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Com o passar do tempo, Sara tornara-se uma mulher céptica, de expressão dura.
Farta da civilização, reunira o estritamente necessário e pusera-se a caminho.

Andara, andara, até que mais nenhuma casa se avistasse, nem estrada, nem vereda.
Internara-se na mata.
Buscava um lugar tranquilo onde pudesse achar refúgio.
Encontrara-o na aba de uma montanha: uma espécie de gruta sobranceira numa
escarpa, que parecia desabar sobre o caudal violento de um rio.
Árvores, poucas e rasteiras.
Ervas, muitas, atapetando a terra amarelada, barrenta.
Durante dias preparou a sua toca com afã, como uma loba prepara a lura em
vésperas de parir as crias.
Depois de aberto e limpo o espaço, arrumou nele as suas coisas: a um canto, os
pratos, os talheres, uma sertã e uns tachos.
No outro, a cama, um colchão de espuma com dois dedos de espessura que trouxera enrolado, às costas.
Alguma roupa.
Uma celha, uma bilha.
Acendeu uma fogueira, aqueceu água, deitou-a lá dentro, com umas raspas de sabão e sentou-se, imersa até ao pescoço, sem pensar em nada senão no alívio que sentia.
Quando a água estava quase fria, saiu, esfregou-se com força numa toalha turca e, ainda nua, aproveitou aquela água para lavar a roupa que tirara.
Estendeu-a sobre a erva.
Reanimou a fogueira e sobre ela cozinhou a primeira refeição da sua nova vida.

Na sertã deitou óleo, no óleo quente três ovos, que mexeu com um garfo e comeu dali mesmo, poupando-se a sujar um prato.
Não tinha mesa nem toalha.
Alguns panos de serventia para tudo. Lavados, ficavam prontos para o que fosse preciso.
Depois sentou-se à porta, que não havia.
Acocorou-se no chão, encostada à parede da gruta, fitando o espaço à volta.
Era vasto e vazio.
Em frente havia outra encosta abrupta.
No fundo, seguia apertada a água que soava alto, em fúria.
Uma espécie de neblina encobria a espuma e acinzentava o abismo.

Inconformada, nunca se acostumara a viver socialmente com outros.
Crítica, mas calada, era tida por estranha, impenetrável, empedernida.
Gostava de andar sozinha.
Jamais se negava ao trabalho duro, com que se sustentava. Dando de si o máximo
para evitar censuras, que detestava.
Pagava as suas contas a tempo e horas, pelo que a sociedade a tolerava, sem reparar muito nela.

Também nunca a sua mente se casara com o seu corpo.
Desde muito nova, uma sensualidade voraz a avassalava, mas ninguém desconfiava.

Fugia dos moços. Não era bonita nem feia, mas algo transparecia nela que lhes atraía os olhares.
Não ousavam falar-lhe, portanto seguiam-na.
Ela apressava o passo, caminhando sempre em frente, sem dar a perceber a luta em que se debatia.
Tinha medo e desejo de se deixar levar pelo instinto.
Tinha vontade de fingir que tropeçava e deixar-se apanhar... depois fosse o que fosse!
Se assomava à janela, os olhos deles detectavam-na lá em cima, como se uma luz os chamasse.
Ela fechava a janela de chofre, zangada consigo mesma.
Aquela rudeza minava-a de culpa, mas um ancestral receio impeli-a e só depois de praticado o acto se dava conta do mal feito.
Nem por isso os moços que passavam deixavam de fitá-la com olhares lânguidos, como se olhassem a lua.
A sós consigo mesma, passava lentamente as mãos percorrendo todo o corpo, sentindo deleite, sentindo-se estremecer num arrepio quando os dedos tocavam os mamilos rígidos. As mãos seguiam inexoravelmente até ao delta que palpitava no meio das suas coxas, exigindo carícias.
Perdeu a virgindade tardiamente.
Enamorou-se por uns olhos negros, suplicantes, de longas pestanas reviradas; um tufo de pelos saindo do colarinho da camisa entreaberta.
Não lhe fechara a janela na cara. Ficara a espreitá-lo escondida atrás das cortinas.
Ele percebia o seu vulto e ficava a olhá-la, encostado à parede fronteira.
Um dia, ao chegar do trabalho, encontrou na caixa do correio uma carta sem selo. Era dele, pedindo-lhe namoro.
Respondeu-lhe, por delicadeza ao menos uma vez na vida.
Quando ela a abordou na rua, não encontrou como esquivar-se, como era seu costume, tal uma presa que foge.
Delicadamente, ele deu-lhe os bons dias e ela respondeu. Seguiram conversando.

