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Mulher, carne e osso

Mesmo se fosse abandoná-la de vez ou tivesse enlouquecido por completo, ele voltaria ao menos para fazer a última refeição do dia com ela. “Não vai longe de barriga vazia”, previu baseando-se no comportamento dos machos, que sempre julgara previsível.
Pela demora, ela constatava que ele arrumara algo pela rua mesmo para distrair a fome que ela bem conhecia: não se contentaria com qualquer coisa por muito tempo, por isso mesmo nem se desesperou. Mas teve de admitir que a ausência dele nunca a deixava tranqüila. Estava próxima a hora de se deitar, porém, trancar à chave a porta iria enchê-la de remorsos e, todavia, o perigo de deixá-la aberta não a permitiria dormir em paz tampouco.
Sendo assim, manteve a luz da área de entrada acesa, que somente costumava apagar quando chegavam o pão e o leite do dia seguinte, e o aguardou solene, sentada em meio à penumbra da sala, valendo-se apenas de uma pequena manta para as pernas frias e a grande certeza do seu retorno para o coração aflito.
Ouviu um barulho lá fora e mesmo sabendo que não era ele, juntou-se de sobressalto à cortina da janela, que abriu-fechou com suas mãos agitadas e que pareciam estar suando nesse momento, principalmente por se conscientizar que passava das vinte e três e, dali a pouco, um outro dia surgiria sem o alento de sua presença. E apesar de seus passos firmes e do modo como ele insistia pular o pequeno portão fossem inconfundíveis, a cada folha de amendoeira que tocava o chão era como se ela teimasse em abrir o chuveiro elétrico sem estar calçada e tomasse um choque, pelo modo como seu corpo pulava sem que conseguisse evitar.
O sono foi ficando distante, no entanto mais e mais desejado, imaginou que seria esta a melhor forma de ser recompensada depois de já ter quase sacrificado sua esperança, que até aquele momento mantinha-se vigorosa, mas que começou a titubear dali pra frente.
Talvez alguns telefonemas que desse pudessem aliviá-la mas, inegavelmente, acabariam por expô-la a uma situação da qual viria a se envergonhar na mesma proporção, o que na prática fez congelar qualquer iniciativa que denotasse emergência. Não era para tanto, mas ela já tentava se recordar de uma oração de Santa Mônica que, por não recordar bem os versos, punha no lugar outros tantos que inventava na hora e, nesses sim, ia conferindo ardor na pronúncia de cada palavrinha.
O engraçado, se fosse possível observá-la, era a maneira como manipulou o pedido daquela reza, trocando a vontade de rever aquele ingrato por, curiosamente, ter de volta o sono dos justos, que achou além de mais digno, um direito tácito por ser ela uma boa filha de Deus, em dia com suas integridades.
E ele, mesmo sendo um pastor bom e dos fortes, não resistiu aos ferimentos decorrentes de uma briga na rua e morreu minutos depois de ter deixado sua casa, visivelmente descontrolado – sua boca até espumava de raiva. Seu temperamento estava insuportável e ela parecia prever que o pior tinha acontecido.
Quando foi escolher a roupa que vestiria de manhã para procurá-lo pela redondeza, deteve-se num vestido preto que usara uma só vez quando, três anos antes, tivera enterrado um marido – a pessoa que mais amou em toda a vida, e por quem mais sofreu também. Julgou que para usar aquele vestido mais uma vez significaria ter de enterrar a um outro marido e que isso simplesmente não tinha chances de acontecer novamente.
Cochilou e acordou com o grito do leiteiro, denotando que era a hora de botar a mesa para o café da manhã. Não se exasperou, espreguiçou-se, tomou um banho e vestiu uma roupa até que alegre, contrastando com o que sentia interiormente. Pôs a mesa: uma xícara, uma só porção de frutas e uma só fatia de pão colocou para tostar, com manteiga. Agia normalmente até então. Lembrou-se de um remédio que ficou de comprar para ele e deixou a casa torcendo para que, quando regressasse, ele estivesse de volta.
Estava com olheiras profundas e prometeu a si mesma que não perderia muito tempo com quem quer que fosse que encontrasse pela rua, e assim não cair na tentação de acabar perguntando sobre o seu paradeiro; achou que essa era uma preocupação íntima demais e a mais ninguém caberia partilhar dela.
Entrou na quitanda. Comprou abacaxi e maracujá. Verduras e legumes ela não levou porque sempre apodreciam sem que ela nem ele chegassem sequer a tocá-los. Já no açougue, esbaldou-se. Levou carne moída, miúdos, até uma surpresinha o bondoso açougueiro havia separado para o pastor, o que acabou fazendo com que ela derramasse uma lágrima enquanto guardava tudo em sua cesta, que era ele quem costuma carregar para ela.
Parou para descansar na praça e o sorveteiro notou que ela não estava sozinha por vontade própria. Ela comprou o mesmo picolé de creme e não teve com quem dividi-lo desta vez. Respirou fundo e se indagou seriamente se sua vida solitária era mesmo uma opção ou uma incapacidade de manter por perto aqueles por quem chegava até a perder o sono, de tanto que gostava.
Lembrou-se do remédio e se esqueceu em seguida, preferiu comprar com aquele dinheiro um disco bem animado que lembrasse seus primeiros namoricos e bichinhos de pelúcia. Saiu da loja decidindo que não deixaria mais que a vida de quem quer que fosse importasse mais do que seus prazeres, há muito tempo delegados a segundo plano.
Chegou em casa e deparou-se com o médico veterinário que estava à sua procura. Ele nem quis entrar, apenas entregou-lhe a fatura do atendimento de emergência dispensado ao pobre cãozinho – todo estropiado – sem sucesso algum e oferecia o incineramento do pastor alemão por mais cento e cinqüenta. Antes que comessasse a chorar e desistir de ouvir seu disco novo, deu-lhe a quantia exata e pediu para que desse fim também ao pacote que trouxe do açougue para ele.
– Que ironia, senhorita. Ele morreu por disputar um osso, pelo que disseram...
Dispensou o veterinário que, ou impressão sua, ou a estava consolando com afeto demais para seu gosto; também, o tom macio com que recusou o pagamento e ofereceu apoio, fez com que ela desconfiasse de suas intenções, bem como as de todos os machos que passaram por sua vida.
– Vocês todos não passam de uns famintos, isso sim! – e bateu com a porta na cara do bonitão.










Marcos Ba˘
Enviado por Marcos Ba˘ em 19/08/2005
Cˇdigo do texto: T43780
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Sobre o autor
Marcos Ba˘
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
26 textos (2501 leituras)
(estatÝsticas atualizadas diariamente - ˙ltima atualizašŃo em 07/12/16 09:17)
Marcos Ba˘