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REVEILLON NA AVENIDA





Apagam-se as luzes na avenida e só se escutam rumores desencontrados que vem de lá e de cá. Há uma preparação de corpos, copos e olhares para algo que em poucos minutos acontecerá. O pipocar de fogos de artifício logo se iniciará. Todos em sofreguidão respiram gravemente, dando a  perceber o peito arfando continuamente.
De repente, alguém começa a contagem regressiva acompanhado por outras vozes...nove, oito, sete, seis, cinco, quatro...três, dois...e aí os fogos explodem ininterruptamente!
O céu se reveste da multiplicidade de cores, como se lágrimas dos deuses abençoassem todos que ali estão.
A sofreguidão das pessoas se abraçando é notada pela gritaria ensurdecedora juntamente com os copos e corpos que se agitam e tilintam ao nascer do novo ano. Ninguém se entende devido ao barulho ensurdecedor dos fogos e algazarra que advém do álcool que já perpassa a corrente sanguínea.
Tenta-se identificar um rosto conhecido dentre a multidão e não se consegue, pois os braços erguidos continuamente para o céu, dão vivas a toda felicidade de se estar vivo na passagem de mais um ano em sua história e assim, dificulta a visualização.
O vendedor de cervejas passa por entre os corpos gritando seu produto que está oferecendo, enquanto algumas crianças recolhem as latinhas da bebida em sacos de plástico ou de tecido, para logo mais vende-las ao intermediário, de modo a angariar alguns trocados que permitirão colocar algo em sua mesa no primeiro dia do ano.
Esse contraste social faz parte dessa festa tão esperada por uns e rechaçada por outros, pela descoberta do envelhecimento iminente. Este é o quadro repetido que se vê em todos os eventos da sociedade brasileira. Eventos onde o consumir é mais importante que unir as pessoas em afetividade  e solidariedade.
De repente, ouve-se um diálogo entre dois jovens, uma moça e um rapaz, possivelmente namorados.
- “Flávio, você está bebendo demais!” Ao que ele responde:
- “Você acha, amor? Só bebi três doses de uísque e dei apenas uma cheiradinha pra poder ficar mais esperto”. Ela tenta beija-lo e sorrindo, diz:
- “Só você faz esse tipo de coisa entre nossos amigos.Vê lá a Cristina e o Cléber, estão abraçados e não parecem que beberam nem uma dose sequer. Você poderia estar assim como eles, pois depois quero ir ao motel e aí você não tem jeito”.
Flávio fica meio alheio com a conversa da namorada e volta a falar pra ela:
- “Juliana, se você ficar enchendo meu saco, deixo você aqui sozinha e entro nessa fuzarca aí na frente. Depois você fica triste e não agüenta. Fica quieta e não me amola,ta? Gosto de você, mas pra me irritar é só começar”.
Passa por eles, um menino de aproximadamente uns 10 anos de idade e lhes oferece cerveja, ao que Flávio retruca dizendo, “meu irmão, esta bebida aí é de pobre! Sai daqui que não quero ver pivete em minha frente, senão eu dou um cascudo!” A criança se espanta com a conversa do rapaz e ainda tenta vender o seu “peixe”.
- “Moço, por favor, compra só uma latinha pra me ajudar, vai!”
Flávio, sem que Juliana esperasse, dá um safanão na criança que cai sobre uma mesa que se encontra repleta de garrafas de bebida, se cortando no braço e na perna. Algumas pessoas que se acham próximas ao casal começam a cochichar entre si e nada fazem para ajudar aquela criança ferida. Juliana grita com Flávio, dizendo que ele é um monstro, um mal educado e tudo mais, mas ele faz que nem ouve, não percebendo o ato de agressão que cometeu, pois já se encontra embriagado o bastante para ter consciência de sua atitude violenta.
Juliana começa a chorar baixinho sem que ele note, pois tem medo de uma reação para com ela. Há algum tempo atrás, ele a espancou em plena rua, com ciúmes de um outro rapaz que a estava olhando.
A criança continua ferida e caída no chão, sem que qualquer pessoa a venha ajudar. Chorando com muita dor, pois os cortes profundos que tem no braço e perna sangram muito e não tem como se levantar.
Logo passa um amigo do Flávio e ao vê-lo, aproxima-se para cumprimenta-lo, quando se depara com a confusão criada pelo amigo.
- “Oi mano, o que aconteceu?” Pergunta-lhe Leonardo. Flávio naquele momento, cabisbaixo, ao ver o amigo se alegra e diz:
- “Léo, você tem aí mais uma coisinha? To precisando pois aconteceu uma mancada aqui e a Juliana não quer mais ficar comigo, porque bati naquele pivete!”
Leonardo se espanta com o pedido do amigo e olha Juliana, que não se contém e arrisca-se a chorar mais alto, para que o namorado se sensibilize com ela. Flávio se irrita ainda mais, apertando-a contra um poste que se achava na calçada perto deles, quando Leonardo tenta desapertar os dois.
- “Mano, o que é isso? Faz isso não, pois as pessoas estão olhando e não é uma boa! E que pivete é esse que você falou?” Flávio solta Juliana, que já se encontra totalmente aturdida com o namorado apertando seu pescoço, e fala:
- “É aquele bost.....que está ali no chão. A Juliana está fazendo questão por ele. Aquele marginalzinho veio me empurrar cerveja! Disse-lhe que essa bebida era de pobre, mas ele insistiu e aí dei um bofete nele, só pra espantar!”
Leonardo desatou a gargalhar, olhando a criança ainda no chão e caçoando dela. Juliana, ao vê-lo rindo, disse-lhe:
- “Puxa, você também, Léo! Como pode ser tão cruel? Você é igual ao Flávio e eu não vou agüentar ficar nem mais um segundo aqui. Vocês se merecem, são a corda e a caneca!”
