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Me mudei do Laranjal Dois

dei a volta na quadra. Assim não bato de frente com ele.

Olha o picolezeiro ta chegando posso ouvir sua buzina lá no fundo,
ele faz o picolé mais barato pra ela,
nessas horas beleza exerce função social,
deixo que ela junte as minhas moedas e pague o garoto,
todo feliz, pobre coitado homem fadado a ser um escravo.

-Não eu vou querer um di Goiaba e um di limão.
-Claro amor.

Nunca entendi bem o que quer dizer isso, amor?
Um aproveitamento que me faz lembrar que também a amo, enquanto puder usufruir do seu corpo ou de seus planos,  estão todos sempre indagando sobre meus sentidos, quero mais é que se danem.
Pensar sobre mim? Ninguém se preocupa fora a família, hahahaah que família, minha tia Alba? A mulher mais chata deste bairro.
Na verdade foi a que mais me amparou mesmo, vivo na sua casa até hoje de favor, neste barraco três por dois,  todos juntos e amontoados.
Três filhos e minha preta continua uma delicia, eu desempregado vivendo de rolo, troquei ontem a minha creta por um vídeo cassete, ta novinho sete cabeças, nem sei pra que tantas deve ser tipo aquele dragão do caverna do dragão, o Diamate.

-Este picolé vai curar o calor por alguns instantes, chupa rápido amor igual se faz cum o meu pau, hahahahahahah.
-Deixa de ser safado que sua tia ta ovindo homi. To chupando afoita por que num tem geladeira neste barraco.
- To vendo se troco este vídeo mais a sua creta por uma geladeira do borracheiro, ela num ta lá uma Brastemp mas dá pra gasto e faz gelo.
- Brigadu amor assim a gente pode até tomar tereré.

O sonho dela era sair na porta do barraco com uma garrafa de gelo na mão e uma guampa na outra, tomar um tereré de botar inveja nas vizinhas.
Coitadinha nem desconfia que eu vou tretar essas fitas numa caixa de pasta base, assim eu levanto uma grana e compro uma geladeira na loja, zera e à vista.

- Demorou truta vamo fazer o rolo, num tem nota mais é firmeza bagulho de primeira eu troquei na creta e véu sem B.O.
- Esta Base é boa mano, é só você batizar bem ela que vai render a maior grana truta.
- To precisando me erguer mesmo, sair daquela quebrada mano, to na casa da minha tia e a veia é a maior chata dru. Vou passar por ali nos Laranjais e na Carmélia que ta recheado de estigadinho correndo atrás de noia, noite e dia sem parar. Já to com um celular anota ae 9985-4747.
- Pode crer precisando é nóis.

- Cheguei amor e trouxe uma  surpresa pra você, uma geladeira novinha da loja.
- Daonde se arrumou grana pra isso?
- Dei meus pulos. To remando né filha.
- Você não ta mexendo com drogas ta?
- Só to fumando beck, parei com isso amorzão.
- É bom mesmo que eu macho que to grávida.
- Mais um? Que maravilha eu quero um macho. Hahahahah vou comprar umas cervejas pra gente colocar na geladeira nova.
- Eu te amo meu amor.
- Eu também gatinha eu também.

Não pude nem mesmo chegar no bar.
To guardado fazem dois meses, no seguro, nem mesmo recebo visitas ou sei de notícias da minha mulher, a ultima que recebi dizia que ela ta catando papelão e garrafa plástica, ainda prenha.
Daqui só posso mandar migalhas, que ganho fazendo bola de futebol costurada na mão, preciso ficar esperto pois devo dinheiro e já me ameaçam. Não saio nem pra ver a luz do sol, daqui a dois anos eu saio. Quero ver meu filho crescer longe disso, não quero ver ele viciado trocando comida da geladeira nova de casa por uma parada de base.
Marco Cardoso
Enviado por Marco Cardoso em 17/08/2005
Reeditado em 12/09/2005
Código do texto: T43306
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Sobre o autor
Marco Cardoso
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil
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Marco Cardoso