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OS TRÊS MILAGRES

    Num dia de semana, esperando uma condução para dar início a uma nova jornada de trabalho, avisto a uns quinhentos metros um homem, por volta de seus quase quarenta anos, carregando em seus braços fraternais uma criança de mais ou menos cinco anos. Minha visão se detinha entre o ônibus que eu esperava e este senhor que se aproximava do ponto de parada andando cada vez mais lento, com aquela criança que não parecia ser nada leve.

    A uns dez metros, percebi a causa de tanto esforço, pois se tratava de uma criança especial, numa outra forma eufemista de se descrever: esta criança não tinha coordenação motora o bastante para andar durante tanto tempo.

    O homem não estava com uma aparência de revolta por carregar aquela menina, pois, expressivamente, demonstrava um grande amor por esta pequena, e o amor remove o maior dos obstáculos. Acontece que no mesmo momento de sua chegada ao ponto, chega também seu ônibus. Ele, então, faz sinal quase que tardiamente e o condutor, para variar, pára o mais longe possível.

    Vejo-o correr desesperadamente para a porta de acesso da frente, porém, acontece o inesperado: a porta de trás se abre. E num reflexo de deixar sem ação qualquer mocinho de cinema, e com medo do motorista dar a partida precipitadamente, este cansado homem entra pela porta de trás deixando muita gente indignada.

    "Mais um espertinho", disse uma jovem mulher. "É na porta da frente!", disse outro com cara de absoluto.

    Eu estava do lado de fora, mas próximo e vi muitas pessoas "cheias de razão", interpretando egocentricamente seu ato, aparentemente vil.

    Acontece que um homem mesmo no deserto e com uma flor entre as mãos pode demonstrar sua boa conduta com um pequeno milagre, e foi o que aconteceu. Em frações de segundos e antes do veículo continuar a sua jornada, um ambulante, destes que se infiltram tudo em qualquer meio de transporte, apareceu entre a multidão de gente que se acumulava dentro daquela "lata de sardinha" e veio até aquele homem visivelmente abatido, oferecendo-lhe que levasse o vale-transporte que já estava em suas mãos até ao trocador.

    Neste ir e vir, e com um sorriso na face que demorava a desaparecer, o rapaz disse que já estava entregue despreocupando o homem. E assim vi o segundo milagre: um trabalhador, destes que ficam em primeiro na fila do ponto final, que estava sentado na sua frente cedeu generosamente o lugar.

    Não bastando de tantos imprevistos, Deus consentiu o terceiro e maior milagre conseguindo a mudança das pessoas ao seu redor. Algumas trataram de desconversar, outras viraram o rosto parecendo dever alguma coisa e outras simplesmente abaixaram a cabeça teatralizando um sono estranho e repentino.

    O ônibus se foi e aquele homem com sua atitude impetuosa ensinou-me algo deveras importante: percebi que as pessoas nunca devem perder as esperanças, pois se com este humilde homem aconteceram três milagres consecutivos, o mundo não pode estar realmente perdido.
Milton Roza Junior
Enviado por Milton Roza Junior em 12/09/2005
Reeditado em 03/06/2011
Código do texto: T49837

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Sobre o autor
Milton Roza Junior
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 49 anos
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Milton Roza Junior