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Impossibilidade

Impossibilidade

Olhava para o céu e via aquele azul digno de nota no jornal e algumas aves voando. Olhava para o pequeno espaço que existia para ver de azul e logo acabava olhando para as janelas dos prédios, enfileiradas e agrupadas de forma indizível.

Olhou mais um pouco e se dirigiu para casa. Estava louco para confrontar o monitor do computador e ver aquela mensagem alaranjada piscando.

Aquela que indicava que tentaram falar com ele, mas estava longe do seu pc. E com o tempo ela ficava piscando, pedindo atenção, a qual era dignamente ignorada com o passar dos tempos, já que o próprio monitor se encontrava desligado.

Chegara a casa, após um dia de tarefas e compromissos. E teve aquele sentimento de atração com o teclado, queria se corresponder eletronicamente com ela. Ela pequena e brava, conturbada, mas decidida. Loira, mas nem tudo era perfeito. O Fluminense contagiava seu espírito. Nem tudo é perfeito.

Curtos! Aquela foto dos seus cabelos curtos era fantástica, pretos! Pretos, e ainda existiam pessoas com preconceitos. Curtos eram os melhores. Poderiam dizer o que quer, mas os curtos eram fodas. Pretos então! Incomparáveis.

Como as teclas de seu teclado. Negras e baixas. Curtos e negros eram as suas madeixas, incomparavelmente diversas dos padrões oitocentistas, mesmo os novecentristas.

Era como uma pintura modernista. Cheia de planos profundos indizíveis com facetas mil a serem descobertas e ainda mais cores que poderiam ser feitas. Essa mistura o fazia descobrir todas as possibilidades de seu ser. Todas aquelas que poderia imaginar, ainda faltariam todas aquelas que poderiam ser realizadas fora da imaginação dele. Elas que falariam como prova incalculável da mutabilidade e da variabilidade do ser.

Chegou e pôs os dedos nas pequenas e quadrangulares. Pretas com relevos brancos indicando quais letras representavam. A letra A em sua decadência, já mostrava, claramente, seus sinais de morte, a tecla ficava sozinha sem número ou letra, deixando ao seu utilizador que imaginasse de qual representação participava.

Assim como ele ficava imaginando de qual forma ela reagiria a suas perguntas, as quais feitas com absoluta sinceridade, mas com total desconfiabilidade por parte do feitor, já que feitas sobre efeitos deturpadores.

Ouvia músicas que lhe lembravam o nada. Lembravam a total e permanente reestruturação da narrativa para recompor e agrupar todos os personagens, os quais só eram, e ainda são, apenas dois. Ele, no caso eu, e ele, no caso uma pessoa completamente diferente.

Ela que por sua completa diferença se manifestava no espírito dele de forma inalienavelmente perfeita. Aquela foto que aparecia na caixa de conversa era mais que atraente, desnudava-a em toda sua essência, deixando a ele a escolha de dizer, ou não, o que reparara. E essa era sua profissão, descobrir como eram as pessoas.

Deslumbrou-a com algumas palavras, cujas disseram como era ela em toda sua essência e ficou entusiasmado com sua surpresa. Mais tarde iria chamá-la para dar um volta. Estavam em uma cidade que permitia voltas sem que se rolassem boatos homéricos sobre o encontro. A cidade era pequena, mas nem tanto.

Andaram conversando. Ele reparando o quanto ela era baixa, espevitada, falante e descontraída. Apaixonou-se assim, logo da primeira vez que lhe tinha visto, escutado, falado, teclado e imaginado. Sabendo que sua paixão era inútil. Em seu desejo de lhe ver feliz renunciou ao desejo e se colocou a frente dele. Desejava, então, que ela se livrasse de seus problemas. Fora, mais uma vez, altruísta. Mais uma vez colocara sua visão de mundo a frente de seus desejos, esses que lhe consumiam.

Numa oportunidade tinha lhe perguntando:

“Se eu dissesse que estava apaixonado por você e queria de qualquer jeito me encontrar com você, o que você responderia?”

Essa era a forma mais covarde e inútil de se perguntar isso, mas era de total incapacidade de lhe fazê-la de outra forma. Tendo como resposta uma sonora:
“Seria praticamente impossível você se apaixonar por mim, se a gente só se conhece virtualmente, o que acho que seria complicado.”

