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                                          Amigo 


     Meu novo amigo desenvolvera capacidade invejável de parir e criar fantasmas recorrentes. Era como se medos e anseios proliferassem indissolúveis angústias existenciais e ataques de abstrações incontestáveis. 
     Prontamente, sua figura apequenada, frágil e madura não deixava antever temores ou desconfianças próprios dos embrutecidos pelo destino. Metro e pouco, parcos cabelos brancos, olhos ternos. Barba cerrada – vezes desleixada – cultura doutoranda, emoções arrepiadas. 
     Era visceral. Precisava ser assim, afinal como vencer na paz ortodoxa? Só há paz assinada na declaração exangue de armistício incondicional. 
     Não lhes digo que fosse plácido, ao contrário. Energizado, em explosões de excitação, irradiava choques tectônicos no mais capaz, evoluído e tranqüilo de seus interlocutores. Talvez aí residisse o paradoxo de sua essência: gentil e agressivo; temeroso e audaz; candente e morno; amargo e amado. 
     Vivia intensamente por não se conformar com o absurdo de apenas estar. Não podia ser assim. Seu tempo não cumpria os regulamentos impostos pela contagem matemática das horas. Seu tempo não perdia tempo. Permitia-se multiplicar em efêmeras convulsões reiteradas. Tornara-se prisioneiro dessa decisão. Cria na excelência de apreender, pesquisar, deslumbrar-se com a revelação do desconhecido. Buscava-se e à luz com tenacidade jovial, na tentativa desestruturada de sobreviver às crises de ansiedade que administrava compulsivamente. 
     Possuía virtudes inumeráveis e defeitos imperceptíveis aos leigos que dele pretendessem extrair um perfil. De fato, nele assistia o grande idealizador, que sofre e exaspera-se por ser tão só em suas idealizações. 
     Solidão... Isolamento... Como ser único, cercado de tantos deveres e compromissos? Por que sentir-se gota num turbilhão de ressaca, se não haviam mudado os ventos? Quando encontraria a verdade cotidiana de uma amizade fraterna e duradoura? Precisava de amigo. Não uso plural. Não ouso plural. Bastava-lhe o amigo. Artigo de luxo, definido, mas assaz absurdo, que lhe fora implacavelmente negado conhecer. 
     - Ah, um amigo... Acreditei ter um amigo... – repetia insano, como a explicar o imponderável. 
     Apesar de sua competência intelectual, não se ocupara de perceber a distância entre o poder e a amizade. O lucro e a paixão consciente. A decência e a traição. Precisava de um encontro consigo a fim de ilustrar, em sua página pessoal, a verdadeira essência da fraternidade, jamais comprada ou roubada. Nunca usurpada ou infantilmente prescrita numa carta ao bom-velhinho. Entretanto plantada com alegria. Semeada com justiça. Colhida com perdão. 
     Deveria amar-se. Ser seu amigo mais íntimo. Deixar-se notar forte e agir conscientemente. Carecia encontrar-se em si, afinal não se repetem os gênios ou os loucos: metades antitéticas dos imortais.

Nel de Moraes
Enviado por Nel de Moraes em 23/09/2005
Código do texto: T52955

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Sobre o autor
Nel de Moraes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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Nel de Moraes