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NINGUÉM ENTENDE OS POETAS

– Ninguém entende os poetas, meu amor.

A mulher o abandonara há cerca de um mês, trocando-o por um malandro. Que idéias desvairadas levaram-na a deixar o lar tão feliz para viver uma aventura com aquele vigarista? Mas estava certo que ela ainda se arrependerá, daí será tarde demais para voltar atrás. Quem vai querer de volta uma mulher usufruída? Não ele, com certeza.

– Um dia ela volta e vocês poderão recomeçar tudo de novo, em outro lugar – era a mãe dela quem falava. – Não tenha raiva dela, foi aquele sujeito que virou a cabeça dela, você a conhece muito bem, ela é um amor de pessoa, é que se casou muito nova, sem experiência da vida, eu bem que avisei para vocês esperarem um pouco, agora não adianta chorar sobre o leite derramado, ela volta, você vai ver, e tudo será como antes.

Por que a ex-sogra insistia em falar aquilo? Claro que gostaria de voltar no tempo e esquecer de tudo. Mas como? Jamais deixaria de pensar que um dia ela o trocou por um galanteador barato, desonrando-o perante todos – justo ele, um poeta. Haveria de superar tudo e provar quem era; esqueceria aquela que o abandonara sem ao menos dizer adeus e, ainda por cima, levando todo o dinheiro que ele guardava debaixo do colchão.

– A vida é assim mesmo, cheia de surpresas, oceano de lágrimas, espaço infinito de desencanto. Nossa vida aqui na terra é uma espécie de purgatório, que nos purificará o espírito e o elevará a um plano superior. O que aconteceu com você certamente veio para purificá-lo.

As palavras do amigo versado em filosofia oriental lhe soaram vazias.
Sim, mas para se elevar a um plano superior, para enobrecer o espírito era necessário ser traído pela mulher? Que evolução mais insensata, essa, que carma mais negativo, o seu. Palavra alguma acalmava seu espírito atormentado, o ego mortalmente ferido.

– Deus criou o homem para viver em paz com o seu semelhante. Está no Livro dos Livros que, ao lhe ofenderem uma das faces, ofereça também a outra. Não tenha pensamentos ruins, pois isso irá machucá-lo ainda mais e o afastará do Reino dos Céus, onde os eleitos vivem abençoados pelo Pai. Somente os bons sentimentos conduzem o homem para os braços de Deus.

O padre era um santo homem, amigo de longa data, desde os tempos de coroinha na Igreja Matriz. Sempre escutara com atenção as palavras sensatas do dedicado servo de Deus; no entanto, àquela altura de sua vida, não conseguia encontrar alento nessas palavras – o espírito revoltado contra Deus e o Diabo se negava terminantemente a aceitar qualquer consolo.

Poucas mulheres passaram por seu leito após a partida da outra. Nenhuma possuía sua pele de veludo, seu hálito de rosas, seu olhar meigo. Perguntava-se se algum dia conseguiria encontrar outra igual, escondida nalgum canto por aí.

– Mulher você encontra em cada esquina. Eu tenho a minha lá em casa, mas não me prendo nela, não. Sempre que posso – e sempre posso – dou as minhas escapadas. Homem que é homem não deve se fiar numa só mulher; agora, se ela me enganar com outro, juro que meto-lhe um tiro bem no meio dos olhos.

Por que era tão diferente do amigo? Quando casado, jamais olhara para outra mulher, muito menos saíra com alguma; não achava honesto. Ora, casara para ter a sua mulher, por que buscar outra fora de casa? Nascera poeta num mundo traiçoeiro.

Pesado carma o seu.

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Dias desses, um amigo convidou-o para darem umas “voltas”. Tinham chegado umas meninas do Sul, que eram uma coisa. Foi conferir. De fato, algumas eram formosas, outras nem tanto, mas não de todo descartáveis. Após examinar todas, escolheu uma (e só depois percebeu o quanto ela se parecia com a outra). Era jovem, dentes perfeitos, corpo ainda em boa forma, apesar da vida desregrada.

A principio, quis obter informações a respeito. Fez muitas perguntas. Ela garantiu-lhe ter vinte e um anos. “Mentira”, pensou, “não teve ter mais que dezoito”. Fugira de casa aos doze anos, após ser estuprada pelo padrasto. A mãe morrera no ano anterior, e aquele homenzarrão passou a assediá-la. Fugiu logo na primeira noite, não antes de ser seviciada pelo canalha. Perdera a conta dos homens que percorreram as suas entranhas e dos fetos que foram para a latrina após a fuga da casa do padrasto.

Seu nome era Joana, o mesmo da heroína francesa. Faltava-lhe, contudo, a santidade da Virgem de Orleans. Encantou-se logo com ela: aquele jeito de menina (mas que muito tinha a ensinar em matéria de amor) conquistou o seu coração desencantado. Mandou a outra às favas. Que ficasse com o sacripanta. No dia seguinte, levou-a para casa.

A cidade, a princípio, se revoltou (um moço de boa família envolvido com uma mulher-dama da pior qualidade, com tantas moças sérias prontas para o matrimônio?). Aos poucos, todos passaram a evitá-lo. Nem os amigos do bar, nem os parentes, até o padre o excomungou (um filho de Deus não pode se macular com as carnes pecadoras de uma filha do Demônio).

Ele não se abateu. Tinha-a para si.

– Ninguém entende os poetas, meu amor.

Joana o entendia.
Roberto Fortes
Enviado por Roberto Fortes em 23/08/2007
Reeditado em 24/08/2007
Código do texto: T620967

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Sobre o autor
Roberto Fortes
Iguape - São Paulo - Brasil
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Roberto Fortes