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Banho

Acordei como todo mundo acorda. Estava confuso e a luz, com aquela claridade ofuscante, embaralhava meus sentidos. Sabia ter que abrir a porta. A campainha não me deixava esquecer isso. Levantei trôpego. Consegui me arrastar pelo ar, tateando e abrindo meu caminho. Girei duas vezes a chave, não sem antes tentar algumas vezes a colocar na fechadura.

O vão estava aberto e ela poderia entrar agora. Dei meia volta e caminhei em direção ao meu travesseiro. Sim! Lembrei. Estou de ressaca. Cansado, passando mal. Dou mais alguns passos e desabo. Manter o corpo inerte é minha única preocupação.

A mente, a garganta e o estômago são uma única coisa. Um instrumento de tortura. Qual preciso agüentar. Deitado ou em pé, não tem diferença. Pisco o olho como se fossem 2 segundos, mas passaram quarenta minutos.

Uma torrente de água quente relaxava um pouco as minhas costas. Enquanto minha vida escorria pelo ralo e com o sabonete eu limpava as impurezas que ficam impregnadas, essas bem complicadas e difíceis de tirar. O banho ia demorar.

Coloquei-o na saboneteira e fiquei ainda sendo acariciado pela grande seqüência de gotas consecutivas caindo do chuveiro. Pensando, tentando não pensar. Ressaca, o corpo todo doído. Causa e conseqüência. Normal.

Olhei para o sabonete. Tinham algumas bolhas, totalmente anormais. Cheguei mais perto, devido à miopia. As bolhas tinham textura de pele. Pedaços de carne ali depositados. Olhei para o chão, meio assustado. Estava vermelho. Um vermelho misto com o calor, que agora, subia por minhas costas.

Tremi e constatei que a coisa estava em meu pescoço. Algo subia e nada podia fazer para impedir aquilo de acontecer. Tudo se escurece e saio do banho correndo. Arrebento a porta e caio no banheiro. O bidê nunca esteve tão perto.

Apoiei-me na pia. Levantei e dei de cara comigo mesmo no espelho.Sulcos marcavam minha pele e se eu quisesse poderia descascá-la com a unha. Irritava-me profundamente. Coçava.

Eu estava ali trocando de alma, mas o que minha pele tinha a ver com isso? Corri para fora do banheiro. Sentei-me no corredor. O sangue ia se esparramando como que conquistando um espaço seu por direito.

Desesperado eu fechei os olhos e adormeci. Sentado no corredor. Estava frio e eu estava molhado. Acordei com as coagulações já estabelecidas. Uma nova camada me cobria e minha alma fora lavada.

Estaria a alma diretamente ligada ao corpo? Depois de toda essa troca, penteei meu cabelo, pus minha roupa e fui tomar café da manhã. Fui ser como sempre fui, mas com essa mudança. Não sei ainda o que mudou, mas foi impactante.

No fundo foi ótimo. Mudar, renovar, lavar. Meu banho matinal. Adoro-o.
leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 05/09/2005
Código do texto: T47735
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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leandroDiniz