E assim aconteceu por muitos e muitos dias.
Se ele tentava beijá-la, ela baixava a cabeça. Ele tocava-lhe a testa com os lábios, os braços ou os ombros entre as mãos e pouco mais.
Mas uma vez a sós entre quatro paredes, ela sonhava com carícias longas, demoradas, suaves.
Pouco mais sabia do que o que experimentara tocando-se.
Não podia colocar barreiras nos sonhos.
Sem estradas abertas, deambulava por labirintos de um intenso, difuso prazer.
Acordava suada, ardendo.
Num dia em que foram ao cinema, ela deixou-se finalmente beijar, alheia a tudo o resto.
Nem filme, nem plateia... tremendo de ânsia, ofegantes, devoravam-se no escuro.

Ele enfiou uma mão por baixo da sua saia, mas ela cerrou as coxas com firmeza.

A partir desse dia, quando saíam em passeio, procuravam lugares sossegados, onde se consumiam em beijos até ficarem com as bocas inchadas e feridas.
Mais, não permitia.
Ele suplicava-lhe baixinho que o deixasse desabotoar-lhe a blusa, que lhe tocasse o ventre... ela negava, suspiro suspenso, de olhos cerrados.
Mas quando, pela manhã, sentia a água do chuveiro percorrer-lhe o corpo e as mãos ensaboadas sobre os hemisférios redondos e erectos dos seios, a curva da cintura, a redonda macieza das ancas, soltava um longo gemido:
- Para quê?! Para quê?! Para quê?!
Passaram a ir juntos ao café, ao jardim, acompanhavam-se para todo o lado.
Conversavam acerca do que viam, sentiam, de como viviam.
Ele morava num quarto alugado, com porta independente da da Senhoria.
Ela ficou curiosa, foi ver como era.
Enfim a porta fechada, ela sentou-se na beira da cama, meio estranha. Ele ao lado dela, começou a beijá-la e a noite caiu, enquanto eles escorregavam no leito, deleitados em carícias.
Ele hesitava, porém ela quis até ao fim, de uma vez por todas, descerrando a última cortina que os separava.
Pela manhã, ela sentiu que algo dele entrava nela, que algo em si cedia e sentiu uma delícia libertadora. E abafou os gritos mordendo o ombro dele com
todas as forças e sentiu-se inteira, realizada, solta!
O dia acordou-os sobre um mar de sangue.
Ela escutara vagas histórias acerca da dor “da primeira vez”... Qual dor?! Mas nunca escutara histórias acerca de uma sangria daquelas.
Olharam-se pasmados. Ele sentou-se na beira da cama. Tinha a barriga ensanguentada e pela primeira vez ela via o que tanto imaginara: um homem nu.,
com a maior naturalidade do mundo, sem pudor, sem estranheza alguma.
Mas... que iria dizer a Senhoria?!
Como fora bom e doce, sentir a chave deslizando na fechadura oleada, abrindo o seu ser num mar de delícias!
... Mas que iria dizer a Senhoria?!
Levantaram os lençóis: ficara uma larga mancha também sobre o colchão.
Sorriram, em cumplicidade.
Porque tivera tanto medo se era tão bom... tão bom!
Vestiram-se e saíram, levando os lençóis enrolados.
Enfiaram-nos, mais adiante, num contentor de lixo.
Ela perguntou-lhe:
- Nota-se alguma coisa estranha quando eu ando?
Dizia-se que se podia ver se uma moça era virgem ou não pela forma de andar.
Ele garantiu-lhe que não, não se notava nada.

