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O gosto daquilo...

I


Dona Virgínia Nogueira fora praticamente arrancada de sua máquina de costura aos puxões por seu adorável casalzinho de filhos, comportados e sadios. Estavam se atropelando com as palavras, mas a indicação de que ela deveria acompanhá-los até o quintal era clara, assim como a manhã que acontecia lá fora.
Teve certeza de que deveria se tratar de mais um balão atmosférico, como o que tinha caído por lá no começo do ano, mas eles apontavam para a macieira, toda carregada, e ela não conseguia enxergar nada espantoso, a não ser um pássaro com tamanho maior do que os pardais, cantando esquisito num dos galhos mais altos, provavelmente uma araponga. Seria isso?
– Não, ali, ó! – o garotinho era o mais impaciente dos três.
A resposta estava quase encostada em seu penteado permanente, e a fez arregalar os olhos; se tivesse pulado para trás ou gritado, não pareceria tão adulta como gostaria de parecer para seus filhos.
Era um pêssego, exatamente igual aos que costumava comprar quando chegava o inverno. O problema não era com ele e sim onde ele estava: num pequeno galho, fazendo companhia a quatro maçãs, estas sim, completamente adequadas tanto ao lugar como ao formato que se poderiam esperar de uma maçã; e quem se detivesse a observá-las, as maçãs, com um pouco mais de atenção, e imaginação, perceberia até mesmo que elas estavam ligeiramente incomodadas com aquele fruto peludo e rosado que roçava suas cascas aceitavelmente lisas e avermelhadas com coerência.
Enquanto ela, a mãe, ia se absortando como que hipnotizada com a maravilha daquela incongruência, o garotinho Nicola, afoito, ia tentando alcançar o pêssego com o seu cavalinho de pau. Ele queria comê-lo antes que sua irmã mais velha o fizesse.
– Largue esse pedaço de pau imediatamente! Se você quer a mamãe vai na venda e compra um pra você. Esse, não!
Da boca das duas crianças não saiu um “por quê?” e sim dois suspiros aborrecidos. Entraram e aguardaram, ou melhor, suportaram até o fim daquela tarde que era quando o pai, Armando Nogueira, chegaria com menos paciência que raciocínio lógico, além daquela tranqüilidade intelectual que os homens que lêem o jornal diariamente de ponta-a-ponta conseguem manter, um ar de soberania e sapiência mesmo diante de histórias das mais cabulosas. “Tudo tem explicação”, costumava ser elogiado por pensar assim.


II


Armando chegou três minutos mais tarde que de costume, intervalo de tempo suficiente para que Nicola chorasse de ansiedade, Arilena contasse quantas vezes piscava seus olhinhos estrábicos em um minuto e Virgínia voltasse a fumar sem o menor peso na consciência.
Assim que ouviu o barulho do portão sendo aberto, a mãe foi com as crianças para o quintal para que o esposo viesse ter com ela de uma vez lá fora, e assim poupar-lhe de ter que convencê-lo a conferir o absurdo com seus próprios olhos. Tanto deu certo que, apesar de o sol ter se posto, ele pôde constatar com facilidade e assombro que, infelizmente, sua mulher não delirava. Apenas indagou:
– Mas só hoje que vocês foram perceber isso? Hem?
– Pai, – a filha com ares de respondona – não é o senhor mesmo que diz pra gente nem olhar para as maçãs enquanto elas estiverem verdes?
Realmente. Só não poderia imaginar que sua filha o levava tão a sério. De qualquer forma, melhor assim.
– E não estão boas para comer ainda. – Virgínia reforçou.
– Mas o pêssego está! – Nicola tenta novamente convencer sua mãe.
– Só que ele pode apodrecer aí que você não vai, ouviu?, não vai encostar a mão nele! Mas que coisa...
– É... ele deve ter brotado aí mesmo, e como maçãs e pêssegos são verdes enquanto não amadurecem, só agora é que ele começou a se destacar dentre as demais frutas. – apesar de brilhante isso não resolvia o caso, tampouco satisfez a família Nogueira.
– Então, como é que faz? A gente joga isso aí fora, chama alguém aqui pra ver... – Virgínia não tinha esperado o dia inteiro para ter que resolver isso sozinha.
– Eu é que sei? – essa, Armando não sabia mesmo.
– Então você vai pensando aí porque nem a janta eu consegui preparar de tanta aflição esperando você chegar. – e foi entrando, com Arilena e Nicolinha à saia.
– Como “não tem janta”? – na verdade já tinha comido na casa da amante, só não queria perder o costume. Virgínia, menos por desconfiança que por irritação, taxativou:
– A gente só vai comer, seu Armando, com esse assunto resolvido. E lava essa mão antes de entrar.
Ele ficou lá fora fascinado, por mais de meia hora, com uma lanterna em punho. Quando estavam no meio da refeição é que foi sentar-se à mesa.
– Resolveu?
– É... acho que sim. – com expressão profunda.
– Me dá seu prato então, vai. – enternecida com o esforço do maridão.
– Depois eu como. Vou contatar um engenheiro agrícola. Essa árvore deve ser transgênica.
– Credo! Mas como isso? – parecia que tinha ouvido a palavra “assassina” vinda da boca do esposo.
Nicola perguntou o que isso queria dizer, Arilena bufou e o pai explicou ao pequeno que se trataria de uma planta que poderia ter tido a sua estrutura genética modificada. – Entendeu, filhão?
– E não pode comer, é isso? – sua sobremesa estava em jogo.
– Não, já falei que compro pra você, pára com essa idéia! Armando, fala pra ele!
– Bom, se pode ou não, eu não sei. O fato é que as maçãs podem ser transgênicas também. – dando um gole na limonada.
– E nós sempre comemos... – Arilena, sem tirar os olhos do jantar nem levantar a voz.
Virgínia tirou a mesa insatisfeita e todos dormiram com dificuldade naquela noite.

