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Rumos incertos

Estou sentado neste banco há horas, e não consigo levantar. Estou aqui pois acabo de cometer um assassinato, e por incrível que pareça eu não me sinto mal. Eu na verdade sou mau, não há como escapar disso. Desde criança  tenho uma preferência por matar animais ao invés de admirá-los, bater nos outros e algumas outras maldades. Batia muito na minha irmã, mas quando ela foi para o internato eu até que senti um alívio. De vez em quando tenho umas recaídas mas isso não importa agora. Vou contar-lhes como foram minhas últimas 24 horas.
Moro no Rio de Janeiro, cidade maravilhosa é como chamam. Não acho nada de maravilhosa, pode até ser bonita, mas de maravilhosa não tem nada. Um dia estava saindo de minha casa, ali em Santa Teresa, quando vi a mulher mais linda que existe na face da Terra. Seu nome era Laura, vim descobrir depois. Estava descendo a rua e logo sumiu da minha visão. Desde aquele primeiro momento quis tê-la para mim, uma vontade irresistível de possuí-la. Depois desse dia nunca mais à vi. Até ontem.
Trabalho no Centro da cidade, aquele inferno que fede até a alma. Todas aquelas pessoas andando de um lado para o outro sem parar, comparando com um formigueiro dá na mesma. Todo dia encaro aquele trânsito miserável para ir até meu prédio, não meu de fato, mas o qual eu trabalho. Trabalho há dez anos ali, rotina acaba com o homem. Quando comecei ia trabalhar feliz, mas agora é a coisa que mais odeio. Odiava como vocês vão ver.
Ontem peguei o ônibus como faço todos os dias, menos aos domingos. Entrei e sentei logo na janela, umas três cadeiras depois do trocador. Passados alguns minutos de puro trânsito engarrafado eu deixei de olhar para fora pela janela e comecei a reparar nas pessoas dentro do ônibus. Os seres humanos são desprezíveis. Pare e olhe para eles durante um tempo longo o suficiente para se mostrarem como são. Depois repare em um macaco, somos iguais, com tiques, movimentos sem sentido, coçando, caçoando, cuspindo, só que nós temos o poder de nos destruir mais rapidamente. Odeio humanos.
Então olhando para todos aqueles monstros sujos e decadentes vejo Laura. Nossa que cabelos lindos! Admirei uns instantes aqueles ombros tentadores com marcas de sol que desciam dos ombros em direção ao decote que deixava aqueles seios à mostra. Nunca na vida tinha sentido aquilo. Nem tento explicar, pois sei que quem já sentiu sabe do que falo, quem não ainda, saberá quando sentir. Então não pensei duas vezes e me levantei e fui sentar-me ao lado dela. Pensei que seria ignorado, mas na verdade ela olhou para o lado e me deu um sorriso.
_ Bom dia! Conheço o senhor de algum lugar. - falou com uma serenidade espantosa.
_ É sou da sua rua, eu acho. Moro em Santa Teresa, já te vi por lá. - respondi meio nervoso, e desconfiado dessa simpatia toda.
_ Ah não ! Não moro lá, é minha amiga que mora. Eu visito ela de vez em quando.
_ Sei, já te vi lá uma vez, mas nunca mais esqueci. - falei ainda mais nervoso, minha mão suava em bicas.
_ Esqueceu o que?
_ Você! Prazer meu nome é Roberto.
_ O meu é Laura. Mas o senhor nunca mais me esqueceu?
_ Não me chame de senhor, está bem?
_ Sim, Roberto. Mas fiquei meio sem jeito agora.
Quando o papo começou vi que meu ponto era o próximo, o que me deixou extremamente nervoso.
_ Va-vamos sair hoje? Posso te conhecer melhor? - merda ! gaguejei, odeio quando isso acontece.
_ Não sei.
_ Me dê seu telefone, meu ponto tá chegando. Te ligo para combinar e te pego às seis horas.
_ Mas... - falou ela meio encabulada, mas escreveu o telefone em um pedaço de folha. Uma daquelas de fichário. Tinha o desenho daquele rato nojento americano. Sempre achei o Mickey a coisa mais imbecil criada por aqueles filhas
da puta dos EUA.
Peguei o telefone, guardei bem guardado, desci e voltei para aquele mundo fumacento e canceroso, sem citações ao Arquivo X por favor, odeio citações acho que é coisa de quem não sabe como se expressar. Então fui para o meu trabalho.
