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"Maria, a doméstica"

Maria, a doméstica...

        Hoje vou começar uma série de divagações. Vou falando ao correr da pena, apenas sussurrando opiniões, pois se ficar nos efes e erres, não vou adiante, só serão entraves.
        Neste primeiro dia, entrarei em assuntos mais simples, menos ariscos, só divagações, repito. Mas, que seriam assuntos simples?  Existem?  Ou nós os nomeamos assim?  Sei lá... Quando quero ficar nos “entretanto”, os “finalmente” serão comentados sem pressa.
        O dia hoje, segunda-feira, começou como toda segunda-feira: preguiçosa e sonolenta... Apesar de já ser quase 8 horas e o sol, já quente agora, mesmo no inverno, as coisas recomeçam sempre com aquela rotina versus monotonia, comuns para quem vive nos padrões habituais. As pessoas mais atrasadas, correndo pra pegar ônibus e as que não têm nada a fazer, ficam andando a toa pela rua. Olhando pela minha janela, vejo o espalmar de um dia de bairro elegante, pessoas mais refinadas indo curtir uma praia, enrustidas em trajes modernos, chapéus bem aprumados e sorrisos dos que nada têm a fazer ou dizer. São máscaras dos mais afortunados, porque os outros não pensam noutra coisa que não seja trabalhar para sobreviver. A chamada lei do cão, coitados dos cachorros... Aliás, os da zona sul têm a vida de rico, comendo, bebendo e esnobando bom trato. Fico sempre pensativa, em como as pessoas pobres conseguem ser felizes.  Das migalhas que recebem, ou quando recebem, ou se recebem, esticar durante o mês todo, fazendo aquela ginástica incrível de sobrevivência. E ainda se consideram ricas de felicidades, risonhas. Triste sina, quando da luta do estômago contra as contas a pagar, sempre arrastando a família nas suas misérias de vida(?).
        Mas, no meio das pessoas mais ricas, que se envaidecem dos ouros que podem usufruir, vejo o balançar das empregadas domésticas, que chegam esbaforidas na casa das madames, sempre tendo que pedir desculpas pelos atrasos, coitada delas. Estarão sempre naquela de ter que se submeter às patroas que, às vezes, são pessoas neuróticas, e ou, exigentes demais em aparentarem perfeição, como boas esposas e excelentes donas de casa. Maldito nível social em que uns pagam, em detrimento dos outros... É a vida, sempre dizem, pois na psicologia de muitos, nada deve ser comentado a não ser que seja agradável e alegre... A verdade incomoda e nem estão aí pra nada.
       Ao correr da pena, da minha, por exemplo, fico pensando em que devo falar: do sol, das pessoas ou de que? Da carestia da vida? Bobagem, isso é assunto corriqueiro demais. E o tempo passa... Os minutos se atropelam descaradamente.
      De repente vou continuar a falar da “Maria”, empregada doméstica da casa da “Dona Elisabeth, “Dona Betty” para os mais íntimos. Depois de vir pendurada no trem da Central, esmigalhada no ônibus que a levaria ao Leblon, chega esbaforida ao seu destino, com sorriso nos lábios e se dizendo feliz em sua vida de então. Troca de roupa rápida e, mais rápido ainda, começa a faina do dia: atender o café dos endiabrados filhos da casa que, ora querem café com leite com sanduíche de queijo, outros preferem suco de frutas com torradas e ainda a “chefona”, querendo suco com sanduíche de pão integral e ricota, e por aí vai... Coitada da Maria, com seu mísero café preto de casa e o estômago doendo do pão dormido, comido com margarina, quando pode ter isso, pois a margarina é fruta rara sempre.
      Despachados para o colégio, esperando o ônibus escolar que vem pegá-los na porta, fica a Maria torcendo para ele não atrasar e poder começar a labuta da sua vida miserável. A limpeza das peripécias das crianças,  não organizadas pela mãe delas. Aí começa ela: muda as roupas de cama, guarda as que estão jogadas no chão, naquele pandemônio, uma  mistura de brinquedos, tênis, papéis rasgados, meias, cada uma sem seu par, numa feira de bagunças jamais igualadas, espalhadas pelo chão. E, lá vai Maria, coitada, limpa aqui, varre acolá e o telefone que não para de tocar... “Maria isso”, “Maria aquilo”, berra a Dona Betty, querendo saber das compras de supermercado. Tem isso? Falta aquilo outro? Depressa, telefona, pedindo pra entregar em casa que é para o almoço ainda. Vou me atrasar, Maria, vou malhar na academia, Maria!!! E, a pobre do pé de boi da Maria, corre aqui, vai acolá pra dar cabo de tudo.