Flávio ainda tentou puxar o braço de Juliana para que ela permanecesse com eles, mas ela conseguiu se safar e saiu correndo por entre a multidão.
Ao ficar sem a namorada, Flavio chamou Leonardo pra junto dele e novamente pediu:
- “Léo, arranja mais um pouco do pó! Senão não consigo ficar em pé, chega logo uma lombra e não tenho como me segurar”. O amigo olhou para um lado e para outro, abanou a cabeça e tirou do bolso da calça, um pequeno papelote, entregando a Flávio, juntamente com um canudo de madeira.
- “Meu irmão! Que massa! Vamos lá para a beira do mar e dar uma cafungada. É preciso disfarçar, pois tem muita gente aqui querendo também dar uma”.
Os dois caminharam para o mar, se agacharam no escuro e começaram a aspirar com bastante excitação aquele pó que lhes daria a salvação da noite. Olharam ao redor e viram que as pessoas na avenida gritavam e cantavam confusamente. Eles ficaram um bom tempo agachados e só curtindo aquele quadro, gargalhando sem qualquer motivo.
E a criança ferida continuava lá no chão e ninguém aparecia para ajuda-la...
Sua perna e braço doíam e sangravam tanto, que Toquinho, a criança, acabrunhado tentava se erguer do chão e não conseguia, dado que a dor já se expandia por todo o seu corpo. Chorando convulsivamente, ele pedia ajuda às pessoas que estavam próximas a si e àquelas que passavam perto, mas era inútil, pois com a algazarra reinante no momento, ninguém percebia nem ligava para ninguém, só queriam se divertir a todo custo, visto que já se passavam quarenta minutos do ano novo. O que fazer então, se perguntava Toquinho.
Depois de sair correndo do namorado e do amigo, Juliana a essa altura tentava encontrar a criança que havia sido agredida por Flávio. Mas em vão foi a sua procura, pois pelo fato de se esbarrar nas pessoas que iam e vinham e estar totalmente atordoada pelo acontecimento, Juliana parecia um pião que rodava e rodava, para se encontrar no mesmo lugar.
Enquanto isso, Flávio e Leonardo já caminhavam de volta à avenida, quando um homem à paisana chega perto deles e os interpela, exigindo a apresentação de suas identidades. Os dois amigos se entreolharam sem saber o que dizer, mas o homem insistia em ver suas identidades.
Foi quando Flávio chegou-se mais perto do homem e em surdina lhe falou:
- “Mano, o que você pensa que somos nós, marginais? Somos de família boa e rica! Por aí existem tantos ‘malas’ dando sopa e você vem logo pra cima da gente!”
O homem observou detalhadamente os dois amigos e notou que estavam fora de si, cheirando a álcool e falando de forma peculiar aos marginais que ele se acostumara a deter. Olhou bem dentro dos olhos de Flávio e indagou:
- “O que vocês estavam fazendo ali à beira mar, agachados? Pelo visto vocês são daqueles filhinhos de papai que tem grana a todo instante que quer e só fazem dar dor de cabeça a nós policiais!” Flávio e Leonardo sentiram um frio da espinha dorsal pelo fato de terem sido vistos fazendo algo que não deviam e agora se defrontavam com a lei. Flávio, em frações de minutos pensou: “P...... que é que esse cara quer?”
Olhou para Leonardo, piscou o olho e se dirigiu para o homem, com a voz exaltada falando:
- “Ô amigo, você sabe com quem está falando? Sou sobrinho do deputado federal Serafim Lins e muito querido por ele. Se eu pegar o celular aqui e telefonar-lhe, você vai ficar com as calças nas mãos. Por isso, deixe-nos em paz que já vamos pra casa e você esquece de tudo e que nos viu, ta?”
O homem olhou fulminante para ele, pensou um pouco e disse:
- “Rapaz, se eu fosse você, não falaria assim comigo. Sou o sub-delegado da região metropolitana e tenho poder pra levar você e seu amigo agora mesmo para o xadrez! Mas, pensando bem, é ano novo e eu não quero me aperrear com cretinos como vocês. Assim, me dá uma grana aí, bem gorda que eu vou deixa-los em paz!”
Flávio olhou para o amigo e com um sorriso triunfante, abriu a carteira e tirou cinqüenta reais e entregou para aquele homem que ali representava a ordem.
- “Tá bom assim, meu chapa?” O homem sorriu, pegando o dinheiro das mãos de Flávio e num passe de mágica sumiu por entre a multidão.
Os dois amigos desataram na risada, exultantes por terem ganho a possível liberdade em pleno início do ano, depois de se saírem bem do imbróglio que haviam se metido. Ainda cambaleantes com a mistura explosiva de álcool e droga se abraçaram e pediram uma cerveja a um rapaz que naquele momento passava perto deles, a fim de comemorar o feito.
Caminharam até o calçadão, onde fervia de gente que se acotovelava, pelo número excessivo de barracas, mesas e cadeiras dispostas ao longo de sua extensão. Não viram Toquinho, a criança, que ainda jazia no chão ensangüentado e agora, com uma fisionomia petrificada, sem que qualquer pessoa o viesse levantar e socorrer. Os amigos não se aperceberam daquele estado semi-inconsciente da criança  e gargalhando foram se juntar a um novo grupo que pulava freneticamente um frevo que começava a ser executado na avenida.
O frevo, bem cadenciado, levava a multidão ao delírio, dando para ver que se tratava da música que irmana a todas as gentes daquela cidade.


*Numa avenida de praia qualquer do Brasil.
sonia barbosa
Enviado por sonia barbosa em 06/10/2005
Código do texto: T57425
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sonia barbosa
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