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A Descoberta

Para Lu Narbot

Como nasce um bandido? Tomé não pensou nisso buscando pelo e-mail, o qual havia lido bem cedo de manhã naquele dia ao levantar-se. Como de costume, usara a espera pelo café para conferir as mensagens. Abrira aquela especial e vendo tratar-se de assunto que exigia tempo, fechou-a marcando como não lida para voltar e ler depois; erro fatal; voltou mais tarde e nada, nem rastro. Esgotadas as possibilidades de extravio ou exclusão acidental sobrou-lhe erro em algum servidor ou ação de outrem, não havia registro qualquer em sua máquina. Muito estranho, trazia na memória clara lembrança do que havia ocorrido mas não havia nada concreto para provar: um vídeo ou um log, por exemplo. Havia testemunha, uma só, que o vira checando os e-mails cedo, mas o que ele havia de fato lido, quem mais poderia saber? Pôs em dúvida o próprio juízo e o da empregada. Nem mesmo o histórico dos programas o ajudaram dessa vez. Desejou apertar o botão de retorno da vida, mas não é fácil parar onde se quer. A vida não é seqüencia, é curva, círculo, espiral, sem falar nos surtos e pontos de tangencia surreais, passagens abruptas que uns chamam de nascimento ou partida, corda bamba, buracos, cordas físicas, fios e planos lençóis: tudo isso é vida e não dava simplesmente para voltar a seqüencia atrás, a mente humana é limitada e adora enganar-se. Tentou esquecer o fato por não se tratar de assunto sigiloso e não valia o tempo de correr atrás. Solicitou ao emissor que reenviasse, na ilusão de poder seguir. Feito e lido, aliviara-se: o e-mail existira afinal e ele não estava louco. Mas Tomé não era fácil de se contentar e corroído pela alergia de desvendar fatos embrenhou-se pelas vias e submundos digitais, precisava saber o que se dera ao fim e ao cabo. Uma falha no servidor de e-mails poderia ser uma explicação e uma espiadinha em certas brechas talvez aliviasse a obsessão em brasa. Lego engano, alimentava o bandido virtual que nasceu daquele vácuo e ansiava por crescer e dominar o mundo. Havia muitas portas abertas e os porquês que empurram o ser humano mais que bastavam para não resistir e olhar, uma espiada só no escondido, no vácuo, no escuro, na tentação do saber mais. Ao invés da causa do e-mail perdido encontrara ele um mundo novo de informações raras, mar sujo de transações, o submundo da rede, um elo, uma nova Chinatown. Tomé não cria no que via, ele estava na teia e por mais que tentasse não conseguia sair. Quis fazer como o seu e-mail, tentou sumir porém os vácuos em todo lugar se encontram mas não valem para todas as situações. Seu e-mail perdido era inocente, o que Tomé não era mais. A perda parira um criminoso, um novo chefe na Inter-Chinatown.

Conto originalmente publicado no Bluemaedel
(bluemaedel.blogspot.com)
Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 21/09/2012
Código do texto: T3892929
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
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