III


Por sorte ou por azar, o dia seguinte era um sábado que deveria ser integralmente dedicado à resolução daquele enigma. Quando o engenheiro agrícola chegou, nove e quinze da manhã, ficou perturbado com aquela anomalia.
– De maneira alguma pode se tratar de transgenia. É um procedimento muito complicado, além de tudo recente. E essa árvore já deve ter seus nove anos.
– Sete. Minha irmã que plantou quando eu nasci, tio!
– Bem, o que dá para arriscar aqui, ouviram: arriscar, é um caso de mutação, provavelmente em função da presença de algum material radioativo no solo. E mesmo isso é completamente descabido, só mesmo depois da análise... – e partiu para apanhar o fruto da árvore.
– Um instante! O que o camarada está fazendo?
– Vou levá-lo para que uma junta de químicos o analise na capital, não há o que se fazer daqui!
– Não, pensarei em outra coisa. – e afastou o engenheiro do pé-de-maçã.
– Estamos falando de um caso de interesse científico universal. Entenda que isso não pertence ao senhor nem a ninguém!
Com essa deixa o engenheiro, autoridade em transgenia, foi posto para fora com a promessa de que regressaria com autoridades cientificas competentes e o amparo judicial necessário para a desapropriação do “achado”.
– Não sei não, Armando... Era melhor a gente ter tirado logo daqui essa porcaria, agora a gente só vai arrumar pra cabeça! – e buscou o braço do marido para aconchegar-se. Armando, mais do que depressa, esquivou-se de Virgínia e ligou para o delegado, alegando a ocorrência de um crime no quintal de sua casa. Doutor Januário chegou com mais dois policiais, o que fez despertar a atenção dos vizinhos, peritos em intromissão.
Enquanto o doutor foi sendo levado até a macieira, os Nogueira foram tratando de tranqüilizar o delegado que não se tratava de um homicídio, nem nada disso, e mostraram-lhe o pêssego.
– Pois, seu Nogueira, o senhor fique sabendo que nem um cadáver, nem nas condições mais escabrosas, nunca foi capaz de me espantar tanto! – aceitou o café e os sequilhos, sentado a uma mesa posta ao lado da macieira.
– Doutor Januário, gostaria que essa área aqui fosse interditada pelo senhor e que fosse, com o seu perdão, simulado um tipo de crime ambiental para que eu resolva o que fazer com isso, sem a interferência de oportunistas.
– Compreendo, compreendo. – o delegado bonachão fez um breve suspense. – Será feito, sim. Mas entenda bem, seu Nogueira. Nada será simulado. De fato houve uma ocorrência e o que for possível será apurado, e protegido, obviamente.
Virgínia, nesse momento, constatou que era hora de chamar o vigário, padre Menelau, para saber o que Deus estava achando de tudo porque, entre os homens, as medidas estavam se tornando cada vez mais imprudentes a seu julgamento, ao passo que a resolução para tudo aquilo ia ficando distante, tão distante quanto aquela sua pacata rotina.
O padre veio voando, mas precisou ser trazido até a rua das Marmotas, número oito, pois sua idade avançada já começava a fazer mal para seu corpo mirrado, e nem por isso, menos ereto. Ah!, e um enfermeiro com medidor de pressão o acompanhava.
Ao contrário do que acontecia com todos, que estremeciam diante da falta de contexto daquele pêssego, o velho beato agigantou-se tanto no tom de voz quanto no vigor que arrebatou seu corpinho, uma “mera ferramenta de Deus”.
– É evidente que se trata de um sinal dos céus! – e abriu os dois braços. Dona Virgínia foi a primeira a persignar-se, com seus dois olhos prestes a se emocionarem. – Está claro para o senhor? Mas de que forma?
– É o fruto proibido do Éden! – não exatamente as palavras: a convicção do pároco fez todos os ali presentes aceitarem que estavam diante da prova de que “o homem nunca será o senhor dos mistérios da Terra”. Arilena franziu a testa:
– Mas o fruto proibido não era a maçã? –  em bloco, todos pararam de fitar o céu comovidos para fuzilar aquela inconveniência de garota.
– Minha filha, Deus escreve certo por linhas tortas. – sua mãe, querendo beliscá-la.
– Deus não precisa de explicação, dona Virgínia. E a senhorita – para Arilena – poderia voltar ao catecismo. Não acha, senhor Nogueira?
– Podemos falar disso noutro momento, padre? No momento, eu estou realmente muito ocupado em como impedir que os cientistas venham aqui e levem esse pêssego para analisar. Seria um furto, compreende?
– Cientistas... Não se aflija, meu filho. Agora mesmo vou tratar de localizar o Bispo e sugerir que ele venha em pessoa abençoar essa árvore. E que Deus não me leve antes desse dia!
– Como, padre?
– Que eu não morra antes disso, dona Virgínia. Posso até, quem sabe?, dar entrada num processo de beatificação em vida!
– Seria maravilhoso sim, uma bênção... – a senhora Nogueira não tão mais comovida com o padre.
– Pois muito bem. Já que os senhores estão todos do meu lado, vou pedir que não espalhem essa história e que nos dêem licença, para que  descansemos um pouco de tudo isso, já que, explicar, não é mesmo? – e sorriu.
– Seu Nogueira! – padre Menelau, advertindo a heresia. Armando, mais que depressa:
–  Explicar as coisas de Deus não é tarefa para o homem, padre. Por gentileza, me acompanhem.


