Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Trajetória de uma beata orando na Igreja

Trajetória de uma beata orando na Igreja

(Ajoelhada diante do altar principal)
- Pai nosso que estais no céu... Ah, meu pai! Olha para esta pobre criatura, tua filha. Tão sofredora. Desde pequena só sabe sofrer. Sou tão boa religiosa, ajudo todo mundo...
        - Santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino... Sou tão infeliz, tão infeliz... Quase sempre tive de trabalhar para viver. Meu casamento foi uma droga, uma infelicidade... Dos filhos, todos afastados, então, nem se fala. É cada um por si. Não vale a pena ser mãe... são todos uns ingratos. Ninguém me cuida...
       - Venha a nós o vosso reino... É, meu Deus, sou uma desamparada pela sorte. A pensão que ele, o ex, me manda e a minha aposentadoria somam tão pouco, não dá pra nada. A casa até que é grande, mas ninguém quer morar comigo. Vivo sozinha. Veja o senhor, sempre fui boa mãe  e boa esposa. Mas os filhos todos são uns egoístas, não reconhecem os sacrifícios que uma mãe faz por eles.
- Seja feita a vossa vontade... O Zezinho, quando quebrou a perna, ao subir no telhado para trocar uma telha, levei-o ao hospital. Ficou com defeito, depois, mas a culpa não foi minha, foi dos médicos. Mandar fazer tratamento tão longo, tantas fisioterapias... Como uma pobre mulher que cuida da casa e dos filhos poderia levá-lo, sempre. Os médicos são todos uns incompetentes!
- Assim na terra como no céu... E a Júlia, sempre namoradeira. De nada adiantava as surras. Hoje era um amiguinho, amanhã, outro. Apanhava e aí vinham me contar que a tinham visto conversando com um rapaz. Era na escola, no ônibus, na missa. Só me deu problemas e incomodação. Ainda bem que agora sossegou. Não sei nem se devia ter permitido que ela vestisse branco, véu e grinalda e com florezinhas de laranjeira e tudo. Essa, então, nem se fala, quase nunca aparece. Ingrata!
- O pão nosso de cada dia nos dai hoje... Por falar em pão, como se pode viver, com o preço do pão, do leite e da comida? Esse mundo é uma injustiça só. Outro dia, a Luizinha, minha filha caçula, trouxe um pão que ela mesma fez, no dia do meu aniversário. Claro que os presentes que ela me trouxe, também, não eram lá grande coisa. Mas, enfim, fazer o quê? Não é mais do que obrigação dela me dar coisa melhor? E o sapato que ela me deu ainda por cima não foi do meu gosto, muito baixo e meio fora de moda. O vestido de seda que o Pedrinho me deu não combina com nada que eu tenho.
- Perdoai as nossas dívidas... Dívidas, eu não tenho. Compro quase tudo à vista e, Senhor, pegar umas frutas... ou um pão... ou um saco de biscoitos, no supermercado, sem pagar, para uma pobre mulher como eu não é pecado, não é mesmo? Esses empresários têm tanto... muito mais que eu... E o dinheiro que os filhos me emprestam, depois de eu muito implorar, se eu não pagar também não é pecado. Eles me devem isso. Não posso mexer no dinheiro que ganho e junto. E a minha velhice? A minha viagem anual? Não posso dispensar as águas termais. Como ficaria minha pele? E os meus ossos? Sou tão doente. Os filhos devem ajudar e cuidar da mãe. O senhor está sendo injusto comigo. Sou uma pessoa de boa índole.
       - Assim como nós perdoamos nossos devedores... Imagine só, eu que sofro tanto, sou tão doente. Como é que o senhor faz isso comigo? Tinha de fazer as outras pessoas me ajudarem. Até o gato da vizinha, agora, deu para entrar no meu pátio. E sou alérgica a pêlo. Qualquer dia, dou um fim nele, como já dei no cachorro. Rezo sempre, vou sempre à missa aos domingos e às sextas-feiras. Aonde vou, levo meu livro de orações. Não, Deus, eu não mereço isso. Tu também és um mal-agradecido.