      O almoço, quando os capetinhas chegarem, tem que estar pronto. Todo dia a mesma coisa: arroz, feijão, batata frita e bife. Salada? nem pensar. E a cantilena eterna a continuar. Quando a Dona vai malhar só fica ela com o cachorro, pra poder respirar... Ufa! Que bom! Agora vou fazer tudo mais devagar. Posso cantar e dançar com a vassoura, sem ninguém pra me atrapalhar... (“Conceição, eu me lembro muito bem, vivia no morro a sonhar com coisas que o morro não tem “)... Cantava e suava ao tamborilar de notas e melodias... “Ainda um dia vou ser cantora de rádio” dizia. Agora o cachorro fez cocô na sala, e lá vai ela limpar. Que droga, pensava Maria, depois de tudo, ter que paparicar o cachorro, gritava ela...
      Foi pra cozinha, preparar a comida, depois tinha que botar roupa pra lavar, e ainda sobrava tempo pra ela pensar no amor dela que ficara em casa, desempregado, sem vintém... Aquele vagabundo! Eu aqui ralando feito uma condenada e ele me passando chifre, com as piranhas de lá de perto de casa... Mas, que fazer? Já que sou vidrara nele, tenho que aceitar e calar, mas dá uma vontade doida de dar umas bolachas naquele vagabundo querido.
      Chega a hora do almoço. O ônibus, apitando na porta e os capetinhas, em desabalada carreira, adentram a sala, berrando que queriam comer com a televisão ligada, vendo filme de terror. Novo alvoroço, berro pra cá, pontapés pra lá, numa embolada digna de moleques de rua, mas são os filhinhos da mamãe, que fazer? Maria, pachorrentamente, começa a botar a comida na mesa , esperando a Dona Betty que já vai chegar da academia , inventando que está morta de cansada e que ia comer a salada com pão preto, bife seco e suco de melão.
      Ah! Vida danada!!!  Eu aqui tendo que segurar tudo e a patroa, às gargalhadas no telefone, contando as fofocas do dia. Mas, pensava Maria, “quem nasceu pra ser licuri, morre com a cabeça debaixo da pedra” sempre dizia a mãe dela. Tirou a mesa, deixou as crianças na sala, vendo tv e foi almoçar na cozinha. Eis que tem uma companhia: o cachorro que vem de rabo abanando num hipócrita agrado pra ganhar uns pedacinhos de carne, que sempre a Maria dava pra ele. Lavou a louça, botou a roupa pra secar na máquina, com o rádio ligado baixinho pra ouvir as últimas notícias e as canções que gostava. Nisso chega o supermercado.
        Êta moreno bonito, o da entrega, pensa Maria e, tome de puxar assunto com ele, dando reviravoltas nos olhos e trejeitos na boca. Fica assim nesse namorico escondido sem pensar naquele que ficou em casa, coçando o saco sem fazer nada. Estou vingada. Chifre por chifre, tanto faz. Eu mereço ainda dar umas piscadelas pros fanzocas. Estava feliz, riu até pro cachorro que agradeceu no maior abano de rabo. A patroa, junto com os filhotes, saíram pra ela levá-los pra aula de inglês, enquanto ela ia bundear,  naquele hábito tão antigo.
       E a Maria, suando feito uma condenada, corria para acabar o serviço e demandar para a casa dela, longe pra danar. Cantava, suava, resfolegava, e tome correr. Terminou o jantar para o pessoal à noite comer e, num rápido piscar de olhos viu que já podia voltar pra casa. Até alisou o cachorro e deu beijinhos de felicidade, porque o dia estava terminando.
      Tomou aquele banho gostoso, vestiu a roupa, que ela chamava de uniforme número 2, porque era segunda feira. Empoou-se e perfumou-se, mas aquele perfume que tinha comprado do camelô, fedia mais que cheirava, mas nem deu bola pro azar. “Indo no sacolejar do trem, estava muito bom” Pois era dureza, o trem apinhado de gente na volta pra casa, o suor fedia e subia em bolhas para o ar, contaminando todo trem.
     E pensava que um dia ainda ia ser rica, para ter uma vida melhor, menos trabalhosa. De braços abertos vai de encontro ao amor dela que a esperava na estação, agradando com beijinhos a pessoa que sustentava a casa para ele poder ficar coçando em casa.
     Maria, abraçada com seu amor, feliz da vida cantava e suspirava, prevendo como seria a noite de amor que teriam. Maria em casa, faina acabada e dia terminando.
      Maria, coitada! Peso pesado! Cansada !!!
     Triste vida de quem tem que lutar pra sobreviver...

      Myriam Peres
Myriam Peres
Enviado por Myriam Peres em 19/07/2005
Código do texto: T35627
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Sobre a autora
Myriam Peres
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 86 anos
473 textos (54600 leituras)
5 e-livros (275 leituras)
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Myriam Peres