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ESPERANDO O INVISÍVEL

Aquela noite tinha sido anormal: frio excessivo,mais do que o previsto. Aquecedor ligado e regulado para uma temperatura ainda mais alta, o que a deixava ainda mais preocupada. Teria que equilibrar as finanças domésticas com economia de energia elétrica de outras formas para compensar o aquecedor assim tão forte ligado. "Quem sabe com a TV... Ou as luzes; posso usar uma apenas na sala, ao invés de duas ou três... Ah! O monitor do computador! Também ajuda iluminar!!"


E com esses pensamentos levantou-se. Assumia consigo mesma que precisava de muito ânimo para se preparar e ir à Igreja..."Afinal, sou perfeitamente humana de querer ficar debaixo dos cobertores, nesta manhã tão fria, cinza, sem cor...".


Decidiu vestir-se do mais forte vermelho - poderia alegrar o dia de alguém, colorir o visual na rua - e destacar-se na paisagem urbana, concreta, asfáltica, sem risos. Colocou a bíblia na bolsa, muniu-se com chaves, documentos e óculos. Não conseguia mais deixá-los e sem eles não enxergava mais. Ler então, nem pensar! Elevador vazio, luzes fracas na garagem, e o frio... "Ah, esse frio... Por que não vens logo, verão?"


E por todo o trajeto até a Igreja viajou pelas praias paradisíacas do Tahiti. Quem sabe um dia iria lá? Aquele mar transparente, e azul! Peixinhos nadando ao redor do tornozelo, banheira sobre um chão de vidros onde só o mar por companhia. Isto ela não estranhou: sozinha a tanto tempo, aprendeu a gostar de sua própria companhia, do céu, das nuvens (mesmo cinzas como naquele dia), pássaros, flores da varanda, cores nas paredes e nos livros, árvores, prédios... O mar. Com a musicalidade de suas ondas... Perfeito para ela!


A esta altura voltou o pensamento para seus vizinhos. Não conhecia nem um deles. Sabia que num dos apartamentos do primeiro andar havia uma estudante de medicina e, no quarto ou quinto, uma jovem viúva que perdera os filhos também! "Meu Deus! Quanta coisa na vida podemos ter, e a todas perder num piscar de olhos sem nunca imaginar essa possibilidade... Posso então me consolar com o fato de não ter alguém então não ter ninguém pra perder".


"Quanta vaga de carros! Todo mundo resolveu ficar na cama hoje... Também, com esse frio, Deus perdoa a preguiça de Seus filhos!". E contente conseguiu estacionar o carro bem próximo à entrada e, ainda, com o segurança bem perto pra dar aquela "olhadinha" básica, pra evitar "trombadinhas"... Nada naquela jovem mulher aparentava seus anseios. Tudo demonstrava tranquilidade e beleza. Beleza tal que lhe era desconhecida. Pensava sempre que sua aparência não era de todo assustadora, mas nunca se enquadrou na "beleza feminina".


Pena que não reparava nos olhares lânguidos dos jovens, dos adultos - as mulheres também (e principalmente! - desejavam aquela beleza, aquela simplicidade e pureza de olhar, com o sorrir envolvente ao mesmo tempo absorto em pensamentos) - homens casados e solteiros, pergutando-se e uns aos outros o porquê de tão bela, cuidadosa, inteligente e educada jovem ainda sozinha e sem família.


www.anak.com.br

ana K
Enviado por ana K em 16/10/2005
Reeditado em 18/10/2005
Código do texto: T60197

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Sobre a autora
ana K
São Paulo - São Paulo - Brasil
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