Nem preciso mencionar que o trabalho ficou totalmente em segundo plano, pois meus planos estavam sendo traçados para conquistar aquela mulher que tanto atiçava meus desejos. Quase liguei para ela antes do combinado. O tempo demorou
a passar no escritório, tanto que fui dar uma volta pois não tinha nada mais para fazer ali.
Desci fui até a Quitanda, em uma lanchonete que tem por ali de comidas naturais, fiz um tempo lendo o jornal que comprei para passar a hora. Nossa quanta violência e quanto sensacionalismo nesses jornais de hoje. Cara, se você parar para pensar nem vale a pena viver nesse lixo.
Fui para casa. Já eram cinco da tarde, hora de ir para o meu objetivo. Liguei e falei com ela, ouvi aquela voz doce mais uma vez e combinamos, estava tudo certo.
Nos encontramos, às seis em ponto, no portão da sua casa ali em Botafogo. Ela entrou no meu carro, um Escort 93, é meio velho, mas dá conta do recado, fora uns defeitos bobos, nada demais. Dirigi-me para o Botafogo Praia Shopping. Na verdade não gosto muito desses lugares não, mas ela não quis ir à minha casa. Rodamos por lá um pouco e conversamos. Ela tinha vinte anos mas aparentava uns dezessete, era perfeita. Todos olhavam para ela, depois para mim e faziam comentários.
Ela quis ir ao cinema. Não tava com sorte, ela escolheu um filme horrível sobre uma cantora americana. Nossa eu me segurei para não sair da sala mas ela gostou, isso eu lamento.
Depois disso saímos daquele inferno consumista e fomos para o meu apartamento. Ficamos conversando por um tempo, ouvindo uma música. Não resistindo mais a agarrei. Ela não fez força e em menos de dez minutos estávamos pelados na cama fazendo amor. Nossa nunca imaginei que isso pudesse acontecer assim de uma hora para outra. Que eu pudesse achar a mulher dos meus sonhos e conseguisse-a tão fácil. Mas como não sou bobo percebi que por trás daquele amor todo tinha alguma coisa. Para meu alívio fui descobrir que nada tinha mesmo, era simplesmente puro desejo entre dois seres.
Passamos a noite juntos e depois da terceira, dormimos juntos.
No meio da noite ela me acorda desesperada. Pedia sem parar para levá-la até a sua casa, pois seus pais não sabiam onde estava, e não queria falar que estava com um cara muito mais velho, trepando até não poder mais.
Levantei meio zonzo, puto da vida. Tinha coisa para me deixar puto era ser acordado no meio da noite. Mas como era para Laura eu deixei passar, me vesti e fomos para a casa dela. Ao chegar perto ela pediu para diminuir a velocidade, pois
nesses casos o seu pai ficava na janela esperando ela voltar.
Diminui a velocidade mas tinha na minha cabeça que aquela era a minha garota, e não ia perder. Nenhum pai ciumento iria estragar meu prazer não.
Cheguei até a frente da casa. Realmente o pai dela estava em pé na porta com um cinto dobrado, não dava pra ver o filha da puta por que estava muito escuro e ele tava dentro de casa. Mas dava pra ver que ele não tinha nenhum remorso de espancar a filha. Ela tinha alguns pequenos hematomas nas costas.
Ela saiu do carro e entrou em casa silenciosamente, olhando para o chão. Nossa deu uma pena desgraçada dela nessa hora. Fiquei muito puto.
Fiquei por ali mesmo, nem me movi com o carro. Queria ver o que o desgraçado ia fazer.
Não deu cinco minutos eu ouço uns gritos, depois uns gemidos que vão ficando mais fortes e uns gritos de dor. Eram altas horas da madrugada e qualquer barulho era um eco violento. Aquilo foi me incomodando de tal modo que não agüentei mais quando ouvi um grito muito grande de dor, que provavelmente vinha de minha amada...
Sai do carro, arrombei a porta com o pé. Entrei na casa e os gritos eram muito mais altos do que meus barulhos podiam fazer. Vi que vinha do segundo andar então subi as escadas e fui direto para o quarto de onde vinham os gritos.