IV


Todos se foram e o cabo Derlan ficou de campana para todos os efeitos. Dormiram muito bem e a paz parecia ter até se reinstalado na casa dos Nogueira. Acordaram cedo naquele domingo e tomaram o café da manhã demoradamente à mesa posta no quintal.
Entre um gole de café e uma passada de geléia conseguiam, com algum esforço, olhar para o penetra da macieira com afeição. Só Nicola, que mesmo tendo ganhado uma dúzia de “duraznos” chilenos para dividir com Arilena, continuava com o desejo de fartar-se com aquele pêssego, caindo de maduro, além de exalar um perfume tão presente... O cheiro de toda aquela caixa que foi comprada não foi nem capaz de se fazer notar perto daquele um que impregnava todo o pomar.
Enquanto almoçavam, porém, – torta de vagem com cordeiro ensopado e refresco de tamarindo – ouviram que uma procissão entoava ladainhas na calçada. É que o padre Menelau tinha aproveitado o sermão da missa de domingo para revelar que um milagre havia acontecido em sua paróquia. Donativos para a construção de uma nova igreja, semi-basílica, foram arrecadados e seguiram em romaria para a constatação do milagre.
Outrora, o aturdido lar dos Nogueira tinha ficado muito famoso na vizinhança, lá pelo início do ano, como já foi dito, por conta da queda de um balão atmosférico no quintal e, seu Armando e dona Virgínia, já tinham dado por encerrada sua relação com a palavra “fama”, indesejável, exclusivamente por transmitir às pessoas uma imagem de excepcional a uma casa de dois quartos, sala e cozinha, que de forma alguma condizia com a realidade. E eles não eram esquisitos! Só que o que se sucedia – por ironia, ou mesmo por coincidência – deixava a impressão de que haveria algo por trás de todos esses acontecimentos.
Interessante mesmo seria se tudo isso nunca tivesse acontecido a eles e, sendo isso impossível, lá estavam eles novamente conformados em conter curiosos e dar satisfação a jornalistas. O que não poderiam nunca prever é que aquele policial que o delegado escalara para ficar de plantão se faria tão necessário.
Os três muros do quintal – o da esquerda, o da direita e o de trás – começaram a ser pulados por crianças, mulheres grávidas, idosos, deficientes físicos e até por homens de respeito na cidade atraídos, enfeitiçados pelas fabulosas notícias que se proliferaram de boca em boca, como a de que havia uma serpente bíblica enrolada à macieira, segurando o pêssego com a boca e, sendo esse pêssego do tamanho de uma melancia, que se imaginasse o tamanho da serpente, ou que fora trazido de Vênus pela mini nave espacial que caíra lá no início do ano e que, a propósito, não era um “balão atmosférico coisíssima nenhuma”, dentre outras tantas menos imaginativas.
Os invasores nem tiveram tempo de vê-lo com seus próprios olhos pois que o cabo Derlan atirou para o alto quatro vezes, mais pelo “instinto da guarda” simplesmente do que por zelar pela integridade física do que quer que aquilo fosse, fazendo quebrar dois vitrôs, acertar e matar um pardal que voava por cima dali, e o mais importante: conseguiu afugentar oitenta por cento dos invasores. Os outros vinte só saíram do transe depois de terem sido alvejados de raspão pelo guardinha, baixinho e bravo.
O rumo dos acontecimentos não poderia ser mais indesejável para os Nogueira, que só queriam de volta seu sossego. E, paralelo ao que ia se sucedendo no quintal, na rua das Marmotas todos estavam em grande número, prostrados pelo mesmo motivo.
Homens de imprensa vieram chegando acompanhados de autoridades vindas da capital, com aval científico para interditarem aquele metro quadrado correspondente ao pé-de-maçã que carregava um pêssego.


