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Desabafo


         
Faz três meses que eu chutei o balde. Não dava mais: muita cobrança, muita pergunta, muita reclamação: uma prisão. Ficamos casados 4 anos. No início a gente acreditava que amar era: eu só vou onde você for; se você ficar eu não vou! Isso não é amor, meu irmão, é um pacto simbiôntico com anulação de identidade. Eu fazia de conta que adorava a novela das oito e ela ia ao Maracanã com a camisa do meu time. E a individualidade se desmanchava como o rímel do olho dela, depois de se debulhar em lágrimas porque eu esqueci o dia do aniversário do primeiro beijo. O cerco foi apertando e eu me sentindo cada dia mais sufocado. Nem a cervejinha de fim de tarde eu podia mais tomar. Se não fosse do trabalho direto pra casa, o celular não parava de tocar. Queria saber onde eu estava, com quem, fazendo o quê. Até parece que se eu estivesse no motel ia dizer: ah! tô aqui mergulhado na hidro, tomando um champanhe e fazendo amor com a Drica ! Eu chegava em casa e ela sempre arranjava um jeito de olhar pro relógio. Todo dia, quando eu saía do banho, as reclamações eram as mesmas: toalha embolada dentro da pia, cueca no chão do box, piso do banheiro molhado, xixi na tampa do vaso... E o futebol de sábado? Era ofensa pessoal. Ela estava sendo trocada por um monte de marmanjos de pernas cabeludas. Ia me esquecendo do cachorro! Claro, tinha a gracinha do totó que ela trouxe da casa da mãe e que não ia com a minha cara. Aliás, por falar na mãe, não era só o cachorro que não ia com a minha cara, não. A diferença é que a sogra não comia os meus sapatos.

          Hoje eu sou livre. Ninguém vigia a hora que eu chego nem quantas cervejas eu tomo. Transo com quem eu quero. Jogo a toalha de banho molhada dentro da pia e a cueca no box. O chão do banheiro é um perigo: sempre molhado. O vaso tá uma nojeira: não consigo acertar aquele buraco. Antes de sair pro trabalho levo um tempão pra arranjar uma roupa mais limpa e menos amassada, que combine com os sapatos roídos pelo cachorrinho. Comida, só de restaurante, desde o dia que a panela de pressão explodiu e a tampa quase rachou a minha cabeça. Quando volto pra casa, pior do que encontrar tudo do jeito que eu deixei, é não ter ninguém nem pra brigar.

          Ontem telefonei pra ela. Convidei pra comer uma pizza à noite. Ela disse que já tinha programa. Programa? À noite? Com quem? Onde?





Rosane Coelho
Enviado por Rosane Coelho em 16/09/2005
Reeditado em 25/03/2006
Código do texto: T51089
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Sobre a autora
Rosane Coelho
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 62 anos
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Rosane Coelho