Nossa! Quando entrei não sei o que senti. Vi o pai dela, seu Armando, meu chefe da empresa. Mas isso era o de menos, ele tava enrabando a própria filha, ela estava de quatro na cama dele mesmo. Nossa que filha da puta.
Dei um soco bem no meio do nariz dele. O sangue jorrou como uma torneira aberta daquele puto. Ele caiu para o lado e eu fui socorrer Laura. Nesse momento ela estava acabada, não conseguia nem se mexer. Me descuidei e Armando levantou
rapidamente e correu para o armário. Vi que ele pegou alguma coisa. Quando vi ele apontava aquela arma prateada em minha direção, nossa fiquei pasmo. Mas ele era tão ruim que errou o tiro, que passou a pouco da minha cabeça. Não pensei duas vezes investi sobre ele e segurei a arma, dando um chute nos bagos do infeliz.
Enquanto eu batia em Armando ouvi um barulho lá em baixo. Era a mãe de Laura, que subiu as escadas e me viu apontando a arma para a cabeça do desgraçado.
_ NÃO! NÃO FAZ ISSO! SEU FILHA DA PUTA! NÃO VAI MATAR MEU MARIDO NÃO.
_ Mata sim! Mete uma bala na cabeça dele por mim. - falou Laura em estado deplorável no chão, suja de sangue.
A mãe dela olhou para ela e depois para mim e ficou branca. Tão branca que a parede e ela eram uma coisa só. Mas ela investiu contra mim. No reflexo a arma disparou. Cinco segundos depois me vi com o corpo da mãe de Laura nos meus braços. Caído. Mole.
Nossa! Tinha matado alguém. Não alguém, mas a mãe da minha amada, mas isso não mudava nada. Me sentia poderoso. Senhor da verdade, nada mais importava para mim. Tirar a vida, manipular a vontade da natureza era como se eu fosse um deus. Fiquei ali repetindo a cena inúmeras vezes em minha cabeça. Como a vida era medíocre. Tanta força que podia ser terminada tão facilmente. Ouvi os vizinhos gritando.
Peguei Laura pelo colo e levei-a até meu carro. Quando estava partindo ouvi mais um tiro. Armando tinha acabado com a própria vida provavelmente. Deve ter sido de remorso, nem ligo, depois do que vi, ele merecia muito mais. Eu não acredito
em Inferno mas se existisse um só para ele seria muito bem feito.
Cheguei em casa, me lavei. Coloquei Laura para dormir e sai de casa. Vim até aqui a praia. Sentado nesse banco, pegando a brisa que vem da terra para o mar. Nada mais importa agora. Com certeza perdi meu emprego, o pai de Armando é o dono da firma. E com certeza também perdi meu amor. Laura que teve sua mãe morta por minhas mãos, não me perdoaria nunca.
Minha vida acabara essa noite e se eu continuar a viver, com certeza terei de experimentar a sensação de matar de novo. É indescritível, ter o controle da vida de outra pessoa em suas mãos. Tirar essa vida é como se você suga-se a força
para você, e então fica mais forte. Era praticamente um vício.
Voltei para meu apartamento e deixei um bilhete para Laura. "Querida Laura, não sei mais o que faço. Sei que nunca me perdoará pelo que fiz mas acredito que possa pensar e perdoar-me. Estou com a arma do crime e se até as 3 horas da tarde
não ligar para o meu celular, nunca mais me verá. Beijos do homem que te amou mais que ninguém."
Peguei a arma, meu celular e as chaves do carro e parti em direção a Prainha. Sentei-me em uma das pedras. Fiquei olhando o mar. Pensei em como Laura me olhava na noite passada, uma forma de amor que não há como descrever.
Acredito que o amor é mais forte que outra coisa, e ela vai me perdoar.
São duas de quarenta, nada de ligação.
Três horas da tarde.

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A visão é a de um homem parado em pé em uma pedra, com uma arma nas mãos, ele leva lentamente a arma até a altura da cabeça e sem pensar dispara o gatilho, por um momento ínfimo ele sente como é matar uma pessoa de novo, mas é tão rápido que não dá para perceber e ele morre antes.
A visão é de um homem caído que antes se via em pé na pedra. Com metade do crânio para fora e miolos para todos os lados.
Ao longe pessoas vinham para ver o que tinha acontecido, e o silêncio era profundo, só se ouvia o toque de um celular.
leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 19/07/2005
Código do texto: T35595
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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leandroDiniz