V


O vigário pediu a atenção de todos com um gesto largo, subindo numa caminhonete estacionada na rua das Marmotas. O enfermeiro fez menção em acompanhá-lo, mas foi impedido pelo próprio Menelau que, agigantando-se, exclamou:
– Homens e mulheres de Deus! Parai, deixai de lado as vossas meras mesquinharias e ambições ordinárias para curvarem-se diante da mensagem-mór. O grande Pai conseguiu reunir muitos de seus filhos e filhas aqui hoje. Ele tem Seus motivos e precisamos limpar nossos corações para ouvi-Lo! – olhou para o céu e todos o seguiram em silêncio.
O esperto Nicolinha aproveitou o descuido de sua mãe – que mirava o céu, descrente – e correu para o quintal. Instantes depois, cabo Derlan estava ao lado de dona Virgínia, ofegante, com a arma em punho.
– Pois não, senhora? – munindo o revólver, calibre trinta e oito.
Ela ia perguntar o por quê do “pois não?”, sendo que não o havia chamado, quando o gigante de batina tirou do bolso uma folha de papel e cochichou para o enfermeiro: “Quando eu der o sinal, passe a sacola de donativos”. Pigarreou e bramiu seu discurso:
– Fundemos, em nome de Deus, a mais nova congregação neo-católica: “a Igreja do Fruto Redentor”! Entremos nesse quintal e oremos em prol de nosso agradecimento à “Nova Sede”!
– Perdão, padre. Mas com que fundamentos e com que permissão o senhor toma essas liberdades?
– O fundamento é claro para qualquer cristão, seu Nogueira. O fruto divino está justamente na árvore dos frutos proibidos, que é a macieira. A metáfora de que Cristo está entre os homens pecadores é óbvia; claramente, trata-se da “Terceira Visão de Fátima”, que veio para redimir o pecado original de toda a humanidade.
– Entendo. Só que eu sou o dono do quintal e a árvore foi plantada por minha filha, aqui... – foi interrompido pelo padre.
– Um aleluia à nossa senhorita... Qual é seu nome, anjinho?
– Arilena.
– Um aleluia à “Nossa Virgem Santíssima Senhorita do Fruto Redentor”!
– Aleluia! – acompanhou a maioria.
– Mas, pai, eu não sou santa. Eu não quero ser freira!
– Mas é claro que não! E, seu padre, o senhor fique sabendo que ninguém vai se aproximar daquela árvore, nem o Bispo! Nem o senhor, nem os cientistas e nem os repórteres vão entrevistar minha filha nem se aproximarem da macieira. E, para todos saberem, minha decisão está tomada. O pêssego, do mesmo modo que apareceu, vai desaparecer sozinho: caindo, apodrecendo e voltando à terra! Pronto, é isso.
– Ora, vejam, fiéis devotos de “Nossa Virgem Santíssima Senhorita do Fruto Redentor”! Como nos primórdios, mais uma vez, Adão se julga proprietário do Éden! – e gargalhou, sendo seguido por um e outro, recebendo os donativos do enfermeiro.
– Pouco importa. Na minha casa vocês não entrarão. E tenho um policial, deslocado pelo próprio delegado da cidade, que está fazendo a escolta da árvore neste momento! – seguro de si.
– Estou voltando pra lá, senhor Nogueira, agora mesmo... – o cabo Derlan, sem graça e a pé-de-ouvido.
