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OVO FRITO

     Quem não gosta de ovo frito?
     
     Encontrei um amigo que não via há 35 anos. Filho único de mãe solteira passara sua infância em minha casa. Comia, bebia, às vezes até dormia; convivia conosco nos bons e maus momentos; fazia parte da família.
     
     Depois dos abraços apertados, afetuosos, saudosos, sentidos, vieram as costumeiras perguntas: e seus pais? Seus irmãos? A saúde? O que faz na vida? Casaste? Quantos filhos?
E expressões do tipo: como você engordou! Você, careca, está a cara do seu pai! Como o tempo passa! Que saudade daquele tempo! E revelações, das quais esta me deu o que pensar: _ D. Olga, nossa mãezinha, morreu! O ovo frito que ela fazia, hummm...até hoje , ainda não comi um ovo frito tão gostoso!
     
     Despedimo-nos com o acordo de, agora em diante, nos vermos com maior freqüência; não podemos nos dispersar novamente.Fui para casa pensando no ovo frito que a minha mãe fazia.Chegando lá, pedi para minha mulher me preparar um ovo frito. Agora? É, agora! São duas horas da tarde, você nunca comeu a esta hora! Estou com vontade.Preparou, serviu-me, e ficou observando, curiosa. Experimentei um pedaço,...dois, e diagnostiquei: não, não está bom! Como não está bom!? Qual é o problema? Experimentei outro pedaço e confirmei: é, não está bom. Você sempre gostou do ovo que preparei. O que foi que mudou? Não é tão gostoso como o ovo frito que a minha mãe fazia. Você nunca me disse isso!
     
     Fui, então, pra casa da minha irmã mais velha e lhe fiz o mesmo pedido. Estranhou. Perguntou-me se  estava tudo bem em casa; pegou a frigideira, o óleo- acendeu o fogo- o ovo, o sal ; enquanto isso, continuava me interrogando, preocupada. Serviu-me..., experimentei..., e exclamei com veemência: não, não é igual! Não é igual ao quê? Não é igual ao ovo  frito que a mãe fazia!
     
     Rumei para a casa de outra irmã. Estranhou, também.Fez as mesmas perguntas, preparou o ovo, serviu-me..., experimentei..., e chorei. Desde a morte da minha mãe aquele  choro estava contido, represado, sufocando-me. Desabafei. Saí de lá mais leve.
     
     Agora, toda vez que como ovo frito, uma lágrima brota dos meus olhos, tão gostosa como o ovo frito que a minha mãe fazia.


e-mail : carlinhosaffonso@aol.com

CARLOS AFFONSO
Enviado por CARLOS AFFONSO em 20/10/2005
Reeditado em 02/03/2007
Código do texto: T61441
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
CARLOS AFFONSO
São Paulo - São Paulo - Brasil
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