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A Hora do Gemido...



Veio lá de fora...
Uma onda pesada de rumor abafado, retalhado de murmúrios, intercalados de surdas exclamações! Recuei empurrada por medonho pressentimento!
Que será isso, que corta essas vozes em pedaços desconexos de sussurros, meu Deus?
Alarmada fiquei de pé como um autômato, prendendo a respiração pra acalmar o zumbido nos ouvidos que de repente pareceram estar cheios de ar deixando-me zonza. Parecia ter sido alterada a força da gravidade a minha volta! Não me lembro se alguém entrou ou se fui ao encontro dela, mas uma voz que eu não pude identificar falou algo que eu não ouvia bem, mas ia sentindo o significado em cada molécula de meu ser! Sentindo e resistindo ao sentido: “Sua filha ... um acidente... precisa ser forte!”
Cada palavra mesmo mal ouvida era um golpe açoitando meu mutismo angustiado. A súplica escancarada em meu semblante, gritava alto e aterrorizado o meu... “qui foi?”
Tudo parou de repente! Mas no vácuo, bem longe eu ouvi: - “sua filha se foi!”
Ah, não gente!...  Falem direito! Para o hospital? Ela foi para o hospital?
É isso: ela machucou-se? Onde está?...Aquelas caras no chão... Mirando o nada...
 Olhos pregados nos pés deixando-me só, absolutamente sonâmbula, passada! Nem dormindo nem acordada, mas presa num pesadelo indescritível, aterrador! Tudo veio como um traiçoeiro soco, numa lufada ardente de vento invisível atingindo-me o abdômen, abalando-me do ventre ao esôfago numa compressão única, roubando-me o ar! Descobri a pior dor do mundo! Dor de parto às avessas! E não era só no corpo que doía, era uma dor mais funda...
Funda dor na alma... Sem alívio de nenhuma droga existente na terra! Aaii... (só gemi)
Cambaleie como bêbado desatinado... Os sentidos não me atendiam. Exceto os ouvidos em suas funções alteradas retendo em minha cabeça aquele ôco cheio de eco infinitamente repetido: foi-se... Ela foi-se! Pensei: foi-se? Foice, meu Deus deve ser foice... Ela cortou-se! Nem sei como surgiu tal pensamento numa tentativa inconsciente de fugir da verdade... Foi tudo tão rápido e embaralhado como um novelo rolando ladeira a baixo e eu tentando pegar o fio solto de meu pensamento atordoado! Quando fixava melhor o pensamento acho que a razão analisava e mostrava-me que este “foi-se” era de ir embora... Ah não, meu Deus! Não... Foice que corta a vida, pelo amor de Deus, não! Foi-se que a morte carrega? Morte... Morte? Quem disse isso? ...
A lucidez esmaece no pesadelo e nele bem longe sinto que sou carregada! Morta, penso bem apagado...  Também estou morta! Vou com ela! Não quero que ela vá só! Ela ainda é muito menina, não sabe nada da morte, nunca tive tempo de falar-lhes disso!
Ai, ai minha filha... Não te amei o suficiente, não pressenti que o perigo te rondava e te perseguiu nessa estrada até que te carregou! Saio brusca desse horrível torpor e corro para o quarto dela. De cara aquele pôster gigante do meu lindo anjo!... Olhando-me enquanto abro lentamente seu guarda-roupa. Tonta, atordoada com a pior dor que um dia siquer supus existir.  Luto para manter-me de pé e enxergar com uma pouco mais de nitidez! Olho as coisas dela em feroz luta para concentrar-me nisso! Mas meu pensamento em paralelo repetia dentro de minha cabeça: é mentira! Meu Deus, não pode ser verdade!...
Em desordem como sempre, ali estão as coisas dela: roupas, tênis, mochila, perfumes, escovas, presilhas... oh! As fotos dos ídolos dela, o pôster daquele ator da Malhação, os cds que tanto gosta!  Ai essa bola seca e ácida em minha garganta! Esse nó bloqueando meus soluços... Cadê minha voz? Está parada, entalada, também morta por enforcamento nesse nó que nunca acaba!... Fujo de mim por segundos, cavalgo a dor e ela me leva pra onde bem quer... Abandono-me sem luta! Vá droga, carregue-me também...
Oh Deus me deixe pegar na mão de minha filha, quero ir com ela. A outra que fique aqui, ela tem o pai, amigos, tios, avó... E se não tiver nada além dessa vida  como ela vai ficar, só? Deus me ouve, todos os santos, a Virgem Maria, me digam que minha filha está viva! Que daqui a pouco ela entra por aquela porta, joga a bolsa no sofá, se joga no outro, tira os tênis na sala deixa no tapete, liga o som a todo volume, juro nem vou brigar!...
É isso ela vai entrar e perguntar: oi mãe, demorei? Até queria vir mais cedo mas... e pela milésima vez vai repetir a mesma ladainha de explicações e, eu vou só ouvir não vou falar nada, só ouvir a voz dela como se fosse a primeira vez que a ouvisse!...
Nem sei de onde vem essa cantiga numa hora tão imprópria: “se essa rua, se essa rua fosse minha... eu mandava, eu mandava...”
“... Dorme, dorme filhinha... Que o papai já vem...” O nó desmancha-se e a cascata das lágrimas virou cortina nos meus olhos tão cansados, que nunca haviam chorado tanto!  (Fato ocorrido em família dia 05/07/2005)
Acompanhando a dor de uma mãe}
Marilú
Marilu Santana
Enviado por Marilu Santana em 13/08/2005
Código do texto: T42422
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Sobre a autora
Marilu Santana
Paulista - Pernambuco - Brasil
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Marilu Santana