– “Vox populi, vox Dei”! – traduziu em seguida o padre Menelau – A vontade do povo é a vontade de Deus! Vamos conquistar nossa “Terra Santa”! – pulou da caçamba no colo do enfermeiro.
Parecia que um rebanho desgovernado adentrava aquela garagem. Quebraram o portão e arrombaram a portinhola que dava acesso ao quintal.


VI


Dona Virgínia, durante aquele bate-boca entre Armando e o padre, sentiu algo estranho e correu para o quintal, sem que ninguém percebesse, momentos antes do estouro da enxurrada de gente que invadiria a parte não-construída de sua casa em seguida.
– Nicolinha! – empalideceu.
O garoto mentira ao guarda que sua mãe pedia reforço por estarem tentando levar o seu Armando preso. Tão logo o cabo Derlan foi para a rua, Nicola pegou seu cavalinho-de-pau e tentou acertar o pêssego para que ele caísse. Não conseguiu. Pegou então o banquinho, descanso do guarda, o carregou com dificuldade e o pôs justamente debaixo do fruto, o motivo de agitação para suas lombrigas. Ficou na ponta dos pés. Desequilibrou-se. Tentou novamente, apoiado no gosto que viria a provar dali alguns instantes, e conseguiu! Suas mãozinhas de moleque curioso tremiam e suavam; sua boquinha salivava muito e só não babou por ser um menino de modos.
Sentou-se no próprio banquinho que o ajudara e deu a primeira mordida. O caldo que escorreu certamente viria a manchar sua camiseta. Quem disse que ele se importava? Comia com a casca mesmo que, aliás, parecia estar salpicada de açúcar de confeiteiro, de tão doce. O tempo parou, só para ele. Mastigava tão devagarinho cada naco! Sua mãe ficaria orgulhosa de não estar engolindo, como tinha costume.
Deu uma risadinha quando sentiu que um fiapo enroscou no seu dentinho frontal recém-permanente, e riu um pouco mais quando pensou em sua irmã, Arilena, que o intimidara pela manhã:
– Sou mais alta que você. Se eu quiser, eu alcanço!
Limpou o nariz molhado de néctar na manga da camiseta velha, cheirando à amaciante de roupas e colônia infantil, e partiu para a terceira abocanhada. Deu para enxergar o caroço. Era um caroço simpático, que gostava de ser caroço; não tinha aquela cara mal-humorada e azeda dos que vinham dentro dos “duraznos” chilenos, nem dentro das ameixas natalinas. Teve certeza de que era um caroço que germinaria fácil, fácil em qualquer buraco, caroço sem frescura.
Dona Virgínia ficou muda. Era como se acontecesse o suicídio assistido de seu caçula varãozinho em sua frente. Ela vinha em sua direção o mais rápido que conseguia, só que, para Nicola, era uma caminhada inofensiva e em câmara lenta. Ele a olhou nos olhos e levou sua mão direita à frente, oferecendo à mãe o último pedaço. Virgínia fez que “não” com a cabeça tensa e o semblante aflito, ela nem mais pensava em impedi-lo de comer aquele veneno. “Somente um último abraço em vida, é o que eu peço”. – mentalizou, colocando sua fé a toda prova.
Nicola comeu então o último bocado da polpa do pêssego e chupou o caroço. Virgínia não conseguia alcançá-lo, suas pernas não a obedeciam.