       - Não nos deixeis cair em tentação... Não és capaz de levantar um dedinho para me ajudar. Por mais bilhetes que eu compre, por mais que eu jogue na loteria, tu não és capaz de nada... não me fazes ganhar um milhãozinho que seja. O que eu ganho, de vez em quando, não dá para nada... tu só me maltratas. Nem um homem, um namorado, pelo menos, para ajudar a me sustentar, tu não foste capaz de conseguir. Definitivamente, tu não mereces as minhas orações. Rezo por todos os conhecidos, pelos filhos, até pelo meu ex-marido com a outra. Quando estou mal, doente, alguém se importa comigo? São só migalhas. Tu me exiges, me cobras, me exploras mesmo, não é Deus? E nada. Idiota que eu sou. Rezo, faço tudo pelos outros, sou boa com todos, até com os bichos. Até a ti eu me dedico. E nada. Hoje, tu não mereces mais nem uma precezinha minha. Meu rosário, vou guardar. Desde agora. Olha o que faço com ele. Pronto, na bolsa. Só vou pegá-lo e rezar de novo se prometeres me amparar. Duvidas? Pois não ponho mais os pés nesta Igreja. Nem em outra qualquer. E se duvidares muito, sou capaz de estraçalhar meu missal e jogar fora meu rosário e ainda te rogo uma praga. Não vai adiantar tu me procurares, depois. Não quero mais saber de rezas, igrejas, nem de ti, nem de porcaria nenhuma de santo e água benta.
        - Mas livrai-nos do mal, amém. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém.
(Levantando-se para sair)
- Ai, que dor nos joelhos. Esses bancos são duros. Droga! E essa pia não tem nem água benta! Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém.
(No corredor, saindo)
- Além da dificuldade que tenho para ajoelhar-me, este chão ainda está cheio de areia, e olha só este tapete, todo puído!
(Ajoelhando-se)
- Imagine se eu fosse tão gorda, assim como dizem, de verdade. Nunca mais levantaria, e meus joelhos já estariam achatados. De amanhã em diante, não ajoelho mais em bancos e chão duros. Só em almofadas. ...do Espírito Santo, amém. Danem-se a igreja e os padres. Só me exploram. Sempre pedindo dinheiro. São todos uns ladrões e aproveitadores. (Procurando na bolsa) Onde está aquela moedinha de dez centavos? Droga! Todos os padres, freiras, pastores e o raio que os parta!
(No corredor lateral)
- Que bela estátua de Cristo é esta! Jesus, não adianta tu me olhares daí de cima com esse olhar de mártir, de cachorro abandonado. Tu não me convences mais. Fica aí nesse teu canto que eu fico no meu. Jesus, pelas tuas chagas, santifica-me, amém. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém. Alguém beijou essa imagem antes de mim e está toda babada! Que nojo!!!
(À porta principal)
- Bom dia, padre, precisa de ajuda para hoje? (Andando atrás do padre) Para consertar algumas coisas suas? Não? Nem para limpar os cálices? Não? E os seus paramentos e toalhas brancas do altar? Não? Tudo em dia, então? Sim? (Que bom!) Mas tem certeza de que não precisa de nada mesmo? Não? (Que ótimo!) Até mais tarde, então, padre, na missa das seis.
- Padre presunçoso! Só porque é jovem, e as mulheres acham ele bonito, a Igreja se enche de fêmeas no cio. Pensa que vou também me atirar em cima dele. Convencido! Minha nossa! Como fui me esquecer??? (Correndo) Padre, padre! Um momento, aceite esta florzinha para colocar junto ao Cristo no seu quarto. É dada de coração. (Que mãos!! E Santo Antônio que me perdoe, mas tem tantas flores, uma só não ia fazer falta. (Dedos finos, longos, unhas aparadas, pele branca... Parece mão de mulher!) Como é que elas podem cobiçá-lo? São  umas assanhadas, isso, sim.
        (Novamente, à saída, frente a outra imagem)
- Ah! A Santa Rita! Minha querida santinha, olha por mim. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém. Ave Maria cheia de graça... Dizem que não se deve rezar para ela. Foi tão infeliz, a pobre, tão sofredora... Acho que é por isso que sofro tanto...
...o Senhor é convosco...

Lizete Abrahão
Enviado por Lizete Abrahão em 08/09/2005
Reeditado em 26/08/2008
Código do texto: T48569

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Lizete Abrahão
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
89 textos (3325 leituras)
5 áudios (129 audições)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 09:46)
Lizete Abrahão