Sabia ela menos do que gostaria ele e sabia ele muito mais do que era necessário. Fantasiava, esperava, criava as tais expectativas, de todo modo que eram inúteis, o levavam para aquele fundo que era inevitável, tantas vezes descrito na literatura clássica.
De clássico só havia ali o platônico. Aquele que idealiza o objetivo e acaba obcecado com ele, declinando a tal ponto que se tornaria insustentável, como a leveza do ser. Não continuado com a imortalidade, mas sim deformado e futuramente enterrado.

Como seu espírito, a sete palmos abaixo da terra, não como um golpe, mas como uma conseqüência, essa que eleva o espírito, mas rebaixa o ser, sua auto estima, suas percepções, sua disposição. Aquela que estaria bem melhor com alguém ao seu lado, e não com varias pessoas longes com pedaços de suas criações.

Preferiria nunca ter inventado nada e ter alguém que comportasse toda sua sorte criativa até então do que criar tanto para todos. Queria ser mais egoísta, ser mais amado, ser desejado, não venerado, não elogiado, não, não e não.

***

O som da musica lhe invadia a mente, que a interpretava suavemente, como estava, então sentia, não tirava do ouvido o fone, e a voz rouca e incessante dizia “oh! Whatta beautiful life!”
Acreditava na beleza incessante da vida, sobrepondo todos os momentos ruins, todas as partes péssimas e deixando todas as confusões de lado. Relegando a felicidade àquele par que tanto se merecia.

Não por méritos ou créditos, mas por total compatibilidade do destino com essas pessoas. Poderiam nunca durar um mês, mas eram destinadas a durarem apenas três semanas. Como que não soubessem de seu destino breve, mas prazeroso.
Tudo que ele desejava ela lhe ajudar. Tirar todos os problemas da cabeça, do coração. Abraçar-lhe e dar todo o conforto da segurança de um abraço bem dado, daqueles que se inclui toda a confiança e determinação que se tem.

Entregando todo o sentimento e todo sentimentalismo que se tem. Ajudando e ao mesmo tempo conquistando. Por méritos, não por força ou por ataques frenéticos. Conquistando a confiança eterna daquela pessoa, que poderia ser sua parceira para toda a vida, até ter-se rugas e falar tão devagar que todos haveriam de parar para escutar, parando, entretanto, pois quem falaria era a voz da experiência.

Romântico? Quem sabe, não seria ele um dos últimos. Daqueles que enganam toscamente no começo, mas depois, com o tempo, rotina, com o costume, se desfaz em uma carga inseparável de cotidiano. Qual marca e faz o outro crer que não mais lhe quer, apenas porque é vitima de si mesmo. Já que o conquistador nunca disse que não iria mudar com o tempo.
Continuava seu sonho, doloroso, pois sabia que era apenas um sonho, e, além dele, mais ninguém iria acreditar nele, nem mesmo ela, o alvo de toda a sorte de sentimentos dele nos últimos dias. Nem mesmo ela. Ninguém. Seria aquele conjunto inseparável de sentimentos que iriam para a lata do lixo dentro de pouco tempo, pois sabia que essas conversas nunca duram muito. As pessoas acabam se separando. O tempo destrói tudo. Tudo que não é construível. Amerimacka! Sonhamos com aquela vida bela. Ilusão.

Tantas facetas, tantas observações, tanto a ser dito. Nada poderia fazer efeito. O tempo agia como determinante, assim como o espaço era o dificultador. A única medida que funcionava ajudando era a intensidade. Aquela que permitia as esperanças de ver determinado nick online na lista. Das frases ditas, dos risos demonstrados na conexão mental, essa, também, que era diminuída pelo espaço. Essa que seria muito mais eficaz de maneira mais presente, sem ser através de bit de informação, como se fizesse, ou tivesse, alguma diferença.
Estava louco, louco mesmo, não merecia crédito, escreveu então sua loucura, esperando que alguém lhe desse crédito, fosse pela experiência parecia, seja pela proximidade do experimentado. Eram novos tempos, novas mídias, novos contatos.

Sentia uma saudade desgraçada dos velhos tempos, mas essa era comparável a saudade que lhe batia entre cada abóbora piscante em sua barra de tarefas.
leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 28/07/2005
Reeditado em 28/07/2005
Código do texto: T38359
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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leandroDiniz