VII


O mundaréu de gente irrompeu o quintal, liderado pelo padre Menelau, e tendo à frente seu Armando com Arilena ao colo. Viram Virgínia ajoelhada, a uns seis metros do garoto, rezando. O sol, que se punha justamente atrás da macieira, deu um toque aureolar à cena.
Religiosos persignaram-se e se ajoelharam, os cientistas escreviam relatórios e jornalistas fotografavam a árvore e o garoto, dizendo o que estavam vendo aos gravadores. O delegado Januário, que acabara de chegar, mais o cabo Derlan, e ainda os que estavam camuflados à paisana, relaxaram suas armas.
Nicolinha, então, ficou em pé no banquinho com o caroço, agora na mão esquerda, levando acima de sua cabeça, como se soubesse que a luz poente que vinha de trás o faria dourar como ouro.
Simultaneamente, disseram:
– Me dá ele aqui, meu filho! Você vai pro céu se fizer isso. – o padre.
– Dá pro tio aqui, dá? Quer um telescópio em troca? – um cientista.
– Aqui, pra câmera, garotão! Pra sair na capa do jornal... – a imprensa.
– Acaba com isso logo, rapazinho... Pela ordem! – o delegado.
O garoto olhou para todos, um por um. Sua serenidade diante de todo o rebuliço foi tão comovente que fez a aflição de dona Virgínia virar ternura, a inveja de Arilena se tornar admiração e a bronca de seu Armando deu lugar à singela lembrança de sua própria personalidade, quando criança: “Esse garoto vai dar trabalho”!
Nicolinha abriu o bocão e estava soltando o caroço de seus dedos quando uma esfomeada araponga, aquela que já rondava a macieira havia algumas semanas, num vôo rasante, tirou o que sobrou do pêssego de sua mãozinha com suas garras e perdeu-se no sol que se punha, fazendo até lembrar a mitológica ave Fênix, para quem quisesse enfeitar a história.
O fato é que, com o baque daquele assalto, o garotinho caiu do banquinho, abriu o berreiro e foi socorrido por sua família, imediatamente. O vacilante enfermeiro ameaçou oferecer ajuda, mas a enxurrada de gente esvaziava o quintal e ele foi carregado até a dispersão, na calçada da rua das Marmotas. Esperou até que a maioria das pessoas se fosse e estava quase tocando a campainha para prestar socorro, quando caiu em si e foi cuidar de sua própria vida.
Na segunda-feira pela manhã, Armando recebeu o jornal e lá estava a foto do filhão, para o tormento de Virgínia, mais um pomposo texto que terminou assim, com a leitura debochada de Arilena: “... e aquele que apanhou o fruto da árvore e não desperdiçou a chance de provar o seu gosto, foi o garoto Nicola Nogueira, que ficará para sempre na lembrança de nossa região”. Mentira.
É verdade que os Nogueira ainda haveriam de ser abordados pela cidade por mais uns dias, comentados em reuniões durante alguns outros meses, mas só. Cupins misteriosos acabaram por devorar todos os exemplares impressos daquela edição, o tempo cuidou de trazer de volta a Nicolinha o seu anonimato e a Vida, saciada desse enredo, devolveu a paz para todos, dando a história por encerrada.

Marcos Baô
Enviado por Marcos Baô em 18/08/2005
Reeditado em 18/08/2010
Código do texto: T43379

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Sobre o autor
Marcos Baô
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
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Marcos Baô