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Rosas na Lareira

            "Me sinto só. Desde que você partiu não consigo mais fazer as coisas como antes. Estou disperso. Vivo como se tivesse algo pesado trancando minha garganta o tempo todo. Ah, minha bela, se você soubesse o quanto faz falta para mim!
Sinto falta dos nossos sorrisos gratuitos. Sinto falta de ter você ao meu lado me esquentando e me ajudando a passar por toda essa merda. Deixe o castigo para os Deuses e volta para mim, como antes. Eu mudei, eu juro!
Tudo me parece ainda mais insensato e confuso aqui dentro. Espalhei fotografias suas por todo local. Espero você aparecer na minha frente como um anjo o tempo todo. Como um anjo meu, como sempre foi. Apesar de cinco anos passados ainda sinto perfeitamente o cheiro do seu corpo nu, suado, em cima de mim. Aos meus braços quero te proteger de toda essa merda que me ronda.
Ah, meu bem, se for dizer mais um não ao menos se mate e me liberte desse pesadelo. Não seja tão egoísta ao ponto de ficar viva. Te amo mais do que a própria morte.
Com muito carinho,

Seu amor"

      Suas cartas ainda a tocavam como na adolescência. Mas não podia mais. Não dava. Ele cometeu o pior crime que alguém poderia cometer e isto para ela era imperdoável.
     Pegou o buquê de rosas vermelhas que veio acompanhando a carta e cheirou-o profundamente. Com um golpe brusco e rápido jogou as rosas na lareira. E viu as sensíveis pétalas queimarem rapidamente. Era o que tinha feito com sua vida.
Sentia medo só de pensar no quanto ainda amava aquele homem. Não podia, era um louco, psicótico. Ele matara seu filho em uma situação inexplicável por ciúmes. Estava carregando um peso que não sabia se era realmente seu.
      A cada pétala que queimava ela via a imagem do seu filho sendo assassinado naquele fogo e então vira a imagem do seu amor imprudente aparecendo em meio às chamas.
     Tinha vontade de mergulhar naquele fogo e abraçar os homens da sua vida. Mas estava machucada e destruída demais. Conhecia a patologia dele. Era um homem perigoso e capaz de tudo por ela. Estava apavorada. Maltratava-se e se culpava por ter tido uma sorte tão grande e tão maldita no jogo do amor.
   Jogou o seu sofisticado vinho na carta e viu as palavras de seu amado se enrugarem, como se estivessem silenciando lentamente. Jogou aquelas palavras silenciadas na lareira. Sabia que eram sinceras demais para guardar.
   Bebeu a taça de vinho de maneira calma, bastante racional. Esperou que o efeito da substância libertadora chegasse logo e caiu no sono mais profundo da vida.
    E viu rosas queimando.
Malluco Beleza
Enviado por Malluco Beleza em 26/08/2007
Código do texto: T624521

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Sobre o autor
Malluco Beleza
Salvador - Bahia - Brasil, 30 anos
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