalhar. E assim o Chico começou sua outra vida, fazendo uma coisa útil, ser gente.Um dia, ele já empregado, chega pra meu pai e diz: "Tio Mocinho, eu quero dizer uma coisa pro senhor: Eu até agora não sei o que é sofrer. Quero sofrer como todo mundo e ninguém me deixa." Meu pai, escandalizado, disse:"O que?" Você sabe o que está dizendo? Ah! Quer sofrer, não é? Então passa a mão nas suas coisas e começa a sofrer agora. Cai fora de perto de mim". E lá se foi Chico, com a trouxa debaixo do braço, feliz da vida começar a aprender a sofrer.Impossivel acreditar nisso, mas aconteceu.Anos mais tarde, casou-se com uma mulher mais burra que ele. Imagina só como a filha deles era e é ainda...Eu acho que existem muitos Chicos por aí afora. Quando era bem mais novo, quase recém chegado do Ceará, aconteceu uma coisa: inacreditável
Minha mãe estava querendo fazer um doce, aliás ela fazia cada um mais delicioso que o outro, me lembro bem disso...
Chegou pro Chico e mandou ele comprar cravo e canela na venda. Falava-se assim naquela época. Não demora que preciso pra fazer esse doce. E lá se foi o Chico comprar o que tinha sido pedido. Os minutos passavam, os segundos se atropelavam e as horas avançavam. Nada do Chico aparecer. A manhã virou tarde e a noite se avizinhava. Minha mãe desesperada, preocupada, sem saber o que fazer. Já ia ligar pra  meu pai, avisar a polícia, sabia lá o que era pra ser feito, já se considerando culpada pelo sumiço do Chico. Lembro muito bem disso, estávamos alarmados, pensando Chico morreu por aí.e tome de rezar pro Chico.Lá pelas tantas, ao redor das 10 horas da noite Chico aparece. Todo descabelado, todo arranhado, imundo com uma flor na mão. Um cravo. Disse, "Minha tia a senhora nem pode saber o que aconteceu. Não achei cravo em lugar nenhum por aqui. Corri toda a vizinhança e nada. Fui achar no subúrbio, pegando carona de trem e roubei de um jardim lá. Veio o cachorro e me deu a maior carreira pra me morder, mas a canela eu não consegui só esse cravo roubado. Minha mãe, entre assustada e incrédula, ficou dando gargalhada sem parar... Assim era o Chico.
Pano rápidíssimo...
 
Myriam Peres
Myriam Peres
Enviado por Myriam Peres em 09/07/2005
Código do texto: T32433
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Sobre a autora
Myriam Peres
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 86 anos
473 textos (54601 leituras)
5 e-livros (275 leituras)
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Myriam Peres