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PRESENÇA DE MÃE

Fazia frio naquela noite. Aproximava-se o mês de julho e o inverno a cada dia se tornava mais rigoroso. Mesmo assim, não demonstrava incômodo, e parecia até gostar do frio. No último inverno, dormiu ao relento várias noites, recusando-se a voltar para casa; queria sentir o frio da madrugada entranhado em sua carne. A experiência não fora tão ruim assim, chegou a gostar; porém, não quis mais repeti-la, sabia que já não era jovem como nos velhos tempos e não queria abusar da saúde.

Ao cruzar uma esquina, por onde ninguém mais passava àquela hora, sentiu no rosto e no corpo um vento gelado, cortante, que nem o cachecol que trazia enrolado ao pescoço, nem o grosso casaco que vestia foram suficientes para protegê-lo. Nesse momento, envergonhou-se de sua fragilidade e do quanto um simples vento o estava incomodando, sem que ele nada pudesse fazer, a não ser se esconder em suas vestimentas.

Naquele instante, quase chegou a acreditar que tinha menos importância do que um surrado casaco ou um velho cachecol que as traças haviam atacado diversas vezes. Precisou entrar no primeiro bar que viu aberto e tomar algumas doses de conhaque para espantar o asco que sentiu de si mesmo.

Há mais de um ano não via a mãe, que morava num bairro relativamente elegante, no apartamento que o pai deixara como único bem do testamento. Nos últimos dias, sentia uma vontade enorme de revê-la e conversar como nos tempos quando era criança. Sempre que se lembrava dessa época seus olhos ficavam umedecidos, mas nunca tinha ocasião para visitá-la. Além do mais, sua infância representava um tempo já distante e nada tinha a ver com o que ele era hoje. Sentia-se um tolo ao perceber as lágrimas que escorriam pelo rosto, sem que pudesse contê-las.

Ao tomar a última dose, conseguiu a muito custo olhar para o relógio da parede e ver que já era bem tarde. Além disso, o dono do bar começava a fechar as portas e a olhá-lo com impaciência. Saiu pela noite adentro, um pouco cambaleante e, como sempre fazia, teve de ir se apoiando pelas paredes.

Não se recordou da hora em que chegou em casa. Só se lembrava que estava começando a amanhecer. Entrou e reparou na ordem em que a sala se encontrava, mas a sua cabeça estava confusa, a vista bastante embaciada e, antes de ir para o quarto, conseguiu apenas perceber a presença de uma mulher sentada no sofá, que acompanhava todos os seus passos.

A embriaguez não lhe permitiu notar o manear de cabeça e o suspiro de desgosto da distinta senhora.
Roberto Fortes
Enviado por Roberto Fortes em 26/08/2007
Código do texto: T625220

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Sobre o autor
Roberto Fortes
Iguape - São Paulo - Brasil
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Roberto Fortes