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De Rosas e de Flores

Colhi o que plantei. Trabalhei duro para pagar quem educou meus filhos e ainda o fizeram mal. Ah, tivesse gasto meu dinheiro em outras coisas, prazeres, tantas terras para ver... Fui um besta! Casei cedo e fui manso, vivi na mesmice até que Ela apareceu. Perfume rosa e pele de noviça anunciaram céu e provações. Relaxado e feliz, com a paixão me atiçando a recomeços deixei casa, família, fiz o que achei melhor. Única vez em que segui meu coração e as palpitações cessaram. Não me arrependo. Tremo ainda todo ao ver nos olhos Dela, meio-verdes, meio-mel, o brilho bobo em meu olhar, então o breu que arrebatou-me e a terra que me acolheu.

Sou um Flores, mas a caca de urubu sobre a lápide deixou-me singular – Flor. Menos pelo que fui do que pelo agora sou: um Flor que não se cheira, reconheço. E foram as rosas que partiram, melhor dizendo: deixaram-se levar. Dizem que plantas têm escrúpulos e disso nada sei. Desprezei-as, fui hostil, odiei a sua origem e odor de traição. Melindrosas, deram mãos ao vento e foram, dissimuladas, rastejando até o portão, onde fica o lixo. Uns valorizam o que outros jogam fora, e como eram brancas, confesso que lindas, não passaram longo tempo lá.

Mas eu devia ter evitado sementes, Flores tão semelhantes, como o filho que veio me ver. Rosas: durma com elas, acorde espetado. Não cheire, mande-as embora antes que seja tarde demais. Ao depositá-las em meu túmulo naquela tarde ele nada disse, mas pude ver aquele brilho vadio em seus olhos, o mesmo brilho bandido que um dia cegou os meus.


Texto originalmente publicado no Bluemaedel (bluemaedel.blogspot.com)
Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 08/07/2012
Reeditado em 08/07/2012
Código do texto: T3766357
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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