Sara sentiu o frio e a humidade penetrarem-lhe nos ossos.
Levantou-se do chão e recolheu-se ao interior da furna. Reacendeu a fogueira.
Tinha fome de novo.
Foi abrir uma lata de biscoitos, trouxe um púcaro de água e o pacote do chá.
Pôs a água ao rés das brasas e, quando ferveu, deitou-lhe dentro algumas folhas. Ceou.
Depois deitou-se no colchão de espuma, cobriu-se e deixou-se ficar quieta, apreciando o sossego e o silêncio.
Pensou que desde aquele dia jamais se satisfizera a si mesma.
Era bem no fundo de si que residia o seu prazer, aquele que a libertava.
Como se estivesse num cofre inacessível a si, necessitasse que uma espada irrompesse pelo seu corpo para matar o dragão do desejo, numa luta pertinaz, uma e outra vez, até que a sua alma se sentisse liberta, em uníssono consigo,
na semi-consciência.
Ela cruzava os tornozelos em torno da cintura dele e só o libertava quando, exaustos, se sentissem saciados.
Abandonavam-se depois, pele contra pele, os poros ressumando um perfume inebriante, magnético, que os induzia a uma proximidade total, à absoluta quietude.
A vida fizera-os seguir cursos diversos.
Sara jamais olhara outros olhos negros, de longas pestanas reviradas.
Olhava às escondidas os tufos de pelos que afloravam das camisas entreabertas e sentia ânsias mas apressava o andar e desviava depressa os olhos, apertava os lábios, apertava os sobrolhos.
Julgavam-na uma solteirona empedernida. Insensível mas sensata.

Por essas e outras fugira do mundo.
- Insensível mas sensata! – Murmurou consigo mesma! Hipócritas que se rebolavam ás claras e murmuravam entre gargalhadinhas nas costas uns dos outros quem andava com este e aquele que ia com aquela.
E riam casquinadas, que nem galinhas cacarejando.
- Mundo de aparências, onde as emoções viviam reprimidas, entre o mal-dizer .
Mundo de estúpidos camaleões.
Deixara-o!
Verdade seja dita que nunca mais o seu corpo e a sua mente fizeram as pazes.
A mente devaneava, como colocar-lhe cercas?!
Sabia exactamente o que o corpo ansiava e divagava como as águas de um rio...divagava almejando umas mãos que a tocassem nos lugares e da forma que exactamente sabia...que em fogo sentia, da curva atrás dos joelhos, à curva da cintura.
Sonhava que uma mão suave lhe desfazia o cabelo preso e, tomando-o, lhe inclinava a cabeça, num longo e profundo beijo.
Depois lhe percorria os ombros, a nuca e o pescoço, lambendo, mordiscando, chupando, descendo pelo rego dos seios, sugando-lhe os mamilos, mordendo-os com
força e de novo com suavidade. Lhe tomava a cintura nas mãos ambas, lhe percorria a pele macia da barriga, do interior das coxas, das virilhas, enquanto as pernas se entreabriam...
Sara, levava inconscientemente as mãos à foz de seu delta mas apenas um leve suspiro se lhe soltava dos lábios, em vez dos gritos que lhe deixavam dorida a garganta.
Que vazio se seguia, que ausência, que amarga desilusão a tomava!
Jurava a si mesma que nunca mais as suas mãos seguiriam o rumo dos caminhos ansiados ou, se seguissem, se abstivessem de tocar a rosa de si mesma.
Sentia-se como que na história do Rei Artur, mas ao inverso.
Artur, para provar que era Rei, tivera de sacar a espada presa na fenda do rochedo mágico; ela, para se sentir rainha, precisava que uma espada trespassasse a sua fenda, chegasse ao seu âmago e longamente combatesse a sua dureza de rocha.
Dureza da “dura e estéril Sara”, como toda a gente dizia.
Agora, quase eremita, ao menos não se sentiria recriminada quando passasse, no eu andar ligeiro, as saias tocando os tornozelos, abafando os passos dos sapatos rasos trilhando em silêncio os caminhos da sobrevivência insatisfeita.

A blusa solta ocultando o peito com o coração a palpitar fundo lá dentro.
... Coração empedernido, chamavam-lhe!
Agora, nunca mais!
Seria bravia de vez.
Assumia a solidão de uma vez por todas, tentando casar a mente com o corpo, tentado... Esquecer-se!


24/1/2004

Maria Petronilho
Enviado por Maria Petronilho em 17/09/2005
Reeditado em 08/11/2006
Código do texto: T51327
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Maria Petronilho
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