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Depois da dor, a vinganša!

Aidê não percebeu de cara a gravidade do assunto. Muita gente envolvida na história e pouco a se fazer para mudar alguma coisa. Mesmo não entendendo de finanças, o bilhete que seu marido deixou dispensava maiores esclarecimentos:
“Cuide da sua vida. Pense assim e a justiça sempre estará do seu lado”, e fugiu sabe-se lá para onde com uma senhora retirada de dinheiro das contas conjuntas. E sem levantar suspeitas, tanto que ao invés de sentir raiva, sentiu culpa. “Burra...”
Uma viúva rica que confiou a fortuna a um administrador de empresas formado fora do Estado e com muito tino para os negócios. A primeira avaliação que ele fez da situação econômica do país inebriou-a de tal forma que decidiu que se casaria com aquele geniozinho. No primeiro mês, convenceu-a de vender todas as propriedades e a aplicar o dinheiro. No terceiro estavam assinando pela mesma conta e, perto do Natal, isso: roubada.
Sem vontade alguma de se expor à fragilidade, não procurou a polícia. Juntou suas muitas jóias, vendeu todas e passou a tramar, sim, passou a tramar vingança.
Azedou seu humor. Mudou-se para um apartamento de um quarto e foi procurar emprego de secretária, imaginem, numa universidade.
– Tem experiência?
– De vida. E falo três línguas. Ah, e tenho datilografia.
Estava empregada. Na hora dos intervalos era a única do corpo dicente da faculdade que descia à cantina para lanchar entre os jovens. Belos rapazes... “Aprendizes de vigarista!”, resmungou com um croissant entre as mãos.
Na hora da saída ficava no portão à espera de uma certa linha de ônibus demorada, um pretexto para ver até o último que ia embora. Dois bimestres se passaram até a primeira carona. Um moço, noivo, que não suportou ver aquela senhora cheia dos papéis e que se esgueirava dos pingos como podia, sem guarda-chuva.
Chegando em seu prédio, ele fez questão de ajudá-la a subir com o peso e deixou o pisca-alerta ligado de seu carro esporte, preto e metido à besta. Assim ficou até que acabasse a bateria, pois Renato Soares de Camargo só conseguiu sair de lá muito pela manhã, saciado em possuir a secretária de sua faculdade três vezes na noite e duas ao se levantar, pobrezinho, sem saber onde estava se metendo...
Aidê só não sentia-se mais vitoriosa porque já contava que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde, era apenas uma simples questão de tecer sua teia. Mas não imaginou que se encantaria tanto com a presa... Agora, surpreso mesmo, ficou o rapaz com a boa forma da coroa, e com a realização de uma fantasia que nunca fantasiou.
No decorrer dos dias, Renato decidiu terminar seu noivado e logo que fez isso, comunicou à secretária, forjando às colegas da secretaria que queria ter com Dona Aidê para marcar uma prova substitutiva de Estatística. “Vocês dois romperam? Nada disso. Volte com ela amanhã mesmo. Seja pai e o escambau. Eu quero sexo”. Renato endoideceu. Arrastou Aidê para a enfermaria e prometeu que nunca... ela o calou com seus dedos vermelhos de esmalte.
Um dia sem chuva, Renato deu as três voltas no quarteirão como combinado e quando aproximou-se da sarjeta, viu Aidê com cara de santa abrindo a porta de um conversível importado. “Vaca velha”... Seguiu o carro. O destino era o mesmo esconderijo de suas perversões.
Um senhor, aluno do terceiro ano, fez questão de abrir a porta para que a digníssima secretária saísse. Despediram-se e o senhor arrancou cantando pneu. Renato juntou-se por trás daquela ordinária pelancuda para torcer o seu pescoço, mas só conseguia soluçar que a amava. Era sexta-feira.
Subiram se descabelando pelo elevador e, mais tarde, enquanto as notas vermelhas de Renato eram adulteradas no diário escolar, Aidê resolveu contar-lhe tudo: o que aconteceu com ela, sua vida desgraçada e seus planos de vingança. Renato ficou mais excitado ainda e não se opôs. “Meu pai morre logo, minha mãe é uma sonsa e eu sou filho único. Devolvo tudo o que esse pilantra roubou de você.”
Transaram entre formulários e processos, até que às sete e meia da manhã do domingo, Aidê ligou a TV no “Pequenas Empresas, Grandes Negócios”, os dois não perdiam um, olha a coincidência. “Eu te amo meu querido. Agora, vamos descobrir como investiremos o Nosso dinheiro”. E entre lanhos e luxúrias acordaram sociedade nos termos mais detalhados.
Marcos Ba˘
Enviado por Marcos Ba˘ em 18/08/2005
Reeditado em 11/12/2006
Cˇdigo do texto: T43494
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Sobre o autor
Marcos Ba˘
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
26 textos (2503 leituras)
(estatÝsticas atualizadas diariamente - ˙ltima atualizašŃo em 08/12/16 00:10)
